Notícias

34º Domingo – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo – Realeza que se revela no serviço

“…todas as vezes que fizestesisso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fezestes”

Rei, título inapropriado paraAquele que tocou leprosos, que preferiu a companhia dos excluídos e não dospoderosos do povo, que lavou os pés dos seus discípulos, que não tinha riquezanem poder… O senhorio de Jesus foi a do amor incondicional, do compromissocom os mais pobres e sofredores, da liberdade e da justiça, da solidariedade eda misericórdia… Com sua palavra e sua vida Ele afirmou que “não veio paraser servido, mas para servir”. Por isso, assumiu uma posição crítica frente atodo poder desumanizador.

A festa de “Cristo Rei”, queencerra o Ano Litúrgico, pode ser ocasião propícia para “transgredir” nossaconcepção de “rei” e “reinado”, e evitar um triunfalismo religioso, puraimitação dos reis deste mundo que vivem às custas da exploração dos seussúditos.

Jesus nunca se proclamou rei; oque Ele fez foi colocar-se a serviço total do Reino, de forma que este foi ocentro mesmo de sua pregação e de sua vida, a Causa pela qual estava apaixonadoe pela qual deu sua vida. Importa, pois, honrar a verdadeira identidade deJesus: Ele não foi rei, nem quis ser nunca, por mais que alguns cristãos creemque chamando-o assim prestam-lhe as devidas honras. A melhor honra que devemosprestar a Jesus é prolongar seu modo de ser e de viver. É preciso voltar aJesus e sua Causa.

Se Jesus não foi reihistoricamente, nem se chamou rei, nem deixou que lhe chamasse assim, recusou ese retirou quando queriam fazê-lo rei, tem sentido que nós o aclamemos com essetítulo? Por quê?

Jesus é Rei porque deixatransparecer sua “realeza”: o que é mais real, mais humano e divino, a suaverdade, seu ser verdadeiro… no mais profundo de si mesmo. Realeza que sevisibilizava no encontro com o outro. A partir de seu ser verdadeiro, Jesusdestravava e ativava a realeza escondida em cada um.

Este é o sentido profundo dotítulo: ser Rei sem tomar o poder, sem exercê-lo com a força das armas, sem apressão da justiça legal, sem prestígio, sem riqueza… Esta é a tarefa da novahumanidade, a promessa de um Reino do conhecimento verdadeiro, da igualdade eda justiça, da fraternidade e não violência…, para que todos sejam reis, nosentido radical da palavra.

Segundo o relato de Mateus,quando chegar o momento supremo, a hora da verdade definitiva, a única coisaque ficará de pé, o que somente será levado em conta como critério de salvaçãoou perdição, não vai ser nem a piedade, nem a religiosidade, nem as práticasespirituais, nem a fé, nem mesmo o que cada pessoa tiver feito ou deixado defazer para com Deus; o que vai ser considerado é apenas uma coisa, a saber: oque cada um tiver feito ou deixado de fazer para com os seres humanos.

A fundamentação está no fato deque Jesus se identifica com cada ser humano, de maneira especial com aquele quemais sofre, vítima da violência, da exclusão, da pobreza, da humilhação… Essaidentificação e essa fusão de Jesus com os humanos (“foi a mim que o fizestes”)é tão forte e tão decisiva que, no momento do encontro definitivo com Ele, ocritério para entrar no Reino não é o que cada pessoa fez ou deixou de fazer“para” Deus, mas o que ela fez ou deixou de fazer “para” os seus semelhantesque cruzaram o seu caminho e que clamaram por uma presença solidária ecompassiva.

Na parábola do “juízo final” nãoé casual que os casos ali mencionados são as situações mais baixas, maishumilhantes e as que mais detestamos, de acordo com o que neste mundo seconsidera necessário para ser uma pessoa de sucesso e que goza de uma vidacômoda e digna: a comida, o vestuário, a saúde, a liberdade e a legalidade dequem não é um estrangeiro ou um imigrante “sem documentos”. Essa lista desituações extremas refere-se à realidade de sofrimento e exclusão. E Jesusassume como sua a dor de cada ser humano, pois, mediante sua Encarnação, Ele seidentificou e se fundiu com o mais basicamente humano, com aquilo que é comum atodos os seres humanos, sem nenhuma distinção.

Toda parábola desperta ressonânciae causa impacto no nosso ser profundo; não é um relato periférico e neutro;escutar ou ler uma parábola é sentir-se implicado nela ou, em outras palavras,toda parábola deixa transparecer nossa real identidade; por isso, a parábola do“juízo final” pode também ser lida em “chave de interioridade”: o que em mimestá excluído, faminto, desamparado, exilado, preso… e que precisa serintegrado e iluminado?

Mas a luz da parábola desvelanosso eu interior e deixa transparecer também nossos pontos nutrientes,iluminantes… que serão fonte de salvação para as dimensões do nosso serprofundo que ainda permanecem na sombra da não aceitação.

Por outro lado, precisamos deixarressoar em nosso “eu profundo” as palavras duras do Rei Eterno: “Afastai-vos demim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”.Centrados em nós mesmos e separados dos outros, vamos alimentando uma espéciede ego (força diabólica: força que divide). Todo “ego” é possessivo e manifesta-se como um desejo insaciável deacumular, possuir, não compartilhar… O ego exacerbado quer controlar o seumundo: pessoas, acontecimentos e natureza. Ele compara-se com os outros ecompete pelos elogios e pelos privilégios, pelo amor, pelo poder e pelariqueza. É isso que nos torna invejosos, ciumentos e ressentidos em relação aosoutros. Também é isso que nos torna hipócritas, dominados pela duplicidade epela desonestidade.

Esse ego centrado em si próprionão confia em ninguém a não ser em si mesmo; ele não ama ninguém e quando “ama”é para atender apenas às suas próprias necessidades e à sua própriagratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, ele pode serextraordinariamente cruel para com os outros, vivendo uma situação infernal.

Como evitar que o nosso ego nosdomine e determine nossa vida?

O primeiro passo será desvelar edesmascará-lo com todas as suas maquinações e duplicidades. Só uma pessoaesvaziada de seu ego pode transformar-se e transformar a realidade. O nossoverdadeiro eu está enterrado por baixo do nosso ego ou falso eu. Segundo aparábola deste domingo, a pessoa “torna-se bendita de meu Pai” na entrega e nodescentramento. Porque só assim deixa transparecer a realeza original, aquelaque se identifica com a realeza d’Aquele que viveu para servir.

Só nos fazemos conscientes denossa realeza quando compreendemos nossa verdade mais profunda. Até que issonão ocorra, viveremos como mendigos, tratando de apropriar-nos e deidentificar-nos com tudo aquilo que possa conferir uma certa sensação deidentidade e de segurança. No entanto, ao compreender o que somos, tudo seilumina: o suposto “mendigo” se descobre “rei”. Só na medida em que nosesvaziamos de nossos impulsos egóicos, fazemo-nos solidários com a fragilidadee, o que é mais profundo, nos fundimos com a fragilidade dos outros.

A salvação da humanidade está,pois, em ajudar aos excluídos do mundo a viver uma vida mais humana e digna. Aperdição, pelo contrário, está na indiferença diante do sofrimento. Este é ogrito de Jesus a toda a humanidade.

Texto bíblico:  Mt. 25,31-46

Na oração: O Reino de Deus foi o centro da pregação de Jesus, omotivo de seus milagres, a razão de ser de sua fidelidade até a morte, a coroade sua ressurreição. Quê é para mim o Reino de Deus? Está também no centro deminha vida? É “minha Causa” como foi a de Jesus?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

 

Outros conteúdos