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ESPIRITUALIDADE DO CORPO

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Jesus: CORPO de Deus entre nós, CORPOque se dá aos homens, CORPO para os corpos, como carne e sangue, pão e vinho. Eo CORPO de Deus, Jesus Cristo, se expande, incha, tomando o universo inteiro…É bem aí, no CORPO, que Deus e o homemse encontram.


Ahumanidade de Deus nos incomoda. Coisa que os primeiros cristãos descobriramcom espanto.

Elesentenderam que para falar de Deus é necessário deixar de falar de Deus, e falarsobre um homem, um rosto, uma vida… Foi então que eles ficaram cristãos.


Deus,para falar de si, tornou-se homem. Fala sobre Deus é fala sobre um homem.

 

A PALAVRA se fez CARNE.Nosso irmão. Um de nós. Nasceu, viveu, morreu… ressuscitou” (Rubem Alves)

 

“Afesta de Corpus Christi quer nos fazer recordar que CORPO é cálice, onde sebebe o vinho da alegria e da salvação, inserido no CORPO místico e cósmico deCristo. Só haverá futuro digno quando todos os CORPOS viverem em comunhão,saciados da fome de pão e de beleza” ( Frei Betto).


Celebramoso “Corpo de Cristo”, uma das festas mais ricas que nos faz pensar em seuconteúdo e simbolismo, mas que nos faz pensar também neste “Corpo de Cristo” nomeio de tantos outros corpos.


Aceitamos,pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica comunhão bemmaior com sua vida, seu testemunho de amor, de partilha, solidariedade,dedicação pela transformação de tudo aquilo que não dignifica a vida ou nãodignifica os “corpos”.


Participamos,com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”,  mas pode ser que, às vezes, façamos umaprofunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca,ou seja, os famosos “corpos”: explorados, manipulados, usados, escravizados,destruídos…


Podeser que, às vezes, tenhamos um profundo amor e respeito pelo “Corpo de Cristovivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aí,aqui, ali, lá, dos nossos lados…


Pormeio da Encarnação e por meio da Ressurreição de Jesus, a carne se converteu emespelho da divindade. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.


Pareceque não sabemos lidar muito bem com esse estranho e (des)conhecido que são osnossos “corpos”. Do corpo temos tido suspeitas e o temos olhado comdesconfiança.


É preciso estabelecer o diálogo com o corpo. Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas deuma descoberta radical. Ignoramos nosso corpo, apesar de tê-lo tão próximo; épreciso dar-nos conta das riquezas que tem, o muito que sabe, a importância doque tem a nos dizer, a necessidade de seu apoio e a sabedoria de sua amizade.


Aquiestá nosso melhor amigo, fielmente junto a nós, e nem sempre o percebemos.


Acorporeidade penetra toda a nossa autorrealização como seres humanos. O corponão é simplesmente “organismo vivo” ou mera “exterioridade” ou mero“instrumento do espírito”. O corpo não éo túmulo da alma, mas o templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”.


Ocorpo é de importância máxima para a experiência que temos de nós mesmos e paraa comunicação com Deus, com os outros e com a natureza.


Aconsciência do respeito e do valor ao corpo é necessária para a maturidadeafetiva. A desvalorização do corpo, por outro lado, resulta na mutilação daexpressividade, da comunicação de sentimentos e prejudica a maturidadeafetiva-social-espiritual.


Uma relaçãonegativa com a corporeidade equivale a uma relação negativa consigo mesmo, comos outros e até mesmo com Deus. Nãoaceitar o corpo é atentar contra a vida.


Apessoa é uma totalidade unificada, um “todo espiritual” e um “todo corpóreo”,tanto que não existe fenômeno corpóreo que não tenha um reflexo no espírito,nem experiência espiritual que não se reflita no corpo. O corpo participa, demaneira imprescindível, na atuação do eu espiritual e vice-versa.


A “linguagem espiritual” acompanha a “linguagem corporal”, assim como a linguagem do corpo reforça a linguagemespiritual.

Ocorpo fala por si mesmo, comunica, reage… O corpo é expressão de nossamasculinidade ou feminilidade, de nossa sexualidade integrada ou reprimida, denossa saúde ou doença, de nossa alegria ou tristeza, realização ou frustração,de nossa consolação ou desolação.


Ocorpo é expressão e comunicação daquilo que somos.


Opróprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher: “E o Verbo se fez carne ehabitou entre nós”. A espiritualidadecristã é “encarnada”. A Encarnação foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade efazer história conosco. Nosso corpo humano, feito de barro – vaso frágil equebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amortrinitário.


“Nãosabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor,6,19)

Onosso corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.

 

Se nosfixarmos nas palavras e nos gestos de Jesus na última Ceia, descobriremos quesuas palavras (“isto é meu corpo”) e seus gestos (partir e repartir o pão)constituem a essência afetiva e social (de amor e justiça) do cristianismo, averdade do Evangelho.


Eucaristiaé “Corpo” e é corpo doado e partilhado, não pura intimidade de pensamento, nemdesejo separado da vida. A Eucaristia é Corpo feito de amor expansivo eoblativo, que se expressa no trabalho da terra, na comunhão do pão e do vinho,no respeito mútuo frente o valor sagrado da vida, no meio do mundo, nas casasde todos, em plena rua. Não são necessários grandes templos e nem suntuosasprocissões para celebrar a festo do Corpo de Deus; basta a vida que se fazdoação e partilha, no amor, como Jesus fez.


Éassim porque no gesto do partir e repartir o pão se condensou todo o caminho deJesus: vida que se doou para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), paraproporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e paraativar “novas relações humanas” (sermão da montanha).


Celebraro “Corpus Christi” é atualizar estas três preocupações centrais da vida deJesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida na vida dos seus seguidores.


Diante do Corpo de Cristo, nosso corpo se plenifica nacomunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Nosso humildecorpo é parte da Criação inteira e nosso bem-estar faz sorrir a natureza.


Nossocorpo é pura relação. Nele ficam registradas todas as marcas de nossa vida, denossa história.


Ocorpo é presença e linguagem – tudo nele fala: fala o rosto, falam os olhos,falam os movimentos e as posturas, falam os gestos, acompanhando, reforçando eexpressando a intenção íntima.


Celebrar“Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos.

 

Texto bíblico:  Lc9,11-17

 

Na oração:  Nosso corpo é tocado pela encarnação de Jesus.E lembre-se de que Deus conhece nossa estrutura. Ele sabe de que barro somosfeitos. Rezesua humanidade, seu corpo de homem ou mulher. Leve para sua oração os desafiosdo cotidiano, os imprevistos da vida. Sejahumano diante de Deus, deixe seu corpo falar a Deus. Rezecom seu corpo. E agradecido(a) bendiga sempre o Senhor.

 

Por: Pe.Adroaldo Palaoro sj



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