Reflexão do Evangelho do 25º Domingo TC – Operação Futuro
Um dos piores vírus que ameaça emina as forças de nossas comunidades cristãs é a falta de iniciativas, é aatitude de acomodar-se com o de sempre, seguir os caminhos trilhados da rotinae da repetição. Rebanho “dócil”, sujeito a manipulações legalistas, sem maiorespretensões e sem criatividade no anúncio da Boa Nova do Evangelho.
Enquanto “dormimos” em nossaapatia e acomodação, outros (a partir de seus interesses próprios ou de grupos)aguçam sua inteligência e afinam novas estratégias, saem pelos caminhos e fazemouvir sua voz.
Os “filhos deste mundo” tem mais“iniciativas” e ideias que os chamados filhos da luz. Até parece que a luz nosfaz adormecer e nos acomodamos em um modo “normótico” de viver. A parábola doevangelho deste domingo (25º Dom TC) não pretende se referir em absoluto àcorrupção e ao roubo, mas ela está centrada numa questão radical: “Os filhosdas trevas são mais astutos que os filhos da luz”.
Em cada um de nós convivem a luze as trevas. A parábola parece conter uma profunda ironia, ao confrontar-nosconosco mesmos e perguntar-nos de que maneira procedemos nos assuntos queconcernem às “trevas” (ego) e naqueles que potenciariam a luz que somos.
A experiência nos diz que, quandoé nosso ego que toma iniciativa, ele ativa meios, recursos, táticas,estratagemas…, com a finalidade de sobressair vaidoso e assegurar suasobrevivência (como faz o empregado da parábola, que representa, justamente, o nossopróprio ego e seu mundo de interesses).
O que ocorre com a luz que é anossa verdadeira identidade? Quê fazemos com o melhor de nós mesmos? Seempregássemos tanta motivação e tantos meios para que nossa verdadeiraidentidade se manifestasse e deixasse sua marca, nosso mundo seria bemdiferente.
Jesus, na parábola, não louva omal administrador por sua péssima administração e roubos. O que Jesus querdestacar é sua “inteligência” e “esperteza” para garantir seu futuro, a astúciacom que atua para atrair a benevolência dos credores de seu amo.
E aqui começa a “operação futuro”daquele administrador. Astuto e vivo, ele, antes de apresentar o balanço final,consegue fazer reduções nas dívidas dos credores. Objetivo? Fazer “amigos” paraque quando fosse despedido do trabalho pudesse ser socorrido por eles emmomentos de penúria.
Estamos falando do astuto aserviço de si mesmo (quer que os devedores o ajudem…; está comprando asolidariedade e a colaboração deles). Certamente, este administrador inicia umasubversão, mas o faz em favor de si mesmo, dentro do grande “clube” daquelesque se aproveitam roubando dinheiro. Não lhe interessam os bens do amo (nem avida dos pobres), mas sua própria subsistência, em um mundo de ladrões que sesustentam a si mesmos, roubando do grande capital para benefício próprio.
Assim como alguns usam suainteligência e sua astúcia para causar morte (tráfico de drogas e construção dearmas, máfias de tráfico de pessoas e de prostituição, corrupção naadministração pública…), porque não podemos ativá-la para buscar caminhos dejustiça, criar pontes de reconciliação, despoluir o ambiente hediondo que nosenvolve?
Subitamente, o relato de hoje dáum salto e nos leva do administrador injusto (que atua astutamente no interesse próprio) à exigência epossibilidade de converter o “dinheiro da iniquidade” (dinheiro que mata) emfonte de justiça e de amizade.
O dinheiro, enquanto mediaçãonecessária, entra na categoria dos meios humanos a serviço de um fim. Trata-sede fazer com que ele seja transparente, na linha da fraternidade e do Reino, ouseja, converter o dinheiro naquilo que deve ser: um meio de “relaçãotransparente entre pessoas”, um meio de justiça e solidariedade amorosa, paraque o ser humano atinja a meta de sua vida.
O dinheiro, portanto, aparececomo algo funcional, mas facilmente pode se converter em senhor e dono da vida.Por sua própria natureza, ele confere uma segurança e uma autossuficiência quenenhum outro objeto pode fornecer.
Jesus tinha consciência dosriscos e perigos de uma vida enredada no dinheiro. Ele sabia da força desedução que a riqueza exerce e da capacidade que ela tem de obscurecer apercepção correta da realidade. Jesus expressa isso dizendo: “Não podeis servira Deus e ao dinheiro”. Com estas palavras, Ele não só desvela nossa tendência a divinizar odinheiro, mas volta a insistir no dilema anterior: na prática, quê nosinteressa mais, o dinheiro ou Deus? Quem, na verdade, ocupa o centro de nossa vida?
Entre as coisas que podem desordenara pessoa, o dinheiro, sem dúvida, tem um poder de sedução todo especial. Elerevela o risco de gerar uma dinâmica de ganância, sem freio, que a pessoa nãocontrola, endurecendo seu coração e conduzindo-a à presunção deautossuficiência, de se bastar a si mesma e de não precisar de mais ninguém.
Além disso, existem outrasmanifestações ligadas à ânsia de fazer do dinheiro o centro da vida: o desejode prestígio, a ilusão de onipotência, de poder, de mando, o anseio de títulos,da aparência, de ciência, de status. E a vida não se ordena enquanto o fatordinheiro, desestabilizador por seu caráter “pegajoso”, não se situa no seudevido lugar.
De fato, o dinheiro, ao se tornarum fim em si mesmo, longe de pacificar, gera sempre novos temores, ansiedades einseguranças: medo de perder o que foi conquistado, medo de que um rivalconsiga um bem cobiçado, ou ainda de ser superado na escala social, tornandovãos todos os esforços de uma vida…
Outro sentimento típico doavarento é a tristeza, ligada à frustração de não poder nunca encontrar algoque o satisfaça, fazendo-o sentir-se cada vez mais indigente. Torna-se tãopobre que só tem dinheiro.
Aquele que põe seu tesouro nodinheiro, põe ali o seu coração, seu interesse, sua força e sua afetividade. Odinheiro tem um tal poder de absorção, que ele se torna rival de Deus. Quandouma pessoa faz do dinheiro a orientação fundamental de sua vida, quando odinheiro é seu único ponto de apoio na vida e sua única meta, então a relaçãocom o Deus e com os outro se dilui.
A razão é bem simples. Porque ocoração do indivíduo afeiçoado ao dinheiro se esfria e se petrifica,distanciando-se das pessoas. Tende a buscar somente seu próprio interesse, nãopensa no sofrimento, não vê as necessidades nem as injustiças que os outrossofrem. O coração enredado pelo dinheiro corre o risco de matar o espíritosolidário, pois já não há mais lugar para o amor desinteressado, nem para afraternidade. Só vive para acumular coisas e para fazer dos outros seusdependentes. E, por isso mesmo, nele não há lugar para o Deus que é Pai detodos. Assim, não pode acolher a Aquele que é Amor, Gratuidade.
A verdadeira riqueza, que de fato nos pertence, é aquela que recebemosao partilhar o melhor que há em nós mesmos, tornando-nos assim participantes dagenerosidade abundante de Deus.
Texto bíblico: Lc 16,1-13
Na oração: A quem sirvo? Quem é o “senhor” Que comanda o meucoração?
Deus pôs em minhas mãos tantosdons, tantas possibilidades… E quê estou eu fazendo com tanta “riqueza” que oSenhor me confiou?
Sou um administrador fiel esolícito, ou vou desperdiçando pela vida os “bens” (talentos e oportunidades)que o Senhor me deu e continua me cumulando?
Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj
