Espiritualidade: um caminho de humanização
A palavra espiritualidade vem deespírito. Mas para entendermos o que seja espírito, precisamos desenvolver umaconcepção de ser humano que seja mais fecunda do que aquela convencional,transmitida pela cultura dominante. É necessário considerar o ser humano comoser holístico e não dualista (corpo/alma) para entendermos a espiritualidadecomo um aspecto importante no processo de humanização em todos ascircunstâncias.
Mesmo nas tarefas diárias da casae do trabalho, no lazer, com os amigos, ou na intimidade com a pessoa amada,quem cria espaço para a profundidade e para o espiritual está centrada, serenae cheia de paz. Dessa forma, a pessoa irradia vitalidade e entusiasmo, porquecarrega Deus dentro de si. Esse Deus é amor, que no dizer do poeta Dante, moveo céu, todas as estrelas e o nosso próprio coração. A espiritualidade é um modode ser, uma atitude de base a ser vivida em cada momento da vida. Não se medepela quantidade de orações, mas pelas atitudes humanizadas em relação a si e aooutro.
Relendo a parábola do bomsamaritano, no Evangelho de Lucas, em pleno século XXI, para uma humanização dohumano em nós, ela é um bom exemplo para mostrar a aceitação que devemos ter emrelação aos outros, através do questionamento de Jesus ao doutor da lei: “Qual destes foi o próximo do homem que caiunas mãos dos salteadores?”.
O texto de Lucas 10, 25-37apresenta-nos um questionamento: quem eu devo considerar como meu próximo? Apartir do verso 29, o próprio Jesus, para falar de proximidade, utiliza ummecanismo literário que possui a mesma intencionalidade: aproximar. Na culturagrega, etimologicamente, parábola significa aproximação. “E eis que se levantou um doutor da lei, tentando-O, e dizendo: Mestre,que farei para herdar a vida eterna? E ele lhe disse: Que está escrito na lei?Como lês?”.
“Como lês?” é a chave de leiturapara o ensino do amor humanizador pregado e vivido por Jesus e não entendívelpor aqueles que já se endeusaram a si mesmos como os doutores da lei. Eleestava tão próximo da lei e, paradoxalmente, tão afastado daquilo que estamesma promulgava – abrir os olhos, os ouvidos e o coração para quem da lei maisnecessitava – aqueles por quem ninguém queria se responsabilizar: órfãos,viúvas, pobres, estrangeiros, doentes, diferentes. O interlocutor de Jesussabia o que estava escrito na lei, e de cor: “E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teucoração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teuentendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”. E Jesus disse-lhe: “Respondeste bem, faze isso e viverás”.Mais do que depressa o doutor da lei se justifica com a pergunta que não quercalar dentro de sua alma cortada pela palavra da lei que lhe obriga a sergente, a amar: “E quem é o meu próximo?”.
O doutor da lei sabia o queestava escrito na lei, e de cor: “E,respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e detoda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e aoteu próximo como a ti mesmo”. E Jesus lhe disse: “Respondeste bem, faze isso e viverás”.
Mais do que depressa, o doutor dalei se justifica com pergunta que não quer calar dentro de sua alma cortadapela palavra da lei que lhe obriga a ser gente, a amar: “E quem é o meupróximo?”.
Jesus percebe que o homem precisade uma metáfora, de uma estória moralizante porque não consegue lidar com arealidade que o cerca, tampouco enxergar o óbvio, tem questões existenciais quelhe impedem de amar livremente o próximo – que tem problema para identificar quemé – quanto a si mesmo, talvez.
O ápice da tensão se dá para odoutor da lei: “… um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e,vendo-o, moveu-se de íntima compaixão…”. Como um impuro poderia sercompassivo? E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite evinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidoudele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, edisse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu pagarei quando voltar.O samaritano se aproximou. “O que usoude misericórdia para com ele”. Jesusganha a disputa e diz: “Vai, e faze da mesma maneira”. “… faze da mesmamaneira” humanizar, amar é ter atitude pró ativa, é fazer, é colocar a mão namassa e ter parte com ela.
Jesus transformou a vida numarevolução do amor. Amor incondicional. Amar, amar sempre desinteressadamente, ocaído, o estranho. O julgamento será a partir de Mt 25. Viver uma espiritualidade é condição para umavida integrada e humanizadora.
Por: Ir. Terezinha Salvi, sds
