Dom Pedro Casaldaliga: 90 anos de poesia e profecia
Nascido na Catalunha (Espanha), domPedro Casaldaliga completa 90 anos de idade nesta sexta-feira, 16 de fevereiro.Chegado ao nosso país em 1968 como missionário, Paulo VI o nomeou, em 1971,como primeiro bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso,naquela época uma região com um alto grau de analfabetismo, marginalizaçãosocial e latifúndios, o que significava pobreza e injustiça para muitos eprivilégios para poucos.
Desde 2012, o bispo AdrianoCiocca conduz a Prelazia de São Felix. Em entrevista à Cristiane Murray, daVatican News, ele fala da Eucaristia de Ação de Graças, que acontecerá no dia16 de fevereiro, na Prelazia de São Felix do Araguaia, em celebração pelapresença e testemunho que Casaldaliga ofereceu ao Mato Grosso, ao Brasil e aomundo.
O Vale dos Esquecidos
“Para a realidade do Vale doAraguaia, batizado por dom Pedro como ‘Vale dos Esquecidos’, devido à situaçãode abandono e falta de estruturas e do descaso dos governos estadual e federal,a presença de dom Pedro e da equipe da Igreja católica foi essencial paracomeçar a estruturar socialmente o território”.
Escola para professores e cursos universitários
“Foi graças ao trabalho de domPedro e da equipe que ele montou, que se começou a ter um mínimo de atendimentode saúde. Foi por meio da Prelazia que foi fundada uma escola de formação deprofessores, e a maioria dos professores até não muito tempo atrás foramformados nesta escola.
Foi também graças à intervenção de dom Pedroque se estabeleceram na região algumas faculdades de cursos universitários. Apresença dele e da Prelazia na área se qualificou no tempo da ditadura militar,como uma presença corajosa, profética, denunciando o descaso do governo paracom as populações autóctones (os indígenas), denunciando o trabalho escravo e asituação de falta de segurança e de condições dos ribeirinhos”.
Assentamentos para os pequenos agricultores
“O trabalho que a Prelaziadesenvolveu fez com que em todo o território surgissem projetos deassentamentos para os pequenos agricultores, que puderam se situar, viver eproduzir. Praticamente todos os 15 municípios da Prelazia têm assentamentos.Infelizmente, porém, devido ao avanço do agronegócio e à falta de uma políticacoerente de apoio à agricultura familiar, estes projetos de assentamentos estãoameaçados de desaparecer”.
A equipe de Pastoral da Prelazia
“De qualquer forma, andando pelaPrelazia, visitando as famílias, especialmente as que já estavam aqui no tempode dom Pedro, todos reconhecem que, graças ao trabalho dele e da equipepastoral da Prelazia, houve a estruturação do território e um mínimo derespeito pelos direitos humanos e uma perspectiva de vida mais organizada doponto de vista social”.
Homenagens
Paulo Gabriel, poeta espanhol,religioso agostiniano escreveu para o jornal da Prelazia e fez uma retomada dacaminhada de dom Pedro Casaldáliga. “Deus me concedeu o privilégio de viver 20anos ao lado de Pedro. Sou testemunha de sua paixão pela América Latina, paixãoque contagiou toda a equipe pastoral e todos aqueles aos quais chegaram suaspalavras e seus escritos. Amigo e admirador dos grandes bisposlatino-americanos, Santos Padres deste Continente, até hoje conserva em seuquarto as fotos de Mendez Arceo e Samuel Ruiz, mexicanos; Angelelli, argentino,assassinado pela ditadura daquele país; Leonidas Proaño, equatoriano defensordos índios. Hélder Câmara, Tomás Balduíno, brasileiros e, claro, presidindotodos eles, Oscar Romero, salvadorenho“. O depoimento de Paulo Gabrielcontinua: “Na capela da casa onde vive com a comunidade agostiniana, que agoracuida dele, conserva-se uma relíquia, fragmento da túnica ensaguentada de ‘SãoOscar Romero da América Latina’ – poema que percorreu o mundo – junto com outrarelíquia de Ignacio Ellacuria, jesuíta assassinado pela ditadura de El Salvadore grande pensador da teologia e da história latino-americanas“.
O texto de homenagem enviado peloConselho Indigenista Missionário (CIMI) leva a declaração dos envolvidos nacausa indígena no Brasil em nome da Igreja: “Em sua humildade evangélicaradical, Pedro foi sempre uma presença solidária junto aos povos indígenas emissionários. Nunca aceitou nenhum ‘cargo’ no Cimi. Por ocasião dos 30 anos doCimi, não podendo estar presente, enviou uma mensagem que até hoje continuafortalecendo nossa caminhada de solidariedade com os povos indígenas. Neladizia ‘me faço presente de coração nesse Congresso de 30 anos de memória,missão e utopia, caminhada de generosidade, teimosia e esperança. Somossoldados derrotados de uma causa invencível. Devemos continuar sendo, na oraçãoe no sonho, radicais‘”.
Fonte: Vatican News e CNBB
