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Palavras que destravam a vida – 4º Domingo do Tempo Comum

“Cala-te e sai dele” (Mc1,25)

Estamos fazendo o percursocontemplativo, seguindo o evangelista Marcos. Ele foi o primeiro que escreveu oEvangelho, por isso conserva o calor dos inícios da vida cristã. É o maisconciso. Não apresenta grandes discursos de Jesus nem conta muitas parábolas.Interessa-lhe sobretudo o cotidiano na vida pública de Jesus: sua atitude vitalpara com os pobres e excluídos, sua presença terapêutica, sua liberdade dianteda religião, do templo, das tradições judaicas, a revelação do novo rosto deDeus, o anúncio da Boa Notícia da Salvação…

A intenção de Marcos é que aspessoas se façam a pergunta chave: “quemé Jesus?”. Todo o seu evangelho é revelação progressiva da personalidade eda identidade de Jesus. Jesus não tinha nenhum doutorado na Lei, não tinhanenhum Master em questões do Templo; não era um perito a quem consultar sobre alei. Jesus era Ele mesmo; seu único título era sua verdade, sua honestidade,sua bondade, sua capacidade de sanar a dor daqueles que sofriam e libertá-losdos maus espíritos que os escravizavam. Era a identidade de si mesmo, plena: aidentidade entre o que dizia e fazia, entre o que era e o que ensinava. Podemosafirmar que Jesus era um “profissional da vida”, um “mestre da vida humanadigna”. Não havia estudado em outra universidade a não ser a universidade davida, do amor, da liberdade…

O evangelho deste domingo (4º TC)é o primeiro ato público de Jesus: estamos num dia típico de sua vida e de suaatividade. Seu primeiro contato com as pessoas, depois do batismo e daexperiência do deserto, tem lugar na sinagoga. É um sinal de que a primeiraintenção de Jesus foi redirecionar a religiosidade do povo que tinha sidodeformada por uma interpretação opressora da Lei. Por duas vezes no relato sefaz referência ao ensinamento de Jesus, mas não se diz nada do que ensina.Fala-se de suas obras. As curas e a expulsão de demônios, entendidos comolibertação, são a chave para compreender a verdadeira mensagem deste evangelho.O que Jesus faz é libertar um homem de um poder opressor, o espírito imundo.

A Boa Notícia que Marcos anuncia é a libertação, em duas direções:da força do mal e da força opressora da Lei, explicada de uma maneira alienantepelos fariseus e letrados. As pessoas reconhecem um novo ensinamento, comautoridade, ou seja, com convicção, com coerência de vida, com profunda fé… Oensinamento de Jesus é novo porque liberta ao mesmo tempo que ensina. Jesus nãoensina nada verbalmente: mostra-se a si mesmo. Marcos dá mais importância aomodo de falar de Jesus que ao conteúdo de seu ensinamento.

De Jesus diziam que “ensinava comautoridade” e não como os escribas e fariseus. Ele tinha a graça de concederautoridade a cada pessoa, de devolver-lhe sua dignidade, de remeter-lhe a simesma, de ajudá-la a conectar com seu ser profundo, com aquilo que é maisdivino no próprio interior.

Ensina com autoridade quem fala apartir de sua própria experiência e quem, com seu ensinamento, “faz crescer” (apalavra “autoridade” provém do verbo latino “augere”, que significa aumentar,fazer crescer, elevar o outro…); em outras palavras, é despertar a autonomia ea autoria do outro para que ele seja capaz de dar direção à própria vida.

O critério para distinguir quandonos encontramos em presença de quem “fala com autoridade” sempre será o mesmo:sua palavra faz as pessoas crescerem em profundidade. A “autoridade” de Jesus,portanto, está em que sua palavra e sua vida formam uma unidade plena, porquenão diz nada que não esteja já fazendo; suas palavras brotavam de umaexperiência profunda que confirmava com sua vida. Provava com suas obras suaspalavras, vivia o que ensinava.

Ao entrar na sinagoga, Jesus sevolta para quem não recebia atenção. Ele faz com que o possuído pelo mauespírito se torne o centro das atenções e sua libertação é, ao mesmo tempo,prática e ensino. O homem possuído é o símbolo de todas as pessoasdespersonalizadas, impedidas de falar e agir, como sujeitos da própria vida ehistória. Sua vida e destino dependiam de “outros” que pensavam, falavam eagiam por elas.

Jesus vai curá-lo com suapresença e também com sua voz. Ao lhe dizer: “cala-te e sai dele”, Jesus estádesatando uma vida, está devolvendo ao homem possuído o seu ser essencial. Hápalavras que tem força reconstrutora, pois, não só restabelecem a saúde mas ativama dignidade escondida da pessoa. Dizem que há pessoas capazes de serem curadospor uma voz, pelo material sonoro de uma voz determinada. Quanto aspira nossocoração escutar este convite: “esteja livre…”! Esteja livre daquilo que osoutros possam dizer ou pensar a seu respeito; livre do domínio das suascompulsões; livre para amar sem defesas; livre daquilo que se acredita sabersobre si mesmo e sobre os outros; no fundo, esteja livre para ser você mesmo,para poder entrar em uma relação nova com a realidade.

Somos seres de palavras e somostambém seres de silêncios. Em nosso mundo atrofiamos o dom de proferir palavrasde vida; elas tem pouco valor e, por isso, precisamos voltar a lapidá-las nosilêncio, porque só o silêncio restaura a integridade de nossas palavras. Taispalavras tem força para curar, como aquela que Jesus proferiu diante do homempossuído pelo mau espírito.

Precisamos receber palavras quetoquem nossas superfícies endurecidas e nos libertem de tantas ataduras que nãonos deixam respirar com profundidade, nem olhar compassivamente, nem considerara beleza da diversidade e a diferença. Também nós buscamos pessoas que possamnos dizer palavras para viver e somos requisitados a entregar aos outros umapalavra de vida.

Jesus foi o homem que movia comsuas palavras. É extraordinário perceber como as palavras ditas com cuidado eamor (pedagogia de Jesus) produzem efeitos benéficos para o ser humano. Essaspalavras são bem-aventuradas, pois são capazes de fazer crescer, sustentar,edificar as pessoas para o convívio social, humano-afetivo, espiritual. Sãopalavras que trazem luz e calor, infundem confiança e segurança.

A palavra tem força deressurreição, é como brisa suave que ativa nossas melhores energias. Aspalavras jamais deixam as coisas como estão. Elas não se limitam a transmitiruma mensagem; elas tem uma força operativa, desencadeiam um movimento… Quandofalamos, algo acontece, muda alguma coisa dentro de nós e ao nosso redor.Aparentemente nada mudou; mas é possível que tudo tenha mudado. A palavra foialém de sua vibração sonora. Ela contribui para criar o clima, o ar querespiramos… um ambiente que nos plenifica, nos nutre, favorece o encontro e ocompromisso e abre possibilidade de viver

Texto bíblico:  Mc 1,21-28

Na oração: Hoje o evangelho nos convida a sermos sinceros conoscomesmos, a revisar nossa conduta cristã. Devemos expulsar muitos “mausespíritos” interiores (ânsia de poder, riqueza, prestígio, vaidade…) que jogamao chão nossa dignidade e impedem um testemunho coerente, uma verdadeiraautoridade que profere palavras que fazem as pessoas crescer.

– Repassar o repertório daspalavras proferidas ao longo do dia: palavras que elevam, que curam, quesalvam…?

Por Pe. Adroaldo Palaoro sj

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