Mística e Análise de Conjuntura no 14º Encontro das CEBs

A mística de abertura evocou ocolorido das camisas, das peles e da vida nas comunidades. É o dia do “Ver”, daanálise de conjuntura, conduzida pelo companheiro Pedro Ribeiro de Oliveira,assessor das CEBs, e pela companheira, professora da USP, Raquel Rolnik.
Antes de passar a palavra para aassessoria, a coordenação convidou Frei Betto para uma rápida fala sobre oBrasil de agora. Como este Brasil não se desgarra do Brasil do passado, oDominicano, preso político no regime militar-empresarial iniciado com o golpede 1964, enfatizou a importância de se preservar a memória histórica.

“O que nós temos de mais precioso no Brasil, conquistado com muitosuor, sangue e lágrimas, é a democracia. A democracia brasileira tem muitosmártires. Precisamos preservar a memória desses companheiros e companheiras. Émentirosa uma democracia em que todos podem votar, mas poucos podem viver comdignidade.”
A natureza do Golpe

Pedro Ribeiro inicia sua faladizendo que “precisamos entender a natureza do golpe no Brasil. O golpe foidado para uma mudança profunda. Não foi só para derrubar um governo. É um golpetreinado primeiro em Honduras. O outro ensaio foi no Paraguai. Na Venezuela,não conseguiram. Na Argentina, elegeram o Macri, senão teriam dado o golpe.”
Lembrou ainda das duas dimensõesmais evidentes da crise: “1) ambiental. Estamos arrebentando com nosso planeta.Os donos do mundo não consideram seriamente barrar o avanço das grandesempresas, apesar de todo problema climático causado por elas. O papa Franciscodenuncia, mas fazemos corpo mole; 2) econômica: a taxa de lucro do capital estádiminuindo, o que acelera sua financeirização. As guerras são maneiras docapital investir na indústria. Guerras às drogas, de fronteiras, étincas… Temosque tomar consciência de que o mundo está em guerra, muitas guerras.”
O assessor não esqueceu de fazerreferência ao que chamou de “guerra de informações”: “Espalhasse uma notíciapara justificar a outra guerra. Há muito conhecimento, mas sua produção é feitapor pouquíssimas grandes empresas e pelo serviço de informação e segurança dosEUA. Há muita notícia falsa produzida.
“As nossas igrejas e nossascomunidades falam a realidade do mundo e da vida? Ou só da realidadeindividual, da pessoa que adoeceu ou sobre quem morreu? Tecnologia, eficiência,competição são valores aceitos por todo mundo. Solidariedade, democracia sãovalores considerados românticos, do passado. Temos que inverter isso.”
E concluiu dizendo:
“É preciso resgatar o processo de conscientização, saber quem sãonossos aliados e quem está do outro lado. O método de educação populardesenvolvido por Paulo Freire é fundamental, na medida em que quem ensinatambém aprende. Na leitura popular da palavra de Deus, é fundamental questionaro povo sobre a escravidão do presente, para que este adquira consciência de suacondição de oprimido. Pobreza se vive, opressão só se percebe com processo deconscientização. E não esquecer de se valer sempre das lutas concretas paraavanço do processo.”
Utopia e identidade: alimentos históricos das CEBs

Raquel Rolnik assumiu a conduçãoda reflexão, recordando que, desde a década de 1970, as CEBs participam da lutaurbana, a luta pela transformação da cidade, ajudando a construir espaços,territórios e alternativas de poder. Utopia e imaginário que alimentaramhistoricamente sua caminhada e identidade.
“A formação das cidades no Brasilocorreu com a expulsão do agricultor, do ribeirinho, do indígena do campo. Empoucas décadas, dezenas de milhões de pessoas migraram para a cidade. Foramessas pessoas que se organizaram nos bairros e lutaram. A Igreja teve um papelfundamental em todo esse processo. Luta por casa, por água, por esgoto, porsaúde. São essas forças que se apresentam no instante da Constituinte de 1988,criando uma verdadeira cidadania insurgente. Se os direitos não vinham, a lutase encarregava de conquistá-los.”
E frisou que a década de 1990 foia década da quebra do Estado, com a reestruturação do capital, com a crise doendividamento público, a financeirização da economia e o aumento vertiginoso dodesemprego.
“Nesse período é que o tráfico dedrogas chega às comunidades e começa a minar a sociabilidade da organizaçãopopular. Parte da Igreja se volta para atender as demandas espirituais dosricos. Os partidos políticos que ajudamos a construir, com sua participação nomundo institucional e crescendo eleitoralmente, competem cada vez mais nomercado de votos, esquecendo de atender às necessidades do povo, para abrir umafrente de negócios com grandes empresários. O Estado segura o dinheiro paraassegurar a financeirização do capital.”
A professora termina suacontribuição profetizando:
“É momento de sair do Estado e retornar às comunidades. O contrário daestatização não é privatização, mas a autodeterminação territorial dos povos. Éno território que se constrói as coisas extraordinárias.”
Fonte: CEBs do Brasil
