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Zaqueu, conquistado por um amor exagerado

Os protagonistas da cena doEvangelho de hoje (31º Dom Tempo Comum), Jesus e Zaqueu, são duas pessoascompletamente diferentes entre si, diametralmente opostas; porém, procuram-semutuamente. Ao redor deles, encontra-se uma multidão, que parece desordenada ecrítica, que até se torna obstáculo: de um lado, impede Zaqueu de ver, e deoutro, murmura contra Jesus, contestando-o por estar do lado “errado” ou comquem já estava perdido.

Zaqueu é a uma das poucas pessoasque, nos quatro Evangelhos, toma a iniciativa de encontrar-se com o Mestregratuitamente: nada tem a dizer e nada tem a pedir. Zaqueu não sabe o quedeseja de Jesus, nem o que Jesus deseja dele; esta é a graça: encontrar-se como “Mistério”, deixar-se “interpelar”… Ele não tinha uma ideia formada,consistente, sobre Jesus. Brota nele, talvez por curiosidade, uma decisão desimplesmente se encontrar com Ele. No seu interior palpita um desejo estranho.Diz o texto que desejava “ver quem era Jesus”. Mas Zaqueu é obrigado a “sair desi”, deixar seu “lugar”; não pode “trazer a si”, “mandar vir”… é forçado a sedeslocar.

E, talvez pela primeira vez,esbarra-se de encontro ao muro da impotência. Não podia ver Jesus porque era deestatura baixa e havia muitas pessoas em volta do Mestre. Provavelmente não foiapenas a quantidade de gente que o impediu de aproximar-se d’Ele; foi a suacondição de pessoa rejeitada pela multidão. Zaqueu, pequeno em estatura, baixoem ideais, atrofiado em seus sonhos…, alimentava dentro de si um grandedesejo de “querer ver”; tal atitude desvela a busca pela verdade, pelo bem,pela vida verdadeira, que reina latente no coração de cada ser humano.

Jesus se coloca, precisamente,neste espaço, fazendo brotar no interior de Zaqueu o que era novo,surpreendente, enfim, a “hora” da salvação. Não faltava segurança econômica enem social para Zaqueu. Porém, no fundo, talvez fosse um homem solitário,triste, marginalizado. Sentiu em seu coração um vazio profundo, que setransformou em desejo atormentador, ou seja, uma urgente necessidade demudança.

Sentiu que não podia continuarindiferente diante da pessoa de Jesus. A agitação, a pressa e o entusiasmo, comos quais se pôs à procura do Mestre, indicam a clara demonstração de quesurgira nele uma estranha inquietude. O nome e a pessoa de Jesus tiraram o véuque encobria o vazio de seu coração, a solidão na qual se encontrava, ainsignificância de seus próprios dias.

O encontro de ambos acontece naestrada, onde transitam, onde ocorrem os acontecimentos do dia-a-dia, onde avida transcorre, onde passam os dias e os anos…Zaqueu não se preocupa commais nada: nem com a boa imagem ou com o que a multidão pensaria ao vê-lo sobreuma árvore; o respeito humano, o bom senso, o status social e o “bom nome” nãolhe interessam mais. Enfrenta a limitação de sua baixa estatura, esquece acondição de ser um homem rico, “respeitável”, e sobe numa árvore, da qual pensaver Jesus sem ser visto.

Jesus passa pelo caminhoarborizado e vê Zaqueu em seu observatório, e o convida a descer:

                        “Desce depressa, porque hoje preciso ficar em sua casa”.

Não é uma visita passageira; é oamigo que deseja permanecer em sua casa. Não vai para deixar alguma coisa, vaipara ser o próximo de Zaqueu. O próximo entra como amigo, sem impor condições,sem fazer pesar-lhe a sua situação de pecador. Chama-o finalmente pelo nome:“Zaqueu”. Olham-se e entendem-se. O olhar profundo de Jesus, seu amorexagerado, seu convite inesperado, sua voz penetrante, transformam de imediatoa vida daquele pequeno homem. E, nada mais foi como antes!

Mas o verdadeiro encontro entreos dois se dá em casa, entre as paredes da vida cotidiana. Jesus quer a mesa deZaqueu; não lhe importa a sua estatura. O “Senhor”, como dom gratuito einesperado, entra na casa e no coração de Zaqueu, à busca de quem estavaperdido.

Somente depois daquele encontro,fulminado pelo olhar e pelas palavras de Jesus, com o coração transbordante dealegria, Zaqueu se sente renovado e tudo, ao seu redor, lhe parece novo ediferente. Durante a refeição, partilhando do mesmo pão e do mesmo vinho, ambosse conhecem melhor. Não há perguntas, não há conselhos, nem muito menosrepreensões, mas apenas uma conversa amigável, sentimentos manifestados,experiências confrontadas.

Jesus não pede nada a Zaqueu: éseu hóspede e se contenta de estar perto dele, partilhar com ele uma refeição.Contudo, o vinho novo de Jesus arrebenta os odres velhos de Zaqueu. Assim, ochefe dos publicanos se torna transbordante, apaixonado, protagonista de umavida nova. Ele passa da solidão à partilha, da tristeza à alegria…

Zaqueu não está mais sozinho enão se sente mais uma pessoa insignificante. O olhar d’Aquele homem encheu-lheo coração; a sua casa, agora, não está mais vazia; a tristeza não o sufocamais. Finalmente, ele descobriu a luz de um olhar e experimentou a ternura deser procurado e amado.

Zaqueu foi amado “excessivamente”e decide corresponder com a mesma moeda, sem medidas. Ele viu, por um instante,a sua vida na nova visão: “Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres; ese roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. E o hóspede sela estajornada, iluminando o acontecimento e interpretando-o no seu significado de graça,de libertação: “Hoje, a salvação entrou nesta casa”.

O encontro com Jesus significoupara Zaqueu abrir-se aos pobres, partilhando seus bens com eles. Tal encontrofaz Zaqueu alargar seu espaço interior para se encontrar com os outros; oumelhor, amplia seu coração para deixar os outros entrarem em sua vida. Umencontro que desencadeia outros encontros.

Jesus é a única porta, e esta nãodá para o vazio; esta porta dá para os outros que possuem um nome, umaidentidade, uma história… Os “outros” conseguiram tirar Zaqueu do bloqueio dasua solidão e começou a ver e a ouvir, a caminhar em direção deles e com eles.Este é o sinal claro e evidente de que o próximo foi acolhido.

Em Zaqueu aconteceu uma mudançade perspectiva decisiva, radical. Anteriormente contemplava os outros a partirdo observatório do próprio ego. Agora que se encontrou com o Senhor e que saiude si para conhecê-lo e acolhê-lo, enxerga os outros a partir da perspectiva deJesus.

Ele sente que não apenas a suacasa está habitada, mas, sobretudo a sua morada interior, onde o seu “eu” temvivido como um estranho, onde jamais encontrou segurança.

Não bastou descer da árvore:“Não, Zaqueu! Desce! Desce mais! Até o fundo de ti mesmo!”

Texto bíblico: Lc 19,1-10  

Na oração: No fundo de nossopobre coração, entulhado de ídolos, como um quarto de despejo, é aí que oSenhor ajeita um cantinho para sentar-se e ficar à nossa espera.

É dentro do nosso próprio coraçãoque Deus nos espera. Compete a cada um alimentar o desejo do encontro com Ele.

– Desce ao mais profundo de vocêmesmo e ali, diante da presença misericordiosa do Senhor, estabelece um diálogoíntimo com Ele.  

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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