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Papa na Via-Sacra: vergonha pelo sangue inocente

Vergonha e esperança foram aspalavras usadas por Francisco ao final da Via-Sacra realizada no Coliseu deRoma na Sexta-feira Santa. Após as 14 estações, que recordaram o drama dasguerras, dos migrantes, das famílias dilaceradas e das crianças violadas, oPapa fez uma oração em que denunciou os motivos para sentir vergonha e anunciouos motivos para ter esperança.

Os motivos da vergonha


“Vergonha por todas as imagens dedevastação, destruição e naufrágio que se tornaram ordinárias na nossa vida.Vergonha pelo sangue inocente que diariamente é derramado de mulheres, criançase migrantes, de pessoas perseguidas pela cor de sua pele ou pertença étnica esocial e por sua fé no Senhor. Vergonha pelas muitas vezes que, como Judas ePedro, O vendemos e traímos e O deixamos só a morrer pelos nossos pecados,fugindo como covardes da nossa responsabilidade. Vergonha pelo nosso silênciodiante da injustiça, pelas mãos preguiçosas em dar e ávidas em tirar e emconquistar, pelo nossa voz forte em defender os nossos interesses e tímida emfalar dos interesses dos demais. Pelos nossos pés velozes no caminho do mal eparalisados no caminho do bem. Vergonha por todas as vezes que nós bispos,sacerdotes, consagrados e consagradas escandalizamos e ferimos o Seu corpo, aIgreja, e esquecemos o nosso primeiro amor, o primeiro entusiasmo e nossa totaldisponibilidade, deixando enferrujar o nosso coração e a nossa consagração.”

 

Os motivos da esperança


“Tanta vergonha, Senhor”,prosseguiu o Papa, mas também tanta esperança, confiante de que Jesus “não nostrata pelos nossos méritos, mas unicamente segundo a abundância da Suamisericórdia”.

“A esperança de que a sua cruztransforma nossos corações endurecidos em corações de carne, capaz de sonhar,de perdoar e de amar. Transforma essa noite tenebrosa de Sua cruz em alvorecerda Sua ressurreição. A esperança de que a Sua fidelidade não se baseia nanossa. A esperança de que a fileira de homens e mulheres fieis à Sua cruzcontinua e continuará a viver fiel como o fermento que dá sabor e como a luzque abre novos horizontes no corpo da nossa humanidade ferida. Esperança de quesua Igreja tentará ser a voz que grita no deserto da humanidade para preparar aestrada do Seu retorno triunfal quando virá julgar os vivos e os mortos. Aesperança que o bem vencerá não obstante a sua aparente derrota.”

Não se envergonhar nem instrumentalizar a cruz


“Ó Senhor Jesus, filho de Deus, diantedo Seu patíbulo nos ajoelhamos envergonhados e esperançosos e pedimos queperdoe os nossos pecados e nossas culpas. Pedimos que se lembre de nossosirmãos que sucumbiram pela violência, pela indiferença e pela guerra. Pedimosque rompa as correntes que nos mantêm presos no nosso egoísmo, na nossacegueira voluntária e na vaidade dos nossos cálculos mundanos. Ó Cristo, nósLhe pedimos que nos ensine a jamais nos envergonhar da Sua cruz, a nãoinstrumentalizá-la, mas honrá-la e adorá-la, porque com ela nos manifestou amonstruosidade dos nossos pecados, a grandeza do seu amor, a injustiça dosnossos juízos e a potência da sua misericórdia. Amém.”


 Via-Sacra no Coliseu – Texto integral

As reflexões deste ano daVia-Sacra no Coliseu foram escritas pela biblista francesa Anne-MariePelletier. Eis o texto na íntegra:

“Por fim, a Hora chegou. Ocaminho de Jesus pelas estradas poeirentas da Galileia e da Judeia, ao encontrodos corpos e dos corações atribulados, impelido pela urgência de anunciar oReino…, esse caminho detém-se aqui, hoje. Na colina do Gólgota. Hoje a cruzatravanca a estrada. Jesus não irá mais longe.


Impossível ir mais longe!

Aqui o amor de Deus obtém a suamedida plena: amor sem medida.

Hoje, o amor do Pai, que desejaque todos os homens se salvem por intermédio do Filho, vai até ao extremo, ondedeixamos de ter palavras, onde ficamos desorientados, onde a nossareligiosidade é ultrapassada pelo excesso dos desígnios de Deus.

Com efeito, o sucedido no Gólgotaé, contra todas as aparências, questão de vida, de graça e de paz. Trata-se,não do reino do mal que conhecemos demasiado bem, mas da vitória do amor.

E, precisamente sob a mesma cruz,trata-se do nosso mundo, com todas as suas quedas e os seus sofrimentos, osseus apelos e as suas revoltas, tudo aquilo que clama a Deus, hoje, a partirdas terras de miséria ou de guerra, nas famílias dilaceradas, nas prisões, nasbarcaças sobrecarregadas de migrantes…

Tantas lágrimas, tanta miséria nocálice que o Filho bebe por nós.

Tantas lágrimas, tanta misériaque não acabam perdidas no oceano do tempo, mas são recolhidas por Ele, paraser transfiguradas no mistério de um amor em que o mal é consumido.

É da invencível fidelidade deDeus à nossa humanidade que se trata no Gólgota.

É um nascimento que lá se realiza!

Devemos ter a coragem de dizerque a alegria do Evangelho é a verdade deste momento!

Se o nosso olhar não alcança estaverdade, então continuamos prisioneiros nas redes do sofrimento e da morte. Etornamos vã, para nós, a Paixão de Cristo.


Oração

Senhor, os nossos olhos estãoofuscados. Como acompanhar-Vos tão longe?

«Misericórdia» é o vosso nome.Mas este nome é uma loucura.

Rompam-se os odres velhos dosnossos corações!

Curai o nosso olhar para que seilumine com a boa notícia do Evangelho, na hora em que estamos ao pé da Cruz dovosso Filho.

E nós poderemos celebrar «alargura, o comprimento, a altura e a profundidade» (Ef 3, 18) do amor deCristo, com o coração consolado e encandeado.

I ESTAÇÃO

Jesus é condenado à morte


Do Evangelho segundo São Lucas

Quando amanheceu, reuniu-se oConselho dos anciãos do povo, sumos sacerdotes e doutores da Lei, que O levaramao Sinédrio (22, 66).

Do Evangelho segundo São Marcos

E todos sentenciavam que Ele eraréu de morte. Depois, alguns começaram a cuspir-Lhe, a cobrir-Lhe o rosto comum véu e, batendo-Lhe, a dizer: «Profetiza!» E os guardas davam-Lhe bofetadas(14, 64-65).


Meditação

Não foram necessários muitosdebates para se pronunciarem os homens do Sinédrio. Já há muito tempo que acausa estava decidida. Jesus deve morrer!

Já pensavam assim aqueles quequeriam atirá-Lo pela encosta abaixo da colina, quando, na sinagoga de Nazaré,Jesus abrira o livro e aplicara a Si mesmo as palavras de Isaías: «O Espíritodo Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu para (…) proclamar um ano favorávelda parte do Senhor» (Lc 4, 18.19).

Já quando curara o paralítico napiscina de Betzatá, inaugurando o sábado de Deus que liberta de todas asescravidões, se multiplicaram as murmurações homicidas contra Ele (cf. Jo 5,1-18).

E ao longo do último trecho deestrada, enquanto subia a Jerusalém para a Páscoa, o nó fora-se inexoravelmenteapertando: Ele não mais escaparia aos seus inimigos (cf. Jo 11, 45-57).

Mas devemos ir, com a memória,ainda mais longe começando de Belém. Desde os dias do seu nascimento, Herodesdecretara que Ele devia morrer. A espada dos esbirros do rei usurpadormassacrou os meninos de Belém. Então, Jesus escapou à sua fúria; mas só duranteum certo tempo. A verdade é que a sua não passava duma vida pendente. No prantode Raquel pelos seus filhos que já não existem, ressoa, intermitente, adolorosa profecia que Simeão anunciará a Maria (cf. Mt 2, 16-18; Lc 2, 34-35).


Oração

Senhor Jesus, Filho predileto,que viestes visitar-nos, passando entre nós a fazer o bem, trazendo de volta àvida aqueles que habitam na sombra da morte, Vós conheceis os nossos coraçõestortuosos.

Afirmamos ser amigos do bem e dequerer a vida; mas somos pecadores e cúmplices da morte.

Proclamamo-nos vossos discípulos,mas tomamos estradas que se perdem longe dos vossos pensamentos, longe da vossajustiça e da vossa misericórdia.

Não nos abandoneis às nossasviolências.

Que não se esgote a vossapaciência para connosco.

Livrai-nos do mal!

Pater noster

«Meu Povo, que mal te fiz Eu? Emque te contristei? Responde-me».

II ESTAÇÃO

Jesus é renegado por Pedro


Do Evangelho segundo São Lucas

Cerca de uma hora mais tarde, umoutro afirmou com insistência: «Com certeza este estava com Ele; além disso, égalileu». Pedro respondeu: «Homem, não sei o que dizes». E, no mesmo instante,estando ele ainda a falar, cantou um galo. Voltando-Se, o Senhor fixou os olhosem Pedro; e Pedro recordou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: «Hoje,antes de o galo cantar, irás negar-Me três vezes». E, vindo para fora, chorouamargamente (22, 59-62).


Meditação

No pátio do Sinédrio, ao redordum braseiro, Pedro e mais alguém aquecem-se naquelas horas frias da noite,entrecortadas por idas e vindas febris. No interior, a sorte de Jesus estáprestes a ser decidida, frente a frente com os seus acusadores. Pedirão a suamorte.

Como uma maré que sobe, ao redorcresce a hostilidade. Como se incendeia o restolho, assim cresce e semultiplica o ódio. Bem depressa uma multidão vociferante vai exigir de Pilatosa graça para Barrabás e a condenação de Jesus.

Difícil declarar-se amigo de umcondenado à morte, sem ser traspassado por um arrepio de terror. A intrépidafidelidade de Pedro não consegue resistir às suspeitas da criada, a porteira dolugar.

Reconhecer que é discípulo dorabi galileu, seria dar mais peso à fidelidade a Jesus do que à própria vida!Quando se exige tal coragem, a verdade tem dificuldade em encontrartestemunhas… Os homens estão feitos de um modo tal, que muitos preferem amentira à verdade; e Pedro pertence à nossa humanidade. Trai, por três vezes. Depoiscruza-se com o olhar de Jesus. E as suas lágrimas caem, amargas e contudodoces, como água que lava a imundície.

Brevemente, alguns dias maistarde, junto doutras brasas acesas, na margem do lago, Pedro reconhecerá o seuSenhor ressuscitado, que lhe confiará o cuidado das suas ovelhas. Pedroaprenderá o perdão sem medida que o Ressuscitado pronuncia sobre todas asnossas traições. E terá parte numa fidelidade que, a partir de então, lhe faráaceitar a própria morte como uma oferta unida à de Cristo.


Oração

Senhor, nosso Deus, quisestes quefosse Pedro, o discípulo renegado e perdoado, a receber o encargo de guiar ovosso rebanho.

Imprimi nos nossos corações aconfiança e a alegria de saber que, em Vós, podemos atravessar os precipíciosdo medo e da infidelidade.

Fazei que, instruídos por Pedro,todos os vossos discípulos sejam as testemunhas do olhar que Vós pousais sobreas nossas quedas. Que jamais as nossas durezas ou os nossos desesperos tornemvã a Ressurreição do vosso Filho!

Pater noster

Cristo morto pelos nossospecados,

Cristo ressuscitado para nossavida,

nós Vos pedimos, tende piedade denós.

III ESTAÇÃO

Jesus e Pilatos


Do Evangelho segundo São Marcos

Logo de manhã, os sumossacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e os doutores da Lei e todo oSinédrio; e, tendo manietado Jesus, levaram-No e entregaram-No a Pilatos. (…)Os sumos sacerdotes acusavam-No de muitas coisas. (…) Pilatos, desejandoagradar à multidão, soltou-lhes Barrabás; e, depois de mandar flagelar Jesus,entregou-O para ser crucificado (15, 1.3.15).

Do Evangelho segundo São Mateus

Pilatos, vendo que nada conseguiae que o tumulto aumentava cada vez mais, mandou vir água e lavou as mãos napresença da multidão, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco»(27, 24).

Do Livro do Profeta Isaías

Todos nós andávamos desgarradoscomo ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregousobre Ele todos os nossos crimes (53, 6).


Meditação

Roma de César Augusto, a naçãocivilizadora, cujas legiões se propõem como missão conquistar os povos paralhes levar os benefícios do seu justo ordenamento.

Roma, presente também na Paixãode Jesus na pessoa de Pilatos, o representante do Imperador, o garante dodireito e da justiça em terra estrangeira.

E contudo o próprio Pilatos, quedeclara não encontrar qualquer culpa em Jesus, é aquele que ratifica a suacondenação à morte. No Pretório, onde Jesus é processado, a verdade vem à luz:a justiça dos gentios não é superior à do Sinédrio dos judeus!

Sem dúvida este Justo, que, porestranhos motivos, atrai sobre Si os pensamentos homicidas do coração humano,reconcilia judeus e gentios. Por agora, porém, fá-lo tornando-os igualmentecúmplices da morte d’Ele mesmo. Todavia vai chegar o momento – antes, estáperto – em que este Justo os reconciliará de outra forma, por meio da Cruz edum perdão que os alcançará a todos, judeus e gentios, e juntos os curará dassuas covardias e libertá-los-á da sua violência comum.

Única condição para se ter parteneste dom: será confessar a inocência do único Inocente, o Cordeiro de Deusimolado pelo pecado do mundo; será renunciar à presunção que murmura dentro denós: «Estou inocente do sangue deste homem»; será declarar-se culpado,confiando que um amor infinito envolve a todos, judeus e gentios, e que Deuschama a todos para se tornarem seus filhos.


Oração

Senhor, nosso Deus, diante deJesus entregue e condenado, nada mais sabemos fazer que desculpar-nos e acusaros outros. Durante muito tempo nós, cristãos, atribuímos a Israel, vosso povo,o peso da vossa condenação à morte. Durante muito tempo, ignoramos que devíamosreconhecer-nos todos cúmplices no pecado, para sermos todos salvos pelo sanguede Jesus crucificado.

Concedei-nos a graça dereconhecer, no vosso Filho, o Inocente: o único em toda a história. Ele queaceitou ser «feito pecado por nós» (cf. 2 Cor 5, 21), para que, por seuintermédio, pudésseis reencontrar-nos a nós, humanidade recriada na inocênciaem que nos criastes e na qual nos constituís vossos filhos.

Pater noster

Meu Deus, meu Deus, porque Meabandonastes?

IV ESTAÇÃO

Jesus, rei da glória


Do Evangelho segundo São Marcos

Os soldados levaram-No paradentro do pátio, isto é, para o pretório, e convocaram toda a coorte.Revestiram-No de um manto de púrpura e puseram-Lhe uma coroa de espinhos, quetinham entretecido. Depois começaram a saudá-Lo: «Salvé! Ó Rei dos judeus!»(15, 16-18).

Do Livro do profeta Isaías

Vimo-Lo sem aspeto atraente,desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado aosofrimento, diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desconsiderado. Naverdade, Ele tomou sobre Si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Nós Oreputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado (53, 2-4).

Meditação

Banalidade do mal. São inúmerosos homens, as mulheres e até as crianças abusados, humilhados, torturados,assassinados, sob todas as dimensões do céu e em cada momento da história.

Sem buscar proteção na condiçãodivina que Lhe é própria, Jesus integra-Se no terrível cortejo dos sofrimentosque o homem inflige ao homem. Conhece o abandono dos humilhados e dos maisdesvalidos.

Mas, que ajuda nos pode dar osofrimento de mais um inocente?

Aquele que é um de nós é, antesde mais nada, o Filho predileto do Pai, que vem cumprir toda a justiça com asua obediência.

E, de repente, todos os sinais seinvertem. Eis que as palavras e os gestos de zombaria dos seus torturadores nosdesvendam – ó paradoxo absoluto – a verdade insondável: a verdadeira e únicarealeza, manifestada como um amor que nada mais quis saber senão a vontade doPai e o seu desejo que todos os homens se salvem. «Não quiseste sacrifícios nemoblações (…). Então eu disse: “Aqui estou! No livro da Lei está escrito aquiloque devo fazer”» (Sal 40/39, 7.8).

Proclama-o esta hora deSexta-feira Santa: há apenas uma glória neste mundo e no próximo, a glória deconhecer e cumprir a vontade do Pai. Nenhum de nós pode aspirar a uma dignidademaior do que ser filho n’Aquele que, por nós, Se fez obediente até à morte decruz.

Oração

Senhor, nosso Deus, nós Vospedimos: Neste dia santo que leva a cumprimento a revelação, derrubai os ídolosem nós e no nosso mundo. Vós conheceis o seu poder sobre as nossas mentes e osnossos corações.

Derrubai em nós as figurasenganadoras do sucesso e da glória.

Derrubai em nós as imagens quesempre reaparecem de um Deus à medida dos nossos pensamentos, um Deus distante,tão diferente do rosto revelado na Aliança e que se manifesta hoje em Jesus,para além de toda a previsão, acima de toda a esperança. Ele que confessamoscomo o «resplendor da [vossa] glória» (Heb 1, 3).

Fazei que entremos na alegriaeterna, que nos faz aclamar, em Jesus vestido de púrpura e coroado de espinhos,o rei da glória que é cantado no Salmo: «Ó portas, levantai os vossos umbrais!Alteai-vos, pórticos eternos, que vai entrar o rei da glória» (24, 9).

Pater noster

Ó portas, levantai os vossosumbrais!

Alteai-vos, pórticos eternos,

que vai entrar o rei da glória.

V ESTAÇÃO

Jesus carrega a cruz


Do Livro das Lamentações

Ó vós todos que passais pelocaminho, olhai e vede se existe dor igual à dor que me atormenta, pois o Senhorferiu-me no dia da sua ardente cólera (1, 12).

Do Salmo 146

Feliz de quem tem por auxílio oDeus de Jacob, de quem põe a sua esperança no Senhor, seu Deus. (…) O Senhorliberta os prisioneiros. O Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta osabatidos (…). O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfãoe a viúva» (146/145, 5.7-8.9).

Meditação

Ao longo do duro caminho doGólgota, Jesus não carregou a cruz como um troféu! Não se parece nada com osheróis da nossa fantasia que abatem, triunfantes, os seus inimigos malvados.

Passo a passo foi caminhando, ocorpo sempre mais pesado e mais lento. Sentiu a sua carne ferida pelo madeirodo suplício, as pernas enfraquecidas sob a carga.

De geração em geração, a Igrejameditou sobre este caminho marcado por tropeções e quedas.

Jesus cai, levanta-Se; depois caide novo, retoma o caminho desgastante, provavelmente sob os golpes dos guardasque o escoltam, porque é assim que são tratados, maltratados, os condenadosneste mundo.

Aquele que fez levantar os corposdo leito, endireitar a mulher corcunda, arrancar do leito de morte a filha deJairo, pôs de pé tantos aflitos, ei-Lo hoje afundado no pó.

O Altíssimo está caído por terra.

Fixemos o olhar em Jesus. Atravésd’Ele, o Altíssimo ensina-nos – lição incrível – que é ao mesmo tempo o maisHumilde, pronto a descer até nós, e ainda mais abaixo se necessário, para queninguém se perca nos tugúrios da própria miséria.

Oração

Senhor, nosso Deus, Vós desceisnas profundezas da nossa noite, sem pôr limites à vossa humilhação, porque énela que alcançais a terra, frequentemente ingrata, por vezes devastada, dasnossas vidas.

Nós Vos suplicamos: fazei que avossa Igreja possa testemunhar que, em Vós, o Altíssimo e o mais Humilde são umúnico rosto. Concedei-lhe a graça de levar, a todos aqueles que caem, aboa-nova do Evangelho: não há queda que possa subtrair-se à vossa misericórdia;não há perda, nem abismo de tal forma profundo onde Vós não possais reencontrarquem se extraviou.

Pater noster

Eis que venho, ó Deus, para fazera vossa vontade.

VI ESTAÇÃO

Jesus e Simão de Cirene


Do Evangelho segundo São Lucas

Quando O iam conduzindo, lançarammão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e carregaram-no com acruz atrás de Jesus (23, 26).

Do Evangelho segundo São Mateus

«Senhor, quando foi que Te vimoscom fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando Te vimosperegrino e Te recolhemos, ou nu e Te vestimos? E quando Te vimos doente ou naprisão, e fomos visitar-Te?» (25, 37-39).

Meditação

Jesus tropeça ao longo docaminho, os ombros esmagados sob o peso da cruz. Mas é preciso avançar,caminhar mais e mais, porque a meta da trupe que pressiona Jesus, é o Gólgota,o sinistro «Lugar da Caveira», fora das muralhas da cidade,

Naquele momento passa por ali umhomem, de braços robustos. Parece alheio aos acontecimentos do dia. Estáregressando a casa, desconhecendo totalmente a história do rabi Jesus, quandose vê recrutado pelos guardas para levar a cruz.

Que terá ele sabido do condenadoimpelido pelos guardas para o suplício? Que poderia conhecer d’Aquele que «jánão tinha aspeto de homem», como o servo desfigurado de Isaías.

Acerca da sua surpresa,porventura duma recusa inicial, da compaixão que o tocou, nada nos é dito. OEvangelho conservou apenas a recordação do seu nome: Simão, originário deCirene. Porém o Evangelho quis trazer até nós o nome deste líbio e o seu gestohumilde de ajuda, nomeadamente para nos ensinar que, ao aliviar as dores dumcondenado à morte, Simão aliviou a dor de Jesus, o Filho de Deus, que cruzou asua estrada na condição de escravo que assumira por nós, que assumira por ele,para a salvação do mundo. Sem que ele o soubesse.

Oração

Senhor, nosso Deus,revelastes-nos que, em cada pobre que está nu, preso, sedento, sois Vós que nosapareceis, e sois Vós que nós acolhemos, visitamos, vestimos, dessedentamos:«Era peregrino e recolhestes-Me, estava nu e destes-Me que vestir, adoeci evisitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo» (Mt 25, 35-36). Mistériodo vosso encontro com a nossa humanidade! Assim vindes ter com cada homem!Ninguém está excluído deste encontro, se aceitar ser homem de compaixão.

Nós Vos apresentamos, como umaoferta santa, todos os gestos de bondade, hospitalidade e dedicação que dia adia são feitos neste mundo. Dignai-Vos reconhecê-los como a verdade da nossahumanidade, que fala mais alto que todos os gestos de rejeição e de ódio.Dignai-Vos abençoar os homens e as mulheres de compaixão que Vos dão glória,mesmo que não saibam ainda pronunciar o vosso nome.

Pater noster

Cristo morto pelos nossospecados,

Cristo ressuscitado para nossavida,

nós Vos pedimos, tende piedade denós.

VII ESTAÇÃO

Jesus e as filhas de Jerusalém


Do Evangelho segundo São Lucas

Seguiam Jesus uma grande multidãode povo e umas mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele. Jesusvoltou-Se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim,chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos. (…) Porque, se tratam assima árvore verde, o que não acontecerá à seca?» (23, 27-28.31).

Meditação

O pranto que Jesus confia àsfilhas de Jerusalém como uma obra de compaixão, tal pranto das mulheres nuncafalta neste mundo.

Desce silenciosamente pelas facesdas mulheres. E mais vezes ainda, provavelmente de forma invisível no seucoração, como as lágrimas de sangue de que fala Catarina de Sena.

Não que as lágrimas estejamreservadas às mulheres, como se a sua sorte fosse a de chorar, passivas eimpotentes, dentro duma história que só os homens deveriam escrever.

Na verdade, os seus lamentos sãotambém, e antes de mais nada, todos aqueles que elas recolhem, longe de todo oolhar e de toda a celebração, num mundo onde há muito para se chorar. Prantodas crianças aterrorizadas, dos feridos nos campos de batalha que invocam umamãe, pranto solitário dos doentes e dos moribundos no limiar do desconhecido.Pranto de desvario, que corre pela face deste mundo que foi criado, no primeirodia, para lágrimas de alegria, na exultação comum do homem e da mulher.

E também Etty Hillesum, mulherforte de Israel que se manteve de pé na tempestade da perseguição nazista e quedefendeu até ao último momento a bondade da vida, nos sugere ao ouvido estesegredo que ela intuiu no fim da sua estrada: há lágrimas para consolar norosto de Deus, quando chora pela miséria dos seus filhos. No inferno quesubmerge o mundo, ela ousa rezar a Deus: «Procurarei ajudar-Te», diz-Lhe.Audácia tão feminina e tão divina!

Oração

Senhor, nosso Deus, Deus deternura e de compaixão, Deus cheio de amor e fidelidade, ensinai-nos, nosnossos dias felizes, a não desprezar as lágrimas dos pobres que clamam por Vóse que nos pedem ajuda. Ensinai-nos a não passar indiferentes junto deles.Ensinai-nos a ter a coragem de chorar com eles. Ensinai-nos também, na noitedos nossos sofrimentos, das nossas solidões e das nossas deceções, a ouvir apalavra de graça que Vós nos revelastes na montanha: «Felizes os que choram,porque serão consolados» (Mt 5, 4).

Pater noster

Cristo morto pelos nossospecados,

Cristo ressuscitado para nossavida,

nós Vos pedimos, tende piedade denós.

VIII ESTAÇÃO

Jesus é despojado das suas vestes


Do Evangelho segundo São João

Os soldados, depois de teremcrucificado Jesus, pegaram na roupa d’Ele e fizeram quatro partes, uma paracada soldado, exceto a túnica (19, 23).

Do Livro de Job

«Saí nu do ventre da minha mãe,

e nu voltarei para lá» (1, 21).

Meditação

O corpo humilhado de Jesus acabadesnudado. Exposto aos olhares de escárnio e desprezo. O corpo de Jesus cobertode chagas e destinado ao suplício extremo da crucifixão. Humanamente falando,que mais se poderia fazer senão baixar os olhos para não aumentar a suadesonra?

Mas o Espírito vem em ajuda danossa confusão. Ensina-nos a compreender a linguagem de Deus, a linguagem dakenosi, este abaixamento de Deus para nos alcançar onde estamos. É estalinguagem de Deus que nos fala o teólogo ortodoxo Christos Yannaras: «Linguagemda kenosi: Jesus menino nu na manjedoura; despojado no rio enquanto recebe obatismo como um servo; suspenso na árvore da cruz, nu, como um malfeitor.Através de tudo isso, Ele manifestou o seu amor por nós».

Entrando neste mistério de graça,podemos voltar a abrir os olhos sobre o corpo martirizado de Jesus. Entãocomeçamos a vislumbrar o que os nossos olhos não podem ver: a sua nudez refulgeda mesma luz que irradiavam as suas vestes no momento da Transfiguração.

Luz que afugenta todas as trevas.

Luz irresistível do amor levadoaté ao extremo.

Oração

Senhor, nosso Deus, colocamosdiante dos vossos olhos a multidão imensa dos homens que sofrem a tortura, amassa assustadora dos corpos maltratados, tremendo de angústia ao aproximar-seos golpes, agonizantes em tugúrios miseráveis.

Nós Vos suplicamos, acolhei o seugemido.

O mal deixa-nos sem voz nemajuda.

Mas Vós sabeis o que nós nãosabemos. Sabeis encontrar uma saída no caos e na escuridão do mal. Sabeis fazerbrilhar, já na Paixão do vosso Filho predileto, a vida da ressurreição.

Aumentai em nós a fé!

Nós Vos apresentamos também aloucura dos torturadores e de quem os comanda.

Também esta nos deixa sempalavras… senão para Vos suplicar e implorar, por entre lágrimas, com aspalavras da oração que Vós nos ensinastes: «Livrai-nos do mal»!

Pater noster

Cristo morto pelos nossospecados,

Cristo ressuscitado para nossavida,

nós Vos pedimos, tende piedade denós.

IX ESTAÇÃO

Jesus é crucificado


Do Evangelho segundo São Lucas

Quando chegaram ao lugar chamadoCalvário, crucificaram-No a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro àesquerda. Jesus dizia: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (23,33-34).

Do Livro do profeta Isaías

O castigo que nos salva caiusobre Ele, fomos curados pelas suas chagas (53, 5).

Meditação

Verdadeiramente Deus está lá ondenão deveria estar!

O Filho predileto, o Santo deDeus, é aquele corpo exposto numa cruz de infâmia, abandonado à desonra, nomeio de dois malfeitores. Homem das dores, de quem nos afastamos; para falarverdade, como nos afastamos de muitos seres humanos desfigurados que cruzam asnossas estradas.

O Verbo de Deus, em quem tudo foicriado, não passa de uma carne muda e sofredora. A crueldade da nossahumanidade assanhou-se contra Ele, e venceu.

Sim, Deus está lá onde nãodeveria estar, mas onde nós precisamos tanto que esteja!

Viera para partilhar connosco asua vida. «Tomai!», disse Ele sem cessar enquanto oferecia a sua cura aosdoentes, o seu perdão aos corações transviados, o seu corpo na ceia pascal.

Mas viu-Se caído nas nossas mãos,em território de morte e violência: a violência que nos deixa atónitos naatualidade do mundo; e a que se insinua em cada um. Bem o sabiam os mongesassassinados em Tibrine, que, à prece «Desarmai-os!», ajuntavam a súplica:«Desarmai-nos!»

Era necessário que a doçura deDeus visitasse o nosso inferno; era a única maneira de nos livrar do mal.

Era necessário que Jesus Cristotrouxesse a ternura infinita de Deus até ao coração do pecado do mundo.

Era necessário isto para que amorte, colocada perante a vida de Deus, recuasse e caísse, como um inimigo queencontrou alguém mais forte do que ele, e desaparece no nada.

Oração

Senhor, nosso Deus, acolhei onosso louvor silencioso.

Como os reis que ficamboquiabertos diante da obra do Servo revelada pela profecia de Isaías (cf. 52,15), assim permanecemos estupefactos diante do Cordeiro imolado pela vida nossae do mundo; e confessamos que, pelas vossas chagas, fomos curados. «Comoretribuirei ao Senhor todos os seus benefícios para comigo? (…) Hei deoferecer-Vos sacrifícios de louvor invocando, Senhor, o vosso nome» (Sal 116,12.17).

Pater noster

Cristo morto pelos nossospecados,

Cristo ressuscitado para nossavida,

nós Vos pedimos, tende piedade denós.

X ESTAÇÃO

Jesus é escarnecido na cruz


Do Evangelho segundo São Lucas

Os chefes zombavam, dizendo:«Salvou os outros; salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». Ossoldados também troçavam d’Ele. Aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre,diziam: «Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!» E por cima d’Ele haviauma inscrição: «Este é o rei dos judeus». Ora, um dos malfeitores que tinham sidocrucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo ea nós também» (23, 35-39).

«Se és Filho de Deus, diz a estapedra que se transforme em pão. (…) Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo,pois está escrito: (…) Os anjos hão de levar-Te nas suas mãos» (4, 3.9-11).

Meditação

Não poderia Jesus ter descido dacruz? Dificilmente ousamos pôr-nos esta pergunta: porventura não a põe oEvangelho na boca dos ímpios?

E todavia ela persegue-nos, namedida em que nós ainda fazemos parte do mundo da tentação, que Jesus enfrentoudurante aqueles quarenta dias no deserto, prelúdio e início do seu ministério:«Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se torne pão, atira-Te abaixo dopináculo do templo, porque Deus vela por quem é seu amigo». Mas, na medida emque, batizados na morte e ressurreição de Jesus Cristo, O seguimos no seucaminho, os desafios do Maligno já não têm poder sobre nós, ficam reduzidos anada, a sua mentira é desvendada.

Descobre-se então a imperiosanecessidade daquele «era necessário» (Lc 24, 26) que Jesus ensina com paciênciae ardor àqueles que caminhavam pela estrada de Emaús.

«Era necessário» que Cristoentrasse nesta obediência e nesta impotência, para nos alcançar na impotência aque nos reduziu a nossa desobediência.

Começamos, assim, a entender que«só o Deus sofredor pode salvar», como escrevia o pastor Dietrich Bonhoefferpoucos meses antes de morrer assassinado, quando, experimentando até ao fundo opoder do mal, pôde resumir, em tal verdade simples e vertiginosa, a profissãode fé cristã.

Oração

Senhor nosso Deus, quem noslivrará das ciladas do poder segundo o mundo? Quem nos livrará da tirania dasmentiras, que nos fazem exaltar os poderosos e, por nossa vez, correr atrás dasfalsas glórias?

Só Vós podeis converter os nossoscorações.

Só Vós podeis fazer-nos amar assendas da humildade.

Só Vós…, que nos revelais quenão há vitória senão no amor, e tudo o resto não passa de palha que o ventoleva, miragem que desaparece face à vossa verdade.

Nós Vos pedimos, Senhor: dissipaias mentiras que aspiram a reinar nos nossos corações e no mundo.

Fazei-nos viver segundo os vossoscaminhos, para que o mundo reconheça o poder da Cruz.

Pater noster

Meu Deus, meu Deus, porque Meabandonastes?

XI ESTAÇÃO

Jesus e sua Mãe


Do Evangelho segundo São João

Junto à cruz de Jesus estavam, depé, sua Mãe e a irmã de sua Mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena.Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua Mãe e o discípulo que Ele amava, disse àMãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe!» E,desde aquela hora, o discípulo acolheu-A como sua (19, 25-27).

Meditação

Maria, também Ela, chegou ao fim docaminho. Ei-La chegada àquele dia de que falava o velho Simeão. Quandolevantara com seus braços trémulos o Menino, e a sua ação de graças seprolongou em palavras misteriosas, que entrelaçavam conjuntamente drama eesperança, dor e salvação.

«Este Menino – proclamara –estáaqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal decontradição; uma espada trespassará a tua alma. Assim hão de revelar-se ospensamentos de muitos corações» (Lc 2, 34-35).

Já a visita do anjo tinha feitoressoar no seu coração o anúncio incrível: Deus escolhera a sua vida para fazerdesabrochar a novidade prometida a Israel, «o que os olhos não viram, osouvidos não ouviram» (1 Cor 2, 9; cf. Is 64, 3). E Ela consentira naqueleprojeto divino, que teria começado por subverter a sua carne e teria depoisacompanhado por caminhos imprevisíveis o filho nascido do seu ventre.

Durante os dias tão comuns deNazaré, depois no tempo da vida pública, quando houve necessidade de dar espaçoa outra família, a dos discípulos, aqueles estranhos que Jesus fazia seusirmãos, irmãs, mães, Ela conservara estas coisas no seu coração. Tinha-asconfiado à grande paciência da sua fé.

Hoje é o tempo da realização. Alâmina que perfurou o lado do Filho, perfura também o coração d’Ela. TambémMaria mergulha na confiança sem apoio, em que Jesus vive profundamente aobediência ao Pai.

De pé, Ela não deserta. StabatMater. Na escuridão, mas com a certeza de que Deus mantém as promessas. Naescuridão, mas com a certeza de que Jesus é a promessa e o seu cumprimento.

Oração

Maria, Mãe de Deus e mulher danossa raça, Vós que nos gerais maternamente n’Aquele que gerastes, sustentai emnós a fé nas horas tenebrosas, ensinai-nos a esperança contra toda a esperança.

Guardai a Igreja inteira numavigilância fiel, como foi a vossa fidelidade, humildemente dócil aos desígniosde Deus, que nos atraem para onde não pensaríamos em ir; que nos associam, paraalém de todas as previsões, à obra da salvação.

Pater noster

Salve, Regina, matermisericordiae;

vita, dulcedo et spes nostra,salve.

XII ESTAÇÃO

Jesus morre na cruz


Do Evangelho segundo São João

Jesus disse: «Tenho sede!» Haviaali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponjafixada num ramo de hissope, chegaram-Lha à boca. Quando tomou o vinagre, Jesusdisse: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. (…)Ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas.Porém um dos soldados traspassou-Lhe o peito com uma lança e logo brotou sanguee água. Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seutestemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdestambém (19, 28-30.33-35).

Meditação

Agora, tudo está consumado. Atarefa de Jesus está concluída. Saíra do Pai para a missão da misericórdia.Esta foi cumprida com uma fidelidade levada até ao extremo do amor. Tudo estáconsumado. Jesus entrega o seu espírito nas mãos do Pai.

É verdade que, aparentemente,tudo parece cair no silêncio da morte que desce sobre o Gólgota e as trêscruzes lá erguidas. Neste dia da Paixão que está para terminar, quem passa poraquele caminho, que pode compreender senão a derrota de Jesus, o colapso dumaesperança que havia encorajado a muitos, consolado os pobres, erguido oshumilhados, dando a entender aos discípulos que chegara o tempo em que Deusrealizaria as promessas anunciadas pelos profetas? Tudo isto parecia perdido,destruído, caído por terra.

No meio de tanta deceção, porém,o evangelista João faz-nos fixar os olhos num pequeno detalhe, detendo-se nelecom solenidade: água e sangue escorrem do peito do Crucificado. Oh maravilha! Aferida aberta pela lança do soldado permite passar água e sangue que nos falamde vida e de nascimento.

A mensagem é extremamentediscreta, mas muito eloquente para os corações que têm um pouco de memória. Docorpo de Jesus, brota a fonte que o profeta viu sair do Templo. A fonte quecresce e se torna um rio pujante, cujas águas curam e fecundam tudo aquilo quetocam à sua passagem. Não definira Jesus, um dia, o seu corpo como o novotemplo? E o «sangue da aliança» acompanha a água. Não falara Jesus da sua carnee do seu sangue como alimento para a vida eterna?

Oração

Senhor Jesus, nestes diassagrados do Mistério Pascal, renovai em nós a alegria do nosso Batismo.

Contemplando a água e o sangueque escorrem do vosso peito, ensinai-nos a reconhecer de que fonte é gerada anossa vida, de que amor está edificada a vossa Igreja, para qual esperança nosescolhestes e enviastes a partilhar com o mundo.

Aqui está a fonte de vida quelava todo o universo, jorrando da chaga de Cristo. O nosso Batismo seja paranós a única glória, numa ação de graças cheia de admiração.

Pater noster

O Cordeiro, que foi imolado,

é digno de receber o poder e ariqueza,

a sabedoria e a força,

a honra, a glória e o louvor,

pelos séculos dos séculos.

XIII ESTAÇÃO

Jesus é descido da cruz


Do Evangelho segundo São Lucas

José de Arimateia, descendo-O dacruz, envolveu-O num lençol e depositou-O num sepulcro talhado na rocha, ondeainda ninguém tinha sido sepultado (23, 53).

Meditação

Gestos de ternura e consideraçãopelo corpo profanado e humilhado de Jesus. Encontram-se ao pé da cruz algunshomens e mulheres. José, natural de Arimateia, homem «reto e justo» (Lc 23,50), que pede o corpo a Pilatos, como refere São Lucas; Nicodemos, aquele quefora ter com Jesus de noite, acrescenta São João; e algumas mulheres que,obstinadamente fiéis, observam.

A meditação da Igreja quisjuntar-lhes a Virgem Maria, também Ela muito provavelmente presente naquelemomento.

Maria, Mãe de piedade, que recebenos seus braços o corpo nascido da sua carne e que, ternamente, discretamente,acompanhou no decorrer dos anos, como sempre cuida do próprio filho uma mãe.

Agora o corpo que Ela recolhe éimenso, como a sua dor, como a nova criação que tem origem da paixão de amorque atravessou o coração do filho e da mãe.

Agora, no grande silêncio quedesceu depois dos gritos dos soldados, das zombarias dos transeuntes e dosrumores da crucifixão, os gestos são apenas de doçura, de respeitosa carícia.José desce o corpo, que se abandona entre os seus braços. Envolve-o num lençol,depõe-no dentro dum sepulcro inteiramente novo, que no jardim, mesmo ao lado,aguardava o seu hóspede.

Jesus é arrancado das mãos dosseus assassinos. Agora, na morte, encontra-se entre as mãos da ternura e dacompaixão.

A violência dos homens homicidasrecuou para muito longe. Voltou, ao lugar do suplício, a doçura.

Doçura de Deus e daqueles que Lhepertencem, os mansos de coração a quem Jesus prometeu um dia que haveriam depossuir a terra. Doçura vinda da criação e do homem à imagem de Deus. Doçura dofim, quando todas as lágrimas forem enxugadas, quando o lobo habitar com ocordeiro, porque o conhecimento de Deus terá chegado a toda a carne (cf. Is 11,6.9).

Cântico a Maria

Não choreis mais, Maria! O vossofilho, nosso Senhor, adormeceu na paz. E o Pai d’Ele, na glória, abre as portasda vida!

Alegrai-Vos, Maria! Jesusressuscitado venceu a morte!

Pater noster

Na vossa paz, Senhor, me deito,adormeço

e acordo: Vós sois o meu apoio.

XIV ESTAÇÃO

Jesus no sepulcro e as mulheres

Do Evangelho segundo São Lucas

As mulheres que tinham vindo comEle da Galileia acompanharam José, observaram o túmulo e viram como o corpo deJesus fora depositado. Ao regressar, prepararam aromas e perfumes; e, durante osábado, observaram o descanso, conforme o preceito (23, 55-56).

Meditação

As mulheres foram-se embora.Aquele que tinham acompanhado, caminhando tenazes e solícitas pelas estradas daGalileia, já não está cá. Por companhia, nesta tarde, Ele não lhes deixa senãoa visão que nelas se gravou do seu túmulo e do lençol onde descansa agora.Recordação pobre e preciosa de dias ardorosos que se foram. Solidão e silêncio.Aliás aproxima-se shabbat, que convida Israel a cessar o trabalho, como Deus ocessou quando completou a criação, realizada sob a sua bênção.

Hoje trata-se de outra coisa queé levada a cumprimento; por agora oculta e impenetrável. Shabbat, dia em que devempermanecer imóveis, no recolhimento do coração e da memória velada pelaslágrimas. E na preparação também dos perfumes e aromas com que prestarão a suaúltima homenagem ao corpo d’Ele, amanhã, de manhãzinha cedo.

Mas, com aquele gesto,preparam-se apenas para embalsamar a sua esperança? E se Deus tivesse preparadopara a sua solicitude uma resposta que elas não podem sequer prever, imaginar,intuir: a descoberta dum túmulo vazio…, o anúncio de que Ele já não está ali,porque despedaçou as portas da morte?

Oração

Senhor, nosso Deus, dignai-vosver e abençoar todos os gestos das mulheres que honram, neste mundo, afragilidade dos corpos que elas circundam de doçura e consideração.

E a nós, que vos acompanhamos aolongo deste caminho de amor até ao fim, dignai-vos guardar-nos, com as mulheresdo Evangelho, na oração e na esperança que sabemos correspondidas pelaressurreição de Jesus, que a vossa Igreja se prepara para celebrar no júbilo daNoite Pascal.

Pater noster

A Vós a glória e o poder pelosséculos dos séculos Ámen.

Fonte: Rádio Vaticano

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