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Vigília de Oração: jovens, protagonistas da história

 

O “Campus Misericordiae” estavarepleto de jovens neste sábado, 30, para a Vigília da JMJ, em Cracóvia. Sob solforte e céu azul, mais de um milhão e meio de jovens participaram da Vigília deOração, presidida pelo Papa Francisco, que tem como tema: “Jesus, fonte deMisericórdia”!

O Papa Francisco chegou ao localpara presidir a Vigília; passou pela Porta Santa junto com cinco jovens querepresentavam os continentes; depois, quebrou o protocolo e convidou-os para umgiro no papamóvel. Surpresos, os jovens embarcaram para um passeio com oPontífice.

No discurso, Francisco comentouos testemunhos dos três jovens, que iniciaram o encontro. Ele destacou o deRand, uma jovem síria que contou como a guerra tem destruído seu país e seupovo. O Papa afirmou que, diante desse sofrimento, a resposta da Igreja e doscristãos não deve ser o ódio, a violência ou o terror, mas a fraternidade.

“Não queremos vencer o ódio commais ódio, vencer a violência com mais violência, vencer o terror com maisterror. A nossa resposta a este mundo em guerra tem um nome: chama-sefraternidade, chama-se irmandade, chama-se comunhão, chama-se família”,afirmou.

O Santo Padre disse que o medo,experimentado pelos jovens que testemunharam, não deve causar paralisia. “Aparalisia faz-nos perder o gosto de desfrutar do encontro, da amizade, o gostode sonhar juntos, de caminhar com os outros”.

Mas, para o Papa, há outraparalisia ainda mais perigosa e difícil de identificar: a paralisia que brotaquando se confunde a felicidade com um sofá! “Sim, julgar que, para serfelizes, temos necessidade de um bom sofá”.

“Certamente, para muitos, é maisfácil e vantajoso ter jovens pasmados e entontecidos que confundem a felicidadecom um sofá; para muitos, isto resulta mais conveniente do que ter jovensvigilantes, desejosos de responder ao sonho de Deus e a todas as aspirações docoração”, afirmou o Papa.

“Mas a verdade é outra! Queridosjovens, não viemos ao mundo para “vegetar”, para transcorrer comodamente osdias, para fazer da vida um sofá que nos adormeça; pelo contrário, viemos comoutra finalidade, para deixar uma marca. É muito triste passar pela vida semdeixar uma marca. Mas, quando escolhemos a comodidade, confundindo felicidadecom consumo, então o preço que pagamos é muito, mas muito caro: perdemos aliberdade”, completou.

Neste sentido, o Papa afirmou queJesus é o Senhor do risco, não o Senhor do conforto, da segurança e dacomodidade. Para seguir a Jesus, afirmou o Pontífice, é preciso ter uma boadose de coragem, é preciso decidir-se a trocar o sofá por um par de sapatos quete ajudem a caminhar por estradas nunca sonhadas.

“O tempo que hoje estamos a vivernão precisa de jovens-sofá, mas de jovens com os sapatos, ainda melhor,calçados com as botas. Aceita apenas jogadores titulares em campo, não há lugarpara reservas”, ressaltou.

O Papa pediu aos jovens queensinem os adultos a conviverem na diversidade, no diálogo, na partilha damulticulturalidade não como uma ameaça mas como uma oportunidade: “tende acoragem de nos ensinar que é mais fácil construir pontes do que levantarmuros!”

“Aceitais? Que respondem asvossas mãos e os vossos pés ao Senhor, que é caminho, verdade e vida?”,perguntou-lhes concluindo o discurso.



Uma vigília de arte, música e oração


A Vigília teve início com ostestemunhos de três jovens que relataram experiências pessoais de conversão,sofrimento com a perseguição e a guerra e vício de drogas.

Nas peças de dança e teatro, osjovens retratam o amor aos indiferentes – aqueles que são dependentes dastecnologias e inertes às realidades que os envolvem; o atentado ao Papa JoãoPaulo II em 13 de maio de 1981 e perdão do Pontífice ao atirador.

A figura de Santa Faustina,polonesa padroeira da JMJ, representada no palco por uma jovem, perpassou todasas cenas e testemunhos. Os jovens contaram também sua história de conversão queteve início em uma noite de “balada”.

Uma adoração eucarística concluiuo momento com a presença do Papa Francisco. Mas a festa dos jovens devecontinuar pela madrugada a dentro esse domingo, 31, na Missa de Envio queconcluirá a JMJ 2016.

 

Pronunciamento Completo do Santo Padre Francisco na Vigília de Oraçãocom os jovens no Campus Misericordiae:


“Queridos jovens!

É bom estar aqui convosco nestaVigília de Oração.

Na parte final do seu corajoso eemocionante testemunho, Rand pediu-nos uma coisa. Disse-nos: «Peço-vos,sinceramente, que rezeis pelo meu amado país». Uma história marcada pelaguerra, pelo sofrimento, pela ruína, que termina com um pedido: o da oração.Que há de melhor para começar a nossa Vigília do que rezar?

Vimos de várias partes do mundo,de continentes, países, línguas, culturas, povos diferentes. Somos «filhos» denações que estão talvez em disputa por vários conflitos, ou até mesmo emguerra. Outros vimos de países que podem estar «em paz», que não têm conflitosbélicos, onde muitas das coisas dolorosas que acontecem no mundo fazem parteapenas das notícias e da imprensa. Mas estamos cientes duma realidade: hoje eaqui, para nós provenientes de diversas partes do mundo, o sofrimento e aguerra que vivem muitos jovens deixaram de ser uma coisa anónima, já não sãouma notícia de imprensa, mas têm um nome, um rosto, uma história, fizeram-se-mevizinhos. Hoje a guerra na Síria é a dor e o sofrimento de tantas pessoas, detantos jovens como o corajoso Rand, que está aqui entre nós e pede-nos pararezar pelo seu país amado.

Há situações que nos podemparecer distantes, até ao momento em que, de alguma forma, as tocamos. Hárealidades que não entendemos porque vemo-las apenas através dum monitor (dotelemóvel ou do computador). Mas, quando tomamos contacto com a vida, com asvidas concretas e já não pela mediação dos monitores, então algo mexe connosco,sentimo-nos convidados a envolver-nos: «Basta de cidades esquecidas», como dizRand; nunca mais deve acontecer que irmãos estejam «circundados pela morte epor assassinatos» sentindo que ninguém os ajudará. Queridos amigos, convido-vosa rezar juntos pelo sofrimento de tantas vítimas da guerra, para podermoscompreender, uma vez por todas, que nada justifica o sangue dum irmão, que nadaé mais precioso do que a pessoa que temos ao nosso lado. E, neste pedido deoração, quero-vos agradecer também a vós, Natália e Miguel, pois também vóspartilhastes connosco as vossas batalhas, as vossas guerras interiores.Apresentastes-nos as vossas lutas e o modo como as superastes. Sois um sinalvivo daquilo que a misericórdia quer fazer em nós.

Agora, não vamos pôr-nos a gritarcontra ninguém, não vamos pôr-nos a litigar, não queremos destruir. Nãoqueremos vencer o ódio com mais ódio, vencer a violência com mais violência,vencer o terror com mais terror. A nossa resposta a este mundo em guerra tem umnome: chama-se fraternidade, chama-se irmandade, chama-se comunhão, chama-sefamília. Alegramo-nos pelo facto de virmos de culturas diferentes e nos unirmospara rezar. Que a nossa palavra melhor, o nosso melhor discurso seja unirmo-nosem oração. Façamos um momento de silêncio, e rezemos; ponhamos diante de Deusos testemunhos destes amigos, identifiquemo-nos com aqueles para quem «afamília é um conceito inexistente, a casa apenas um lugar para dormir e comer»,ou com aqueles que vivem no medo porque creem que os seus erros e pecados osbaniram definitivamente. Coloquemos na presença do nosso Deus também as vossas«guerras», as lutas que cada um carrega consigo, no seu próprio coração.

Enquanto rezávamos, veio-me àmente a imagem dos Apóstolos no dia de Pentecostes. Uma cena que nos podeajudar a compreender tudo aquilo que Deus sonha realizar na nossa vida, em nóse connosco. Naquele dia, os discípulos estavam fechados dentro de casa pelomedo. Sentiam-se ameaçados por um ambiente que os perseguia, que os forçava a estarnuma pequena casa obrigando-os a ficar ali imóveis e paralisados. O medoapoderou-se deles. Naquele contexto, acontece algo espetacular, algo grandioso.Vem o Espírito Santo, e línguas como que de fogo pousaram sobre cada um deles,impelindo-os para uma aventura que nunca teriam sonhado.

Ouvimos três testemunhos;tocamos, com os nossos corações, as suas histórias, as suas vidas. Vimos comoeles viveram momentos semelhantes aos dos discípulos, atravessaram momentos emque estiveram cheios de medo, em que parecia que tudo desmoronava. O medo e aangústia, que nascem do facto de uma pessoa saber que saindo de casa pode nãover mais os seus entes queridos, o medo de não se sentir apreciado e amado, omedo de não ter outras oportunidades. Eles partilharam connosco a mesmaexperiência que fizeram os discípulos, experimentaram o medo que leva ao únicolugar possível: o fechamento. E, quando o medo se esconde no fechamento, fá-losempre na companhia da sua «irmã gémea», a paralisia; faz-nos sentirparalisados. Sentir que, neste mundo, nas nossas cidades, nas nossascomunidades, já não há espaço para crescer, para sonhar, para criar, paracontemplar horizontes, em suma, para viver, é um dos piores males que nos podemacontecer na vida. A paralisia faz-nos perder o gosto de desfrutar do encontro,da amizade, o gosto de sonhar juntos, de caminhar com os outros.

Na vida, porém, há outraparalisia ainda mais perigosa e difícil, muitas vezes, de identificar e que noscusta muito reconhecer. Gosto de a chamar a paralisia que brota quando seconfunde a FELICIDADE com um SOFÁ! Sim, julgar que, para ser felizes, temosnecessidade de um bom sofá. Um sofá que nos ajude a estar cómodos, tranquilos,bem seguros. Um sofá – como os que existem agora, modernos, incluindo massagenspara dormir – que nos garanta horas de tranquilidade para mergulharmos no mundodos videojogos e passar horas diante do computador. Um sofá contra todo o tipode dores e medos. Um sofá que nos faça estar fechados em casa, sem noscansarmos nem nos preocuparmos. Provavelmente, o sofá-felicidade é a paralisiasilenciosa que mais nos pode arruinar; porque pouco a pouco, sem nos darmosconta, encontramo-nos adormecidos, encontramo-nos pasmados e entontecidosenquanto outros – talvez os mais vivos, mas não os melhores – decidem o futuropor nós. Certamente, para muitos, é mais fácil e vantajoso ter jovens pasmadose entontecidos que confundem a felicidade com um sofá; para muitos, istoresulta mais conveniente do que ter jovens vigilantes, desejosos de responder aosonho de Deus e a todas as aspirações do coração.

Mas a verdade é outra! Queridosjovens, não viemos ao mundo para «vegetar», para transcorrer comodamente osdias, para fazer da vida um sofá que nos adormeça; pelo contrário, viemos comoutra finalidade, para deixar uma marca. É muito triste passar pela vida semdeixar uma marca. Mas, quando escolhemos a comodidade, confundindo felicidadecom consumo, então o preço que pagamos é muito, mas muito caro: perdemos aliberdade.

É precisamente aqui que existe umagrande paralisia: quando começamos a pensar que a felicidade é sinónimo decomodidade, que ser feliz é caminhar na vida adormentado ou narcotizado, que aúnica maneira de ser feliz é estar como que entorpecido. É certo que a drogafaz mal, mas há muitas outras drogas socialmente aceitáveis, que acabam por nostornar em todo o caso muito mais escravos. Umas e outras despojam-nos do nossobem maior: a liberdade.

Amigos, Jesus é o Senhor dorisco, do sempre «mais além». Jesus não é o Senhor do conforto, da segurança eda comodidade. Para seguir a Jesus, é preciso ter uma boa dose de coragem, épreciso decidir-se a trocar o sofá por um par de sapatos que te ajudem acaminhar por estradas nunca sonhadas e nem mesmo pensadas, por estradas quepodem abrir novos horizontes, capazes de contagiar-te a alegria, aquela alegriaque nasce do amor de Deus, a alegria que deixa no teu coração cada gesto, cadaatitude de misericórdia. Caminhar pelas estradas seguindo a «loucura» do nossoDeus, que nos ensina a encontrá-Lo no faminto, no sedento, no maltrapilho, nodoente, no amigo em maus lençóis, no encarcerado, no refugiado e migrante, novizinho que vive só. Caminhar pelas estradas do nosso Deus, que nos convida aser atores políticos, pessoas que pensam, animadores sociais; que nos encorajaa pensar uma economia mais solidária. Em todos os campos onde vos encontrais, oamor de Deus convida-vos a levar a Boa Nova, fazendo da própria vida um dompara Ele e para os outros.

Poderíeis replicar-me: Mas isto,padre, não é para todos; é só para alguns eleitos! Sim, e estes eleitos sãotodos aqueles que estão dispostos a partilhar a sua vida com os outros. Talcomo o Espírito Santo transformou o coração dos discípulos no dia dePentecostes, assim o fez também com os nossos amigos que partilharam os seustestemunhos. Uso as tuas palavras, Miguel: disseste-nos que no dia em que teconfiaram, lá na «Fazenda», a responsabilidade de contribuir para o melhorfuncionamento da casa, então começaste a compreender que Deus te pedia algo.Assim começou a transformação.

Este é o segredo, queridosamigos, que todos somos chamados a experimentar. Deus espera algo de ti, Deusquer algo de ti, Deus espera-te. Deus vem quebrar os nossos fechamentos, vemabrir as portas das nossas vidas, das nossas perspetivas, dos nossos olhares.Deus vem abrir tudo aquilo que te fecha. Convida-te a sonhar, quer fazer-te verque, contigo, o mundo pode ser diferente. É assim: se não deres o melhor de timesmo, o mundo não será diverso.

O tempo que hoje estamos a vivernão precisa de jovens-sofá, mas de jovens com os sapatos, ainda melhor,calçados com as botas. Aceita apenas jogadores titulares em campo, não há lugarpara reservas. O mundo de hoje pede-vos para serdes protagonistas da história,porque a vida é bela desde que a queiramos viver, desde que queiramos deixaruma marca. Hoje a história pede-nos que defendamos a nossa dignidade e nãodeixemos que sejam outros a decidir o nosso futuro. O Senhor, como noPentecostes, quer realizar um dos maiores milagres que podemos experimentar:fazer com que as tuas mãos, as minhas mãos, as nossas mãos se transformem emsinais de reconciliação, de comunhão, de criação. Ele quer as tuas mãos paracontinuar a construir o mundo de hoje. Quer construí-lo contigo.

Dir-me-ás: Mas, padre, eu soumuito limitado, sou pecador… que posso fazer? Quando o Senhor nos chama nãopensa naquilo que somos, naquilo que éramos, naquilo que fizemos ou deixamos defazer. Pelo contrário: no momento em que nos chama, Ele está a ver tudo aquiloque poderemos fazer, todo o amor que somos capazes de comunicar. Ele apostasempre no futuro, no amanhã. Jesus olha-te projetado no horizonte.

Por isso, amigos, hoje Jesusconvida-te, chama-te a deixar a tua marca na vida, uma marca que determine ahistória, que determine a tua história e a história de muitos.

A vida de hoje diz-nos que émuito fácil fixar a atenção naquilo que nos divide, naquilo que nos separa.Querem fazer-nos crer que fechar-nos é a melhor maneira de nos protegermosdaquilo que nos faz mal. Hoje nós, adultos, precisamos de vós para nosensinardes a conviver na diversidade, no diálogo, na partilha damulticulturalidade não como uma ameaça mas como uma oportunidade: tende acoragem de nos ensinar que é mais fácil construir pontes do que levantar muros!E todos juntos pedimos que exijais de nós percorrer as estradas dafraternidade. Construir pontes… Sabeis qual é a primeira ponte a construir? Umaponte que podemos realizar aqui e agora: um aperto de mão, estender a mão.Coragem! Fazei agora, aqui, esta ponte primordial, e dai-vos a mão. É a grandeponte fraterna, e podem aprender a fazê-la os grandes deste mundo… Não para afotografia, mas para continuar a construir pontes cada vez maiores. Que estaponte humana seja semente de muitas outras; será uma marca.

Hoje, Jesus, que é o caminho,chama-te a deixar a tua marca na história. Ele, que é a vida, convida-te adeixar uma marca que encha de vida a tua história e a de muitos outros. Ele,que é a verdade, convida-te a deixar as estradas da separação, da divisão, dosem-sentido. Aceitais? Que respondem as vossas mãos e os vossos pés ao Senhor,que é caminho, verdade e vida? “

                                        

Fonte: Rádio Vaticano e CançãoNova

 

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