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32º Domingo do Tempo Comum – O Azeite da vida que se consome iluminando


“As previdentes levaram vasilhascom azeite junto com as lâmpadas” (Mt 25,4)

Os textos destes últimos domingosdo ano litúrgico nos convidam a velar, a estar preparados, a viver despertos.Deus não nos espera no final do caminho para nos submeter a um juízo; Ele estádentro de nós todos os instantes de nossa vida, inspirando-nos, para quepossamos viver com mais plenitude e sentido. Interpretar a parábola destedomingo(32º Dom TC) no sentido de que devemos estar preparados para o dia damorte é falsificar o evangelho. Esperar passivamente uma vinda futura de Jesusnão tem sentido, pois Ele já disse a seus discípulos: “Eu estarei convoscotodos os dias, até o fim do mundo”.

A parábola não está centrada nofim, mas na inutilidade de uma espera que não é acompanhada de uma atitude deamor e de serviço. As lâmpadas devem estar sempre acesas; se esperamos paraprepará-las no último momento, perderemos a oportunidade de entrar para a festade casamento.

A ideia que muitas vezes temos deuma vida futura esvazia a vida presente até o ponto de reduzi-la a uma incômoda“sala de espera”. A preocupação pelo “mais além” nos impede assumir com maisintensidade o tempo que nos cabe viver. A vida presente tem pleno sentido porsi mesma. O que projetamos para o futuro já está acontecendo aqui e agora, eestá ao nosso alcance; aqui e agora podemos viver a eternidade, já que podemosnos conectar com o que há de Deus em nós; aqui e agora podemos alcançar nossaplenitude, porque sendo morada de Deus, temos tudo ao alcance da mão.

A “chave de leitura” da parábola“das dez virgens” está na falta de azeite para que as lâmpadas possampermanecer acesas. O relato é tirado da vida cotidiana. Depois de um ano oumais de noivado, celebrava-se a festa de casamento, que consistia em conduzir anoiva à casa do noivo, onde acontecia o banquete. Esta cerimônia não tinha umcaráter religioso. O noivo, acompanhado de seus amigos e parentes, ia à casa danoiva para buscá-la e conduzi-la à sua própria casa; na casa da noiva,encontravam-se suas amigas que a acompanhariam no trajeto e participariam dafesta. Todos estes rituais começavam com o pôr-do-sol e avançavam noiteadentro, daí a necessidade das lâmpadas para poder caminhar.

A importância do relato não estáno noivo, nem na noiva, nem sequem nas acompanhantes. O que o relato destaca éa luz. A luz é mais importante porque o que determina a entrada no banquete éque as jovens tenham as lâmpadas acesas. Uma acompanhante sem luz não tinhacomo fazer parte no cortejo nupcial. Pois bem, para que uma lamparina consigailuminar é preciso ter azeite. Aqui está o ponto chave. O importante é a luz,mas o que é preciso para alimentá-la é o azeite.

Que é o azeite que alimenta alamparina? São as reservas insondáveis de potencialidades criativas, derecursos inspiradores, de dinamismos vitais, de forças latentes, de energiassadias, de desejos oblativos… presentes nas profundezas do coração humano, eque o impulsionam a viver em sintonia com tudo o que acontece ao seu redor; oazeite é constituído pelas riquezas do próprio ser, as beatitudes originais, asintuições, os valores… que alimentam a autonomia, a autoria, a criatividade,a iniciativa, o espírito de busca, a capacidade de sonhar… Trata-se do“tesouro do ser”, conservado em sua mensagem essencial, e que pode tornar-se aenergia que alimenta a luz da vida, a sabedoria da própria existência; o azeiteé tudo aquilo que é nutriente, fecundo, iluminante… e que se expressa comocontínua fonte de renovação; azeite é vida interior expansiva que se revela eque se consome nos encontros, na interação e na comunhão com os outros…; emresumo, azeite é o que há de mais divino no interior de cada um, que precisaser descoberto, reconhecido e ativado para tornar-se luz.

No entanto, só quem vive a partirdas raízes do próprio ser, só quem tem acesso à própria interioridade, descobrea presença do azeite que pode ser ativado para dar um novo significado esentido à própria vida. É isso que a parábola do evangelho de hoje nos alerta:é preciso estar desperto e sintonizado com o azeite interior para poderalimentar a luz da vida e corresponder às vozes surpreendentes que vãosurgindo.

“No meio da noite ouviu-se umgrito: eis que chega o noivo! Saí ao seu encontro”.

É uma convocação urgente a sairdo sono da distração e da trivialidade que talvez nos tem aprisionado, durantemuito tempo, àquilo que é acessório e que nos provoca a viver à espera doessencial, atraídos por um impulso que nos move por dentro, ou seja, o desejode vida plena.

Com os distraídos não se pode irmuito longe; dizendo melhor; distraídos são que vivem do momento e não pensamno depois. Seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos defora, cativados pelas luzes artificiais, os distraídos perdem a direção dafonte provedora de azeite em seu interior; dormem e acordam sem luz em suasvidas.. Quem anda distraído, disperso e surfando na superfície de si mesmo,acaba perdendo as grandes oportunidades que a vida lhe oferece. Por isso, ser“sensato” é viver com sentido, atento e desperto às surpresas da vida. Paraquem está desperto, sua vida interior torna-se uma fonte inesgotável deenergia, de dinamismo e criatividade. Assim se entende porque as jovens prudentesnão compartilhem o azeite com as imprudentes. Não se trata de egoísmo: é que alâmpada não pode arder com o azeite do outro. A chama, à qual se refere aparábola, não pode ser acesa com o azeite comprado ou emprestado.

Sabemos que o azeite só iluminaquando se consome. Nossa vida revela pleno sentido e alcança seu fim quandodesaparecemos, consumindo-nos no serviço aos outros. Quando a chama da vidaestá acesa, cresce em nós a consciência de que somos luz na medida em que nosgastamos na nobre missão de iluminar nosso entorno, até chegarmos a ser ceraderretida.

Vivemos imersos num oceano deluz; carregamos dentro a força da luz. Ela sempre está aí, disponível; bastaabrir-nos a ela com a disposição de acolhê-la e de fazer as transformações queela inspira. A Luz é força fecundante, princípio ativo, condição indispensávelpara que haja vida. Somos luz quando expandimos nosso verdadeiro ser, ou seja,quando transcendemos e vamos mais além, desbloqueando as ricas possibilidades erecursos presentes em nosso interior. O que há de luz em nosso interior podechegar aos outros através das obras. Toda ação realizada com amor e compaixão,é luz.

Encantam-nos os cristãosantenados que, cada dia, alimentam sua fé, sua esperança com pequenas coisas,com pequenos detalhes e gestos de amor carregados de luz; cada dia, aprofundamum pouco mais na experiência do Evangelho, mantendo sempre suas lâmpadasacesas, atentos à passagem e às pegadas de Deus por suas vidas; e, sobretudo,carregam sempre reservas de azeite para acolher com alegria a chegada surpresad’Aquele que sempre está vindo ao seu encontro.

Encantam-nos os cristãoscomprometidos que sabem que o azeite se consome, a fé se debilita, a esperançase apaga e amor atrofia quando não são alimentados com o azeite sempre novo emreserva nos seus corações.

Texto bíblico:   Mt 25,1-13

Na oração: Dentro de ti deves descobrir o azeite. Se o descobres,dará luz que alumiará teus passos. Essa chama, se é autêntica, não pode seocultar, pois iluminará também os outros, ativando neles a luz ainda escondida.

Tens que descobrir teu próprioazeite; ninguém pode te emprestá-lo, porque é tua própria vida.

Toda a vida se move de dentropara fora. Azeite que se consome na nobre missão de iluminar.

– Qual é o “azeite original” deteu interior, que inspira tua vida e te move a ser presença iluminante?

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

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