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3º Domingo da Quaresma – SAMARITANA: a história de uma sede

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Comprovamos hoje uma atrofia ouum “déficit de interioridade”, pois a volatilidade das sensações passageirasnos dificulta ter acesso à nossa própria identidade. Continuamente chegam aténós, sensações inteligentes e sedutoras elaboradas pelos técnicos da publicidadeem laboratórios e ilhas de edição e semeadas na nossa afetividadesubconsciente. Estamos rodeados por telas iluminadas (tvs, smart, tablets,computadores…) que emitem uma mensagem “interessada” e nos forçam apermanecer na superfície de nós mesmos, esvaziando-nos de toda densidadehumana. Precisamos redescobrir uma pedagogia que nos conduza até o maisprofundo de nossa intimidade, onde o Espírito alimenta a originalidade de nossoser único, através de uma fonte que nunca se esgota. Precisamos, sob a ação daGraça, destravar nosso centro vivo e sempre inédito, de tal maneira que brote anovidade que tudo renova e plenifica nossa existência.

Vamos, pois, buscar inspiração noencontro instigante de Jesus com a Samaritana, junto a um poço.

Assim como a água, necessáriapara a vida, é preciso extraí-la do fundo da terra, também a água do Espírito épreciso tirá-la das profundezas de si mesmo.

No início do relato vemos umamulher caminhando em direção ao poço de Siquém em busca de água; ela vive um“eu fragmentado”, perdida em sua solidão, sedenta de um sentido para suaexistência… Tinha graves problemas, estava confusa, em toda sua vida haviabuscando o grande amor. No entanto, seus casamentos fracassados continuavam aperturbá-la. Era uma mulher que havia se perdido no caminho: tantos cântarosquebrados, tantos pedaços para recolher.

Jesus rompe com as fronteirasculturais e religiosas, assenta-se junto ao poço de Jacó e, através de umdiálogo provocativo, ajuda a mulher samaritana a encontrar, dentro dela mesma,esse centro de onde mana sem cessar uma água que mata a sede, e não buscá-la emtantos poços secos ou rachados. Com sua presença instigante, Jesus ajuda amulher a integrar suas rupturas existenciais, reconstruindo-a como pessoa, apartir de sua própria interioridade.

O encontro com Jesus fez asamaritana viver uma verdadeira “páscoa”, passando de uma vida trivial edispersa à missão de anunciar aos outros Aquele com quem se havia encontrado.Como uma água “que jorra para a vida eterna”, uma torrente de gratuidadepercorre a cena e transfigura a mulher. Ela foi sendo conduzida até sua própriainterioridade através de um paciente processo que a fez passar da dispersão àunificação, da exterioridade à interioridade, da desarmonia à unidade interior,da solidão à comunhão com os outros.

Ela entra em cena como “umamulher da Samaria” e sai dela como conhecedora do manancial de “água viva”,consciente de ser buscada pelo Pai para fazer dela uma adoradora. Suaidentidade transformada a converte em uma evangelizadora que consegue, atravésde seu testemunho, que muitos se aproximem de Jesus e creiam nele. Aquela quefalava de “tirar água” como uma tarefa de esforço e trabalho, abandona agoraseu cântaro: Jesus a fez descobrir um dom que lhe é entregue gratuitamente.

Na realidade, ela passou a ter asensação de estar nascendo pela primeira vez e que Deus a amava. Caíam asetiquetas. Tudo o que tinha sido, a samaritana, filha de sangues misturados ede religião meio pagã, a mulher com uma vida afetiva fracassada, a amante que,depois de compartilhar sua vida com seis homens, duvidava de ter sido amada deverdade alguma vez… tudo aquilo parecia deixar de existir.

Os véus que cobriam o verdadeirorosto da mulher do cântaro vazio, foram levados pelo vento. Ela se tornou“pessoa”.

Estamos, aqui, diante de uma vidaem processo. Ao longo do relato assistimos a tentativa da mulher de permanecerem um nível superficial e mover-se em seu diálogo com Jesus no âmbito dasuperficialidade. Uma e outra vez ela procura escapar e desviar a conversaçãopara terrenos que não permitem descer em sua profundidade e que não a deixamenfrentar-se com a verdade de sua existência.

Mas ela não contava com atenacidade de Jesus e com sua determinação de alargar aquela vida atrofiada. Aolongo do encontro, Ele é o verdadeiro protagonista, o condutor da cena e aqueleque marca as estratégias da conversação.

Como hábil pescador, Jesus jogasuas redes e lança seus anzóis para tirar a mulher, com quem dialoga, das águasenganosas da trivialidade e do desejo de auto-justificação que a afogam.

Como bom pastor que conhece suasovelhas, Jesus a faz sair do deserto da superficialidade, vai guiando-a para aprofundidade e autenticidade, para a terra do dom da água viva. Como amigo quebusca criar relações pessoais, em nenhum momento emite juízos morais dedesaprovação ou condenação: em lugar de acusar, prefere dialogar e propor,emprega uma linguagem dirigida ao coração da mulher.

Como “expert” em humanidade,Jesus mostra-se profundamente atento e interessado pela interioridade de suainterlocutora e lhe faz descobrir o manancial que pode brotar do mais profundodela mesma. Revela-lhe também a interioridade de Deus como Pai que buscaadoradores em espírito e em verdade.

Jesus desperta a samaritana acair na conta que é preciso abrir-se a um “manancial” novo, que lhe vem atravésd’Ele e que “brota em seu interior” de um modo permanente. Ele é o manancial ecom sua presença desperta o manancial interior da samaritana, entupido.

                     “Dá-me um pouco de sedeporque estou morrendo de água!”

Eis o clamor da nossa geração quetendo quase tudo, parece que não consegue descobrir o sentido da própriaexistência. Morre de sede junto ao poço de água viva.

A sede se refere à busca desentido presente em todo ser humano, busca daquilo que traz definitivamente apaz: a “água viva” que coincide com o “dom de Deus”. Por isso, o relato sesitua intencionadamente em chave de oferta: “se conhecesses o dom de Deus…”.Acabou-se o tempo dos templos; a adoração passa pelo coração, é interior everdadeira, corresponde a uma vida em fidelidade.

A experiência acontece quandoescutamos em nosso interior o “eco” que a água viva produz, saciando nossosdesejos mais plenos. “Uma água viva murmura dentro de mim e me diz: Venha parao Pai” (S. Inácio de Antioquia)

Como a samaritana, também diantede nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva ejustificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nosarrastar pela oferta de transformação proposta pelo Jesus que nos busca, porquedeseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude.

Texto bíblico: Jo 4

Na oração: A cena do encontro de Jesus com a samaritana nos remeteà experiência fundante de nossa vida. Tal experiência significa abertura,dilatação do coração, expansão da consciência ao ver que tudo parte  de Deus (Fonte do rio da vida) e tudo voltapara Deus (rio que mergulha no Mar).

A experiência de oração junto ao nossopoço nos conduz à outra fonte, aquela que brota do coração, e que estavaressequida, impedindo-nos de reconhecer o murmúrio da água viva.

De quê tenho sede? Onde buscosaciar minha sede?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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