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A doença da mentira compulsiva

O dia 1º de abril é conhecido nomundo todo como o dia da mentira. Mas você sabia que as mentiras podem serreflexos de uma doença séria? Foi o caso de Marcelo Nascimento da Rocha, elefoi condenado à prisão em regime fechado por aplicar vários golpes. Fingiu seroficial do Exército, guitarrista da banda Engenheiros do Hawaii e herdeiro daempresa de linhas aéreas Gol. Até entrevista para o apresentador Amaury Júniorele deu, fingindo ser uma das identidades criadas por ele próprio.

Em entrevista ao iG , a psiquiatrapresidente da Associação Brasileira de Psiquiatria do Rio de Janeiro, FátimaVasconcellos, aborda quando as mentiras contadas em série configuram doença(chamadas na literatura de mitomania ou pseudolelia). “Há uma diferença crucialentre o mentiroso compulsivo e o mentiroso consciente”, afirmou.

iG Saúde: Mentir muito pode ser sinal de doença?

Fátima Vasconcellos: Algunsquadros podem configurar sintomas de transtornos de personalidade. O históricode mentir compulsivo aparece em psicopatas, por exemplo, e diferentemente doque a maioria pensa, psicopata não é somente assassino em série. Existem ospsicopatas corporativos, que são aqueles que não têm pudor em cometer todo equalquer tipo de falcatrua, passam por cima de seus colegas e familiares emprol do lucro pessoal ou da empresa. Existem ainda pessoas que têm transtornosde personalidade antissociais, que mentem para se aproveitar de fragilidadesdos outros. Um exemplo é sedutor que conquista a mulher só para dar um golpenela. Lembrando que o mentiroso compulsivo não necessariamente é homem.Mulheres também sofrem deste transtorno.

iG: Mas se todos forem sinceros vão admitir que mentem vez ou outra.Mentir não é essencial para viver em sociedade?

Fátima Vasconcellos : Existem aschamadas “mentiras sociais”, aquelas que falam que o cabelo da amiga ficouótimo mesmo estando horrível. Nem sempre as mentiras sociais são usadas para obem. Vendedores de loja por usam deste artifício só para vender. Mas não é umproblema de saúde psíquica caso não traga danos sérios para outras pessoas.

iG: A infidelidade recorrente em relacionamentos amorosos podeconfigurar uma mentira compulsiva?

Fátima Vasconcellos: Nãonecessariamente. Um mentiroso compulsivo é diferente do mentiroso consciente. Oponto crucial entre um e outro é que o primeiro mente em todas as áreas de suavida: trabalho, amor, amigos e família. Mente tanto que até acredita em suasmentiras, no mundo paralelo que cria para si. Já o mentiroso consciente sabeque não está falando a verdade. Mente para ter um benefício específico. Falaque não traiu só para manter a relação. Políticos que enganam a população paramanter o cargo ou perpetuar o poder sabendo que estão mentindo. É diferente.

iG Saúde: Mentir vicia?

Fátima Vasconcellos: Não sei se otermo é vício. Mas existem pessoas que não sabem se relacionar sem mentira.Aprendem este comportamento em algum momento da vida, para se protegerem ou sebeneficiarem, e vão repetindo ao longo do caminho. Vira uma muleta eterna.Existem compulsivos pela verdade também, a relação é a mesma.

 

iG Saúde: Existe tratamento para o mentiroso compulsivo?

Fátima Vasconcellos: É muitodifícil este paciente procurar ajuda especializada para tratar este sintoma.Primeiro porque ele não se acha doente e não acha que faz mal a ninguém. Otratamento só acontece caso ele seja preso por isso ou tenha algum impactomuito devastador. Quem sofre mais são as pessoas que convivem com as mentiras.

Fonte:  Saúde IG

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