Identidade des-velada a serviço da vida

Neste domingo celebramos a festa de duas grandesfiguras-chave na Igreja: Pedro e Paulo; fortes personalidades que fizeram umaimpactante experiência de encontro com o peregrino da Galileia. E foramprofundamente transformados, a ponto de terem seus nomes mudados pelo próprioJesus Cristo.
Diante das maravilhadas que serão proclamadas de um e deoutro, podemos apresentar uma pergunta que pode nos parecer estranha. “Quê ficade Simão em Pedro?” , “Quê fica de Saulo em Paulo?”. Porque Pedro, primeiro foiSimão; Paulo foi Saulo. E Jesus chamou Simão e chamou Saulo. Em seguida, mudouo nome deles para Pedro e Paulo. Simão, o homem do lago e da barca de pesca;Saulo, o zeloso fariseu, fiel seguidor da lei e perseguidor da Igreja. Pedro, ohomem da Igreja, a rocha sobre a qual Jesus assenta sua nova comunidade. Etodos nós o recordamos como o homem das “chaves”. Paulo, o apóstolo dosgentios, fundador de novas comunidades cristãs para além do território judaico.
Mas, retornemos às perguntas: o que permaneceu de Simão,aquele do lago, no Pedro da Igreja? Desapareceu o verdadeiro Simão e ficousomente o Pedro? Ou teríamos de dizer que há nele uma mescla de Simão e dePedro? O que permaneceu de Saulo, fariseu e filho de fariseu, no Paulo quealargou as fronteiras da primitiva Igreja?
O Pedro, rocha firma, não deixa de ser o Simão do lago.Apesar de Jesus ter mudado seu nome, no entanto, em diferentes ocasiões aflorao Simão que não consegue entender Jesus e quer desviar o mestre de seus planose projetos. Continua vivo o Simão que busca o triunfalismo messiânico de Jesuse revela resistência em seguir Aquele que vai ser crucificado. Continua sendo oSimão que compete com os outros sobre a primazia no novo Reino, e crê que é elequem vai dar a vida por Jesus. Continua sendo o Simão covarde e com medo quenega Jesus na noite da Paixão. O mesmo poderíamos dizer de Saulo. Muitos traçosseus continuam presentes na nova identidade: Paulo.
No evangelho de hoje, Jesus deixa transparecer suaidentidade através da confissão de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deusvivo”; e, ao mesmo tempo, Jesus desvela a identidade de Pedro: “Tu és “petros”(pedregulho) e sobre esta “petra”(rocha) edificarei minha igreja”. Pedro setorna rocha firme (“petra”) quando se apoia na identidade de Jesus (averdadeira Rocha).
Pedro, que era “petros” (pedra de tropeço no caminho,frágil, limitado…), foi sendo transformado, através da identificação comJesus, em “petra”, rocha firme da primitiva comunidade cristã. Dessa forma, oSimão que era “petros”/pedra lentamente vai fazendo a travessia para“Petra”/rocha firme, porque o mestre desvelou a nobreza que estava escondida nocoração dele, ou seja, sua verdadeira identidade sobre a qual o mesmo Jesusiria edificar sua igreja.
Diante dos dois personagens, Pedro e Paulo, vamos intuindoque a questão não é trocar simplesmente de nome. A Graça não destrói a naturezahumana, mas a plenifica e a torna expansiva. Em Pedro, a graça não destrói oSimão, em Paulo não destrói o Saulo. Eles procurarão conservar a fidelidade aJesus e à comunidade dos seus seguidores, mas cada um imprimirá sua própriapersonalidade.
A graça do seguimento de Jesus não apaga nossa condiçãohumana, nossa herança genética, nossa personalidade, nossa psicologia, nossasensibilidade e nosso mundo afetivo; carregamos conosco nossa cultura e nossaprópria história humana.
O desafio é este: que permanece de nossa herança biológica ecultural na experiência do seguimento de Jesus? É possível que em todos nós, em“Pedro”, permaneça latente muito de “Simão”; em “Paulo”, permaneça muito de“Saulo”. E como distinguir o Simão de Pedro que todos carregamos dentro de nós?Não é fácil a Pedro desprender-se do Simão de antes, nem a Paulo desprender-sedo Saulo de antes. Só a identificação com Jesus possibilita fazer a travessiapara o “novo nome”, integrando e pacificando as “marcas humanas” do antigonome.
O Evangelho da festa de hoje nos ajuda a ler nossa vida. Aliafirma-se nossa identidade; e a identidade de uma pessoa é dada por aquilo queé sólido, consistente… no seu interior, que não se desfaz com as adversidadesdo mundo no qual vivemos (crises, fracassos, fragilidades, incoerências…).Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo epessoal.
“Viver emprofundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até àsfontes do próprio ser, até às raízes mais profundas. A própria interioridade éa rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que cada pessoa tem, paraencontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e osinevitáveis golpes da luta pela vida. Com confiança em si e na rocha do próprioser, todas as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescerdia-a-dia, tornando-a aquilo que originalmente é chamada a ser.
Para isso temos em nossas mãos as chaves da vida. O quefazemos com elas? Podemos abrir ou fechar, ligar ou desligar, atar oudesatar…. Ter a chave da vida como Pedro e Paulo ou como Simão e Saulo: abrirou fechar as portas do futuro, das relações, dos sonhos, da missão… Daramplitude à vida ou atrofiá-la. Atar ou desatar os nós da vida…. Aqui está ogrande desafio: abrir-se ou fechar-se: abrir-se à vida, ao novo, ao outro, aodesafiante ou diferente… ou retrair-se ao próprio ego.
Ter identidade é assentar nossa vida sobre a rocha interior(Pedro) que nos sustenta e nos faz sair da prisão do ego (Simão). Nossaidentidade é sempre dinâmica, histórica, fecunda, aventureira… Nossa vida éuma contínua travessia do Simão/Saulo para Pedro/Paulo, porque ela estácentrada n’Aquele que tudo sustenta. Nossa identidade profunda está a serviçode quem? – do próprio “ego” como Simão ou Saulo, ou do Reino, como Pedro ePaulo.
Texto bíblico: Mt. 16,13-19
Na oração: Muitos caminhos conduzem à própria interioridade.A oração é a chave de acesso; ela é esse silencioso exercício de deixar queDeus me habite para que eu possa abrir as portas do coração e janelas da menteàqueles com quem me encontro.
Onde a Graça de Deus tem liberdade de atuar, ali afloram oPedro e o Paulo que tenho atrofiados dentro de mim.
– O que prevalece nas minhas relações cotidianas:Simão/Saulo ou Pedro/Paulo?
Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj
