Reflexão do Evangelho do 27º DOMINGO Tempo Comum – Somos seres de gratuidade
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Somos simples servidores; fizemos oque devíamos fazer” (Lc 17,10)
O evangelho de hoje (27º Dom TC) nos propõeuma atitude que, à primeira vista, parece inaceitável: o empregado não devereclamar quando, depois de todo o serviço no campo, em vez de ganhar elogio,ele ainda deve servir o jantar. Ele é um simples servidor do Reino, tem defazer seu serviço, sem discutir.
Mas a intenção de Jesus é outra: Ele apontapara a dedicação integral no servir. A parábola desmascara a atitude daqueleque, no serviço do Reino, busca seus próprios interesses, alimenta sua vaidadee busca ser o centro das atenções. Quem não gosta de receber elogios pelo seuserviço ao Reino?
No entanto, trabalhar para buscar o louvor,o interesse próprio, o lucro, o reconhecimento, a fama, o poder… esvaziam osentido da missão em favor da evangelização, pois são próprios de umamentalidade calculista e materialista da sociedade em que vivemos, que procuracompensação em tudo o que se faz. Na perspectiva de Deus, o fundamental éativar o espírito de serviço e disponibilidade, que nunca poderá ser pago. Quemvive no espírito de comunhão nunca achará que está fazendo demais para osoutros.
Generosidade, gratuidade, doação: palavrasquase desconhecidas do nosso vocabulário e em nosso contexto social. Mas sãoelas que nos levam em direção aos outros, libertando-nos de nosso pequeno eu.São elas que nos afastam da mesquinhez, da vaidade, do egoísmo, da busca do“próprio amor, querer e interesse”. Por serem mais afetivas, mais espontâneas,ligadas ao coração, elas revelam-se na ação, não em função de um mandato, deuma lei, de um interesse…, mas unicamente de acordo com as exigências doamor, da solidariedade…
São elas que alargam o nosso coração atédilatar-nos às dimensões do universo, rompendo nossos estreitos limites elançando-nos a compromissos mais profundos. Sentimo-nos livres para qualquerdesafio e cada nova entrega é uma libertação maior: são novas oportunidades deserviço, de maior aproximação d’Aquele que veio, não para ser servido,mas para servir e para dar sua vida pelo mundo.
“Somos simples servidores”. Emalgumas traduções da bíblia encontramos: “Somos servos inúteis”. Tal tradução émuito limitada, pois fomenta a acomodação, além de contraditória, pois servoinútil não serve. Servindo com simplicidade, não em função de compensações egoístas,mas em função da retidão, da fidelidade e da gratuidade, seremos indispensáveispara o projeto de Deus.
Esta é a grandeza e recompensa do servidorno grande trabalho que realiza em favor do Reino: ultrapassar-se sempre, mas noamor; o êxito? entregue-o a Deus! Afinal, é o Senhor quem realiza em nós oquerer e o fazer, para além de nossa boa disposição (Fil. 2,13).
A grandeza, a dignidade, a capacidaderedentora de toda atividade em favor dos outros provém do fato de servivido numa profunda união pessoal com Cristo e com o desejo intenso de quenossa ação esteja em sintonia com a vontade e a glória do Pai, e não com asnossas buscas de compensações.
O chamado de Jesus é para “colaborar”, paratrabalhar com Ele; e deste chamado ninguém é excluído, porque Ele abriu essapossibilidade para todos (“chama todos e cada um em particular”). Qualquer queseja o trabalho , ele se define pelo afeto pessoal a Jesus, pela identificaçãocom seu projeto libertador. Por isso, é decisivo algumas indicações que contribuempara fazer do serviço ao Reino uma “experiência espiritual”: a pureza demotivações (por que faço isso? para quem faço?), a capacidade de “contemplar”,o crescer em gratuidade e a relativização de compensações, o deixar-se ajudar,a capacidade de agradecer…
A atitude de gratidão (consciência vivadaquilo que cada dia nos é dado gratuitamente) nos motiva a viver o trabalhocomo serviço, libertando-o radicalmente de suas dimensões de rotina, de carga,e esvaziando-o de toda pretensão egoísta.
Quando vivemos nosso trabalho a partir dagratidão, o esforço que o mesmo trabalho exige brota de um modo mais natural,mais espontâneo…; por isso, “cansa” menos, “desgasta” menos…
Se vivemos a partir da gratidão, ficamosmenos “dependentes” da compensação que os outros poderiam dar à nossa entregaou ao nosso serviço. Como dizia S. Inácio aos estudantes de Coimbra, “sãooutros os soldos” que nos compensam.
Uma tentação sutil, presente em todos nós,é esperar reconhecimento e até elogios das pessoas pelo serviço prestado. Quemcai nesta tentação, passa a necessitar deste tipo de gratificação para manterseu entusiasmo e seu élan apostólico. Fica a impressão que, no apostolado, aoinvés de buscar agradar a Deus, busca-se recompensas humanas. Quando não háelogios e reconhecimentos explícitos, interpreta-se isso como uma ingratidão euma falta de valorização, provocando uma baixa na própria motivação eentrega.
A verdadeira maturidade espiritual coincidecom o sentido da gratuidade, ou seja, ajustar-se ao modo de agir de Deus,superando todo autocentramento e todo voluntarismo; quem assim vive experimentao consolo de sentir-se amado, perdoado e chamado por Deus, pois “o ser humano éfundamentalmente um ser de gratuidade”.
A gratuidade só pode ser vivida equilibradamente em toda sua profundidade e intensidade por aquele que é plenamenteconsciente de sua pobreza e indignidade radical, por aquele que, por ter-sesentido pecador e amado ao mesmo tempo, não deseja ser nem melhor nem maisperfeito, senão mais filho(a) de Deus pelo compromisso e doação.
E, precisamente movido pelo amor filial,deseja ativar todos os seus talentos e recursos, até o extremo de suaspossibilidades, com o desejo de só agradar a Deus que tanto lhe ama. Agratuidade, portanto, é o fruto maduro, resultado espontâneo do consolo doperdão e do amor, que habilita o ser humano a entrar no fluxo da ação salvíficado próprio Deus.
E esta conversão à gratuidade possui umadupla dimensão:
– é abandono da confiança em si mesmo e esvaziamento do culto ao próprio eu.
A pessoa que confia em seu próprio esforçopara se projetar e brilhar, sem abrir espaço à graça de Deus, vê-se condenada àesterilidade, experimenta a aridez interior, a insatisfação de quem se empenha inutilmente, a angústia de quem se esforça sem conseguir a alegria da comunhão,e o desamparo de quem se vê triste, só e desolado.
Eis o que significa “gratuidade”: cair na contade que tudo é dom e graça de Deus, que as boas obras, por mínimas quesejam, são um presente que Deus lhe concede poder realizá-las, que todotrabalho que se faça (mais ou menos importante, mais público ou mais escondido,com ou sem compensações…) é uma maneira pessoal de co-laborar com Aquele quefez de sua vida uma entrega por pura gratuidade.
Textobíblico: Lc. 17, 5-10
Na oração: “Quantas dádivas! Sobrevivemos ecrescemos graças a um cem número de valiosos dons; e a natureza é um cantopermanente ao Criador que nela se anuncia e espelha – ela é desdobramento de umamor sem limites.
Ao ver-se beneficiado, há quem exclame:“Não precisava tanto!”
Seja você assim. Você participa dessamisteriosa gratuidade. Abra os olhos para essa diversidade a lembrar queas portas para ser e amar estão sempre abertas. Familiarizado com a dádiva,seja eco permanente da gratidão” (Frei Cláudio Van Balen).
– Seu “serviço apostólico” na comunidade:pura gratuidade ou busca de compensações e elogios?
Pe.Adroaldo Palaoro sj
