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O mês de Maria

Maria_Shutterstock

Maio é um mês intenso: dasnoivas, das mães, das temperaturas amenas e dos jardins floridos. É o mês emque o ar é fresco e convive com o sol em perfeita harmonia. O sol não ésufocante e apenas esquenta a pele e acaricia o rosto mostrando sua presença reconfortante.

Porém, mais que tudo e antes detudo, maio é o mês de Maria. A judia fiel Maria de Nazaré, mãe de Jesus,preside esses trinta e um dias e, ao longo deles, é celebrada, venerada ecantada em todos os tons por seus filhos que não esmorecem no amor e carinho quepor ela experimentam.

Maria é, sem dúvida, a rainha demaio. No colégio em que estudei, as irmãs colocavam em cada uma de nós uma fitabranca larga com uma medalha. Era a fita de Nossa Senhora. E cada uma de nós iarecebendo a fita ao longo dos dias do mês de Maria junto com uma granderesponsabilidade: a de ser dignas filhas desta que era mãe de Deus e nossa.

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Qual a criança católica que jánão sonhou em ser anjinho de procissão? É lindo ver o carinho na preparação daprocissão solene do dia 31 de maio e como as crianças, felizes, cantam e rezamao redor da grande homenageada: Maria. Nossos países latinos são inegavelmenteimpregnados pelo culto a essa que super todos os santos porque de seu ventrenasceu aquele que seria o Salvador do mundo e da humanidade, Jesus, o filho deDeus, o Cristo Redentor.

Na história do Ocidente cristão emuito especialmente na história do “continente cristão” que seria a AméricaLatina, Maria sempre teve um lugar protagônico. Sua figura foi eminentementeativa em toda a história latino-americana após a colonização e desde o iníciodesta. E mesmo se criticamos o procedimento dos colonizadores espanhóis eportugueses por seus métodos desrespeitosos e truculentos para com os povosoriginários do sul da América é imperativo igualmente reconhecer sua féprofunda e fervorosa devoção à Virgem Maria.

Trazida ao novo mundo pelosportugueses e espanhóis, Maria foi chamada “A Conquistadora”. Este título ésignificativo, porque com ele, Maria se incorpora à totalidade da empreitada deconquista espiritual ou reconquista que os missionários pretendiam realizar noNovo Mundo. Esta invocação está carregada de ambiguidades, gerando uma visão deMaria igualmente ambígua sobretudo frente aos indígenas, que se sentiramagredidos e explorados pelos colonizadores, e frente aos africanos que aquichegaram como escravos e foram cruelmente oprimidos pela herança colonialpersonalizada nos novos organizadores da economia e do trabalho.

Juntamente com isso, essa visãode Maria como Conquistadora e intercessora do projeto colonial teve grandeimpacto na vida das mulheres indígenas e africanas, que tiveram de sofrer acolonização e a “mestiçagem” em seus próprios corpos e descendência. E adevoção a Maria, como única mulher poderosa e conquistadora, a quem se prestavaculto, confirmava a opressão das outras mulheres que jamais conseguiriamimitá-la em sua virgindade maternal ou sua maternidade virginal.

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O Concílio Vaticano II inaugurouuma nova visão de Maria, libertadora e não mais conquistadora. Na leitura daBíblia, pode-se encontrar uma Maria enraizada na história e também modelo defé. Tal como é encontrada nos Evangelhos, como membro ativo e construtora doReino, distante e diferente da Maria que legitimou a violência e a guerra contraos povos originários do continente e que protegeu os conquistadores em seuintento de “evangelizar” a América, mesmo pagando o preço do sangue de muitasgerações de indígenas e afrodescendentes.

Maria é aquela que tem maiorintimidade com o povo. É aquela para quem os pobres podem fazer confidências econtar segredos. É capaz de escutar e guardar tudo em seu coração. Caminha comos pobres através das duras sendas da vida nas áreas pobres do continente.Compreende os problemas das mulheres, mesmo os mais íntimos, e não seescandaliza com coisa alguma.

Em Maria está presente a dimensãomaternal muito valorizada pelo povo e também pela Igreja católica. Amaternidade a torna mais próxima do povo. Para os pobres na América Latina, avida é uma luta tão dura que a relação com Maria – que é terna emisericordiosa, mas ao mesmo tempo poderosa e gloriosa – desenvolve-se no nívelde suas necessidades básicas. Eles creem firmemente que Maria os compreende epode ajudá-los quando sofrem fome, quando não têm como cuidar e curar seusfilhos doentes e vulneráveis. Ela está ao lado de todas as mulheres no momentodo parto e do alumbramento. Ajuda quando o trabalho falta, quando os camposnão  produzem, quando o marido foi emboracom outra mulher ou é alcoólatra e violento, quando as crianças se tornam presada droga e do tráfico, quando a doença ameaça a vida e tantas outrasdificuldades acontecem na vida cotidiana. Ela é alívio, compreende, ajuda eeles creem nela e a invocam.

Tem um rosto coletivo essa Mariae não apenas individual. Seu rosto é o rosto do povo. Nesses momentos duros eimportantes, ela é presença compassiva e materna. E para ela o povo clama egrita seus desejos insatisfeitos, suas orações, seus medos, suas inseguranças.E a presença da Mãe se faz sentir ao seu lado.

Na relação com a mãe estápresente a busca pela proteção das origens. Neste sentido, o nascimento, anutrição e os primeiros anos de vida são momentos da mais completa intimidadeentre os frágeis e indefesos seres humanos, que se sentem seguros sob suaproteção. Este retorno às origens é repetido inúmeras vezes na existênciahumana e especialmente dentro da estrutura religiosa. A religião reconstróiidealmente a vida, partindo de novas figuras e relações familiares, afetivas esociais com figuras prototípicas – como Maria e os santos – que são mais quehumanos e cheios de extraordinárias qualidades e virtudes.

Maria é vista como a Mãe idealtambém porque o povo a sente ao seu lado, incluindo em seu cuidado maternal seudesejo de ser salvo e liberto, sob o aspecto individual, coletivo e cultural.Em Maria encontram acolhida e abertura maternal para sua libertação.

Neste mês de maio que começa, àvossa proteção recorremos, Mãe de Deus. Abriga-nos sob teu manto que os tempossão difíceis e sombrios. Consola-nos das aflições e ilumina nosso caminho. Evela por nossas crianças que também são tuas. Amém.

Por: Maria Clara LucchettiBingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autorade “Simone Weil – A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).

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