33º Domingo do Tempo Comum – Quem tem medo do Deus de Jesus?

A liturgia deste domingo nospropõe uma parábola que pode ser facilmente mal interpretada; ou pior ainda,fomentar a auto-autocobrança e o perfeccionismo. E, como consequência, ossentimentos de culpa, de impotência, de fracasso…
No campo específico daespiritualidade cristã, uma leitura deturpada da parábola dos “talentos” podeconduzir a uma religiosidade perigosa por vários motivos: supõe a imagem de umDeus como um patrão que exige um cumprimento das suas ordens até os mínimosdetalhes, sem admitir nenhum fracasso; fomenta a ideia do mérito e, com isso,uma religião mercantilista; alimenta um perfeccionismo – busca de um “ideal deperfeição” -, que gera muito sofrimento e farisaísmo; estimula acompetitividade para ver quem consegue um “prêmio maior”… Em definitiva, aquinos encontramos diante de uma parábola potencialmente perigosa.
Todos nós temos uma tendência aalimentar o perfeccionismo e a leitura da parábola dos talentos só viriaconfirmar essa tendência. De fato, o conceito de perfeição cristaliza-se em nósdesde a infância, a partir de experiências não integradas, de sentimentos deculpabilidade, e que acabam nos identificando, no plano pessoal, como não terdefeitos, não ter fragilidades, não ter nenhuma falha ou pecado. Trata-se de ummodo fechado de viver dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximoesforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o “perfeccionista” estáconvencido de que somente será amado por Deus e pelos outros se for perfeito. Agrave consequência disso é que estaríamos pervertendo a mensagem de Jesus,centrada radicalmente na gratuidade, na compaixão e no amor.
Custa-nos reconhecer Jesus comoautor da “parábola dos talentos. Mas, em todo caso, não podemos perder de vistaque se trata de uma parábola, e que a leitura tampouco pode ser literal. Comoler esta parábola para poder recuperar sua mensagem genuína e, ao mesmo tempo,evitar os riscos que o próprio relato deixa transparecer?
Em primeiro lugar, coerente com aprópria mensagem evangélica, só nos cabe ler a parábola como palavra desabedoria e não como código moral; deve ser entendida a partir da gratuidade enão a partir da ideia do mérito e da recompensa. Tudo é dom e somos felizes namedida em que permitimos que esse dom se manifeste em e através de nós.
Também é importante que levemosem conta a situação concreta em que Jesus vivia quando falava em parábolas. Eleviveu situações muito conflitivas e de enfrentamento com os fariseus, os sumossacerdotes, os mestres da lei. Mateus coloca esta parábola dos talentos em ummomento de máxima tensão e enfrentamento de Jesus com os fariseus;concretamente, com o “Deus” dos fariseus, que era um Deus terrível, ameaçante ejusticeiro. Aqui, nesta instigante parábola, Jesus desmascara a falsa imagem deDeus dos fariseus, que torna a vida pesada e marcada pelo medo. É como se Eledissesse: “Meu Pai não é assim; Ele é fonte de amor, de misericórdia e sódeseja que as pessoas vivam felizes, sem medo”.
Nesse sentido, é sumamente útilaprofundar e conhecer o verdadeiro sentido da parábola dos talentos.Normalmente, costuma-se explicar esta parábola dizendo que Deus dá a cadapessoa uma quantidade determinada de talentos, divinos e humanos, dos quaisterá de prestar contas a Ele, até o último centavo, no dia do Juízo Final.Quando se interpreta a parábola dessa maneira, o Deus que aí aparece é umaameaça insuportável; ao considerar a parábola como uma exortação à uma “vidaperfeita”, falsifica-se o sentido autêntico da mesma. O que está em questãoaqui é a “imagem” de Deus que todos trazemos.
O indivíduo que recebeu um sótalento está convencido de que o “senhor”, ou seja, Deus, é “duro”, pois “colheonde não semeou e ajunta onde não espalhou”. Esse indivíduo tem uma ideiaterrível de Deus. E por isso, como é natural, “tem medo”; e o medo o leva a“esconder o talento debaixo da terra”. Isso, precisamente, foi sua perdição. Omedo paralisa, ou seja, torna as pessoas estéreis. No fundo, Jesus está dizendoo seguinte: “o Deus que ameaça com a exigência da prestação de contas até oúltimo centavo, é um Deus que bloqueia e anula as pessoas, os grupos, ascomunidades”. Por isso, é urgente acabar com a imagem do Deus que ameaça, quenão liberta nem cura, que nos amarra e não nos deixa viver.
De fato, a presença de Deus navida e na história de muitas pessoas é vivida secretamente sob as vestes dotemor e do medo. Um “Deus” que a todos nós pedirá contas no juízo, onde teremosde responder pelo mau uso de nossos dons; um “Deus” que nos castiga comdesgraças, por causa de nossos fracassos; um “Deus” interesseiro, um senhorsevero que impõe obrigações duras e dificulta nossa entrada no banquete; um“deus-patrão” que nos prende com contratos e cobranças; um “Deus” que é umconstante perigo, causador do Grande Medo que nos paralisa.
Crer em um Deus que pede contaaté o último centavo é o mesmo que crer em um juiz justiceiro que torna a vidaamarga e pesada. Sem a superação cotidiana dos medos, nossa experiência de Deusestará comprometida, perderá sua força inovadora e nos fará menos humanos.
Para relacionar-nos humanamentecom o Deus que Jesus nos revelou, o mais urgente que devemos fazer é quebrar as“falsas imagens” d’Ele que carregamos em nossas consciências, em nossaintimidade mais secreta. E a primeira e principal imagem falsa é que Deus é umaameaça da qual devemos nos proteger.
Deus é fonte da Vida, ou melhor,o próprio Dom, o “talento” que se dá generosamente em tudo. Ao conectar comnossa verdadeira identidade, nós nos descobrimos n’Ele, não como uma presençaseparada, mas como nosso núcleo mais íntimo e profundo.
Essa descoberta é a fonte denossa ação; estamos permitindo que o “talento” – o Dom, a Graça, Deus…, possaviver em nós; deixar “Deus ser Deus em nossa vida”. Tal vivência sempre daráfruto abundante. Mas o fruto não é algo conquistado, que antes nos faltara enos é dado agora em forma de prêmio ou recompensa – para engordar o ego -; o“prêmio” não é outro que a descoberta daquilo que somos e o prazer de viverisso. O “talento” que nos é presenteado é a descoberta da plenitude que semprefomos.
Finalmente, aquele que não fazfrutificar o talento fala também de nós mesmos, quando permanecemos naignorância de quem somos e, desse modo, “perdemos” a vida, fechados – o talentoenterrado – em nossa pequena couraça narcisista. Isso significa não deixar otalento expandir e permaneceremos nas trevas de nós mesmos, perdidos naconfusão e no sofrimento.
Mais uma vez, não se trata de umaameaça e, menos ainda, de um castigo: é um apelo que nos chama a despertar,para que saiamos das crenças tóxicas que envenenam a mente e o coração, não nosdeixam amadurecer no nível humano e espiritual e nos privam do prazer de vivero Dom (Talento) que nos habita.
Texto bíblico: Mt 25,14-30
Na oração: No interior de cada um, Deus está chamando, está convidandoa que ponha em movimento toda a capacidade de admiração e quer ensinar a ler einterpretar Sua presença em todas as coisas.
– pedir para experimentar, desdejá, a presença do Senhor tal como Ele é, evitando todas as suas falsas imagens;
diante de sua presença cada um deve sentir-se acolhido, desafiado e comuma nobre missão a realizar.
Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj
