Notícias

Santidade: presença misericordiosa

A liturgia deste domingo nosmotiva a fazer memória dos Santos e Santas, aquelas pessoas que, conhecidas ouanônimas, são presenças inspiradoras para nós que buscamos viver o seguimentode Jesus Cristo com mais autenticidade. Ao mesmo tempo, esta festa vem nosrecordar a vocação à qual todos somos chamados: vocação à santidade. Esantidade significa, na sua essência, ser presença misericordiosa.

Para Jesus, a Santidade éfundamentalmente a atitude e o modo de agir que deixa fluir os mesmossentimentos e a mesma ação de Deus Pai: “Sejam misericordiosos como o Pai émisericordioso” (Lc 6,36).

O chamado a prolongar o procedermisericordioso de Deus (sua Santidade), sempre tem um “mais” de amor, de paz,de mansidão, de justiça, de consolação…, recebido e vivido na relação com osoutros, dentro do acontecer cotidiano e imprevisível da vida.

Portanto, é nas bem-aventurançasque encontramos um “modo de proceder” que nos faz crescer na direção daSantidade de Deus. É na vivência das bem-aventuranças que deixamos transparecero que há de mais divino em nós; ao mesmo tempo, elas fazem emergir o que há demais humano em nossas vidas.

A plenitude do humano só sealcança no divino, que já está presente em nós. Ser santo(a) é aspirar ser maishumano a cada dia, destravando e expandindo o amor que Deus derramou em nossointerior.

Quando acreditamos que para sersanto(a) temos de anular os sentidos, reprimir os sentimentos, submeter avontade, centrar a vida nas renúncias e sacrifícios… nós estaremos nosdesumanizando.

Quando colocamos a santidade noextraordinário, estamos nos afastando da referência evangélica. Se cremos quesanto é aquele que faz o que ninguém é capaz de fazer, ou deixa de fazer aquiloque todos fazem, já caímos na armadilha do ideal de perfeição. E a perfeiçãonão justifica e nem salva o ser humano. Não fomos chamados para sermos“perfeitos” mas para sermos “santos”; e a santidade é vivida em meio àsfragilidades e limitações da vida cotidiana, inspirando-se sempre na santidadede Deus.

É na medida que nos fazemos maishumanos que mais nos santificamos. Ser santo(a) é ser humano(a) por excelência.

As bem-aventuranças desvelam overdadeiro rosto do(a) santo(a). Quem é ditoso(a)? Quem é bem aventurado(a)?Quem é feliz? Dizer que são felizes os pobres, os que choram, os mansos, osmisericordiosos, os que tem fome e sede de justiça, os perseguidos… é umcontra-senso para o nosso contexto social, onde ditoso é aquele que maisacumula bens, que tem mais poder, mais prestígio…, sem se preocupar com asituação dos outros.

Só conhecendo a intenção de Jesusé que poderemos descobrir o sentido das bem-aventuranças. Só descobrindo o quehá de Deus em nós, poderemos cair na conta do verdadeiro sentido da santidade.

Não bastam os meros sentimentosinteriores, mas é preciso atitudes práticas que nos fazem sair de nós mesmos enos movem ativamente ao encontro do outro.

Poderíamos dizer que as Bem-aventurançassão a quinta-essência do seguimento de Jesus.

Jesus, ao subir o monte dasbem-aventuranças, promulga seu programa de “felicidade e ventura”.

Ele compreendeu que o meio maiseficaz e mais direto para nos aproximar de Deus, e para que cada um se realizecomo ser humano que é, não é estabelecer proibições, mas fazer propostas quemais e melhor se harmonizem com nossa condição humana, com aquilo que maisdesejamos.

O Evangelho, a “boa notícia”, é otesouro que enche o ser humano de uma felicidade indescritível.

Com efeito, a primeiracaracterística que aparece nas bem-aventuranças é que o programa de vida queJesus nos confiou é um programa para alcançar a felicidade, a vida ditosa,prazerosa, bem-aventurada. Na boca de Jesus brilha sempre a palavra chave: “Felizes”.

As bem-aventuranças não são leispara simplesmente evitar o mal, mas o potencial humano que, quando ativado,espalha criativamente, por todos os lugares, a Bondade e a Beleza divinas.  Expressam, de modo conciso e explícito, ocoração mesmo de Jesus e seu desejo ardente de contagiar a todos os que seencontravam com Ele. A felicidade proclamada era já uma realidade presente naSua pessoa e na Sua missão.

Jesus nos convida a viver umafelicidade que já está em marcha. A vida é movimento e as bem-aventurançaspossibilitam a passagem de uma vida suportada para uma vida plenamenteassumida.

Nelas, Jesus nos desperta parasairmos de nossa paralisia e fixação, colocando-nos em marcha através de nossafome e sede de justiça, através dos lutos que temos de superar e das oposiçõesque temos de enfrentar, através da mansidão, da busca da paz…

O núcleo do ensinamento de Jesusestá na quarta e quinta bem-aventuranças. A atitude central do discípulo doReino é a misericórdia e a fome de justiça; uma fome de justiça que brota damisericórdia, e uma misericórdia que se expande não no mero assistencialismo,mas na fome e sede de justiça. Converti-das em principio de felicidade, amisericórdia e a fome de justiça são o dinamismo e o motor de toda verdadeirahumanização; esta é a nota fundante do Evangelho, o princípio de todo amorcristão, entendido de forma universal, como amor que cria, ajuda, pacifica,eleva…, enfim, abre um horizonte de sentido.

As demais bem-aventuranças sãocomo círculos concêntricos que nascem em torno à atitude fundamental damisericórdia e da fome de justiça.

A terceira e a sextabem-aventuranças: de um lado uma pessoa aflita, condoída, sofredora, comum  pesar pela situação do mundo, pelador das vítimas; ou seja, a fome e sede de justiça e a misericórdia lhe deixamum certo entristecimento, compatível com muitas alegrias. De outro lado, essador faz com que, aquele que reage com misericórdia e fome e sede de justiça,tenha o coração limpo: a fome de justiça vivida com esse tipo de dor limpa ocoração. E os corações limpos encontram a Deus.

A segunda e a sétimabem-aventuranças: aqueles que tem misericórdia e fome de justiça são mansos. Amera indignação pode torná-los violentos, mas a misericórdia os faz mansos, nãoviolentos. E também, precisamente por essa mansidão, serão atores de paz, serãopacificadores.

E chegamos ao último círculodesta atitude central: quê acontece com aqueles que adotam esta atitude?Tornam-se “pobres com espírito”. A fome de justiça e a misericórdia aproxima-osdos pobres, despoja-os de muitas coisas… Esses são os pobres pelo Espírito.Eles tem o coração desprendido; por isso se tornam pobres e, em paralelismo comisso, são perseguidos por causa da justiça.

 

Texto bíblico:  Mt 5,1-12

Na oração: Marcado pelo espírito das Bem-aventuranças, movido porum olhar novo e um coração ardente, entre em comunhão com a realidade tal comoela é; sinta o mundo como “sacramento de Deus” e seja capaz de descobrir eapontar os sinais de esperança ali presentes; revele uma presença afetiva,marcada pela ternura, compaixão e por isso geradora de misericórdia; presençacomprometida solidariamente com o Projeto de Jesus, na vivência da mansidão ena busca a paz…

– Reze as dimensões da vida queestão paralisadas, impedindo-o viver a dinâmica das bem-aventuranças.

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

Outros conteúdos