O sentido das Cinzas que recebemos no início da Quaresma
Bem vindos, irmãos e irmãs. Bemvindos à Quaresma. Bem vindos a este tempo de graça, de bênção e da Salvação deDeus. Nosso Pai Celeste está com muita saudade de nós. Ele sente falta de seusfilhos amados, assim como todo pai e toda mãe anseiam pela volta dos filhos queestavam distantes. Ouçamos o convite que o próprio Deus nos faz, através doProfeta Joel: “voltai para mim com todo o vosso coração”.
A volta é uma ocasião de alegria,de júbilo e de festa. Mas o profetaacrescenta que devemos voltar a Deus com jejuns, lágrimas e gemidos. Por quê?Ora, porque estamos distantes dEle pelo nosso pecado, pela maldade que cometemos,pelo nosso mundo de erros e de iniquidades. Praticamos o mal, cometemos tantasinjustiças, ofendemos a Ele e aos irmãos e irmãs que nos rodeiam.
Nossa volta é o abandono sinceroe penitente do desamor ao nosso Pai Celeste, fonte de todo amor e bondade. É areconciliação para a qual somos chamados, a fim de reatar o pacto de amor efidelidade com Aquele que nos fez por amor, e de quem nos afastamos pela ímpiadesobediência. “Ele é benigno e compassivo”, diz o profeta. “É paciente e cheiode misericórdia. É generoso no perdão e na bondade, apesar de nossaindignidade”.
Com certeza seremos bemrecebidos, com aquele abraço amoroso e paterno, como nos anunciou seu próprioFilho Jesus, na monumental Parábola do Pai Misericordioso e do Filho Pródigo deLc 15. Nosso jejum, nossas lágrimas e gemidos são aquela dor, aquelearrependimento e a humildade do filho que voltou. E como esse filho, vamos aoPai com o coração totalmente despojado das glórias e conquistas deste mundo.Com a cabeça inclinada, diremos a Ele que não somos dignos de ser seus filhos,e merecemos realmente a condição de empregados.
Queridos amigos, irmãos e irmãs,este é o sentido das Cinzas que vamos receber. Ao impor essa cinza sobre nós, osacerdote, ou ministro, dirá: “convertei-vos e crede no Evangelho”. Esta é afrase de Jesus, que sintetiza o desejo do Pai Celeste de que voltemos a Ele.
É uma mensagem de alegria elibertação, o abandono radical de tudo o que é mundano, da hipocrisia e dofarisaísmo, da falta de autenticidade que nos faz viver de aparênciasenganosas, do egoísmo, da luxúria, da soberba e especialmente da falta do amore da fé. Nossa volta a Deus é o desejo de uma vida totalmente renovada, porqueestávamos no lodaçal do pecado e da imundície, como mais uma vez está bemexpresso na parábola do Filho Pródigo: estávamos cuidando de porcos e passandofome.
Os animais comiam melhor do quenós. Por isso, ao voltarmos à casa do Pai, nosso impulso fundamental é apenitência, a humildade, o pedido de perdão e o reconhecimento da nossaindignidade. Aliás, ao recebermos as cinzas, a frase alternativa do ministro é:“lembra-te de que és pó, e ao pó voltarás”. É uma mensagem triste e dolorosa,como se não tivéssemos direito a mais nada, a não ser ao castigo, à dor, aosofrimento e à morte!
Mas é aqui que precisamos voltarao sentido da festa e da alegria do Pai que nos recebe. Por um lado, voltaremosa ser o pó da terra. Com certeza! Por isso deixamos que se derramem cinzassobre nós. Por outro lado, a cinza desta Quarta-feira é a cinza daressurreição.
É necessário que morra e volte aopó o corpo contaminado pela lepra do pecado, para que, como nos ensina oapóstolo Paulo em 1 Cor 15, o Pai Celeste nos dê um novo corpo, que não maisserá sujeito à corrupção deste mundo; será um corpo imortal, totalmenterenovado, lavado e purificado no sangue glorioso de Nosso Senhor Jesus. É osentido profundo deste tempo de Quaresma, que irá desembocar na gloriosaPáscoa.
O castigo, a dor, o sofrimento ea morte serão assumidos totalmente por Jesus, que carregará a Cruz que seriadestinada a cada um de nós, pecadores. E por este sangue precioso, que mais doque sangue humano é sangue de Deus, o nosso Pai bondoso e Misericordioso nosvestirá com a melhor roupa de sua casa, fará a festa e nos devolverá adignidade de filhos.
Aqui está o feliz desfecho daparábola do Filho Pródigo: na cinza que éramos, quando estávamos longe da casado Pai pelo pecado, será derramado o sangue do nosso Redentor. E este Cristoque sofre a morte por nós, vencerá a morte pela ressurreição; e pelo desmedidoamor que Deus tem para conosco, desta Ressurreição todos participaremos felizesno Reino dos Céus.
Assim, a Páscoa de Cristo nãoserá somente sua, mas de todos os que Ele faz voltar para Deus. Com Jesus,todos seremos filhos pródigos.
Iniciemos, portanto, nossapreparação para a Páscoa de Jesus, deixando-nos reconciliar com Deus, como pedeSão Paulo. Este é o tempo favorável. Este é o dia da Salvação. Como o FilhoPródigo, voltemos ao Pai na humildade, na contrição do coração, na força doamor e da fé.
É o que Jesus nos pede noEvangelho. Joguemos fora e libertemo-nos das falsas aparências, da vaidade, daarrogância, da soberba e de todos os males. Esqueçamos as recompensas e oslouvores do mundo, que se transformam na podridão e na condição daquele pobrefilho, que estava cuidando de porcos; e de tanta fome que tinha, desejava comera comida dos porcos.
E quantas vezes nós alimentamosnossa mente e o coração com o lixo, com o vitupério da iniquidade e – desculpema vulgaridade da expressão -, com as porcarias deste mundo! Ao voltarmos à casado Pai pelo jejum, pela esmola, pela humildade, pela caridade, pela oração,teremos a verdadeira recompensa, que nos proporcionará a verdadeira alegria doReino dos Céus, que durará para sempre.
Padre Paulo de Souza OSB –Vatican News
