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28º Domingo do Tempo Comum – A PROVOCATIVA ENCRUZILHADA

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“Ide às encruzilhadas doscaminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes”  Mt 22,9)

Através de suas parábolas Jesusnos revela uma profunda visão contemplativa da vida; e esta Sua visão não oafasta da realidade; pelo contrário, mantém-no sempre em contato com afragilidade da existência humana: sentou-se à mesa e comeu com os pecadores;misturou-se com os doentes e os impuros; comprometeu-se solidariamente com osmais pobres, oprimidos e excluídos de seu tempo; revelou sua presençacompassiva junto aos mais fracos e sofredores, vítimas de uma estrutura sociale religiosa injusta.

Jesus destruiu as categorias depuro e impuro, perfeito e imperfeito, justo e pecador… E anunciou um banquetepara todos, “maus e bons”.

O Deus que Jesus revelou mostra oseu rosto na proximidade e na reconciliação para com todos. Ele não temvergonha de se aproximar e de se misturar com a pobreza e a fragilidade dosseus filhos e filhas; Deus encontra-se mergulhado no humano, acolhe tudo eplenifica tudo (inclusive a fragilidade). Ele se apresenta como um “Deuserrante”, que corre ao encontro daquele que está perdido.

O Deus de Jesus não age do mesmomodo que o “deus dos fariseus”. Ele não faz comparações entre uns e outros; nãocoloca os impuros em situação de desvantagem. Ele é o Deus “festeiro”, quesempre propõe a “mesa da inclusão” a todos os seus filhos e filhas.

Jesus põe no centro de seuanúncio a indigência, a fragilidade, o limite… e não a perfeição, a pureza…Ele sabia que a pessoa consciente de suas fragilidades e pobrezas é maisdisponível e aberta à Graça de Deus.

Para Jesus, a experiência da fragilidade dá a conhecer a profundeza daexistência humana.

É reconhecendo-se fraco elimitado que o ser humano se abre para Deus e para os outros; é sua própriafragilidade e pobreza que o fazem sensível à escuta e acolhida do convite deDeus para participar da mesa do Reino. Este é o caminho de Deus em direção aoser humano, e do ser humano rumo a Deus.

Para fundamentar a imagem do Deusque se deixa afetar por aqueles que estão excluídos nas encruzilhadas da vida,Jesus conta a parábola de um rei que prepara um banquete de casamento do seufilho para muitos convidados.

Como toda parábola, o ponto deinflexão está em rejeitar a oferta. Ninguém rejeita um banquete. Mas o primeiroe o segundo grupo de convidados, com o coração marcado pela ingratidão eafeiçoados aos seus bens e interesses, fazem-se de surdos diante do convite. Ocampo, os negócios, a violência… é mais importante que a festa da vida.

Quando nenhum dos convidadoscomparece, o dono da casa ordena aos empregados: “ide às encruzilhadas doscaminhos…”, para que convidem a todos, maus e bons. O importante é que hajabanquete, que haja festa.

E com frequência, os maisdisponíveis são precisamente aqueles que não podem fazer grandes festas.

Os pobres e excluídos tem poucasfestas, mas encantalhes as festas; são aqueles que mais sabem festejar.

São eles que dizem sim ao primeiroconvite; são eles que não podem comprar campos, nem juntas de bois. E Deusenche a sala com todos eles.

É provável que as pessoas, àsquais o texto se refere originalmente, tenham sido aquelas que viviam fora deJerusalém, em meio a um mundo de pobreza e exclusão. Tal situação as impediaparticipar de qualquer festa. Mas se entendermos a parábola em chave deinterioridade, como motivação para nosso caminho em direção a uma vida maior,podemos afirmar: o chamado a uma vida em profundidade pode ficar ofuscado peloego fechado e superficial.

O apego aos bens e aos negóciospodem nos impedir de escolher o caminho da vida expansiva; uma vidabem-sucedida é o maior inimigo da transformação. Quem se acomoda no sucesso nãoprosseguirá em sua caminhada interior e ficará parado em sua imaturidadehumana. Quem confia demais em seus próprios negócios ou em seu sucesso poderomper o vínculo com o coração e renegar seu verdadeiro eu.

O perigo está em ter ouvidos paraos cantos das sereias, e não para o convite que vem do mais profundo de nossoser, que nos chama a uma plenitude humana.

Por outro lado, o que a parábolaestá querendo também nos revelar é isto: também aquilo que faz parte do nossoinconsciente, que deixamos abandonado em algum ponto da nossa encruzilhadainterior, ou seja, tudo aquilo que em nós foi rejeitado e reprimido, tambémquer ser incluído e ter um lugar na mesa festiva com Deus. Toda a nossahistória é importante, tudo o que jamais foi experimentado e vivenciado deveser convidado para a integração. Cada aspecto de nossa vida, rico ou pobre, fazparte da nossa humanidade, e tudo o que é humano é lugar de salvação; nãodevemos negar nossos desvios e fracassos, pois eles também querem contribuirpara à nossa verdadeira identidade em Deus. Justamente os aspectos rejeitados eexcluídos de nossa vida é que estão mais sensíveis ao convite à vida plena.

Só podemos nos tornar plenos emDeus quando lhe oferecermos nossas fraquezas, limitações e fragilidades. Tudoaquilo que escondermos de Deus fará falta na nossa humanização. Se nãoaceitarmos os aspectos abandonados e excluídos nas esquinas e encruzilhadas danossa existência, atravessaremos a vida apenas com metade daquilo que somos: umser humano que apenas quer revelar seu lado positivo. Quando nos encontramosassim, sentimos que nada pode fluir, porque algo nos falta.

Essa força terapêutica daparábola nos transmite uma grande esperança: tudo o que compõe nossa história,rica e pobre, positiva e negativa, compõe nossa vida; nada deve ser rejeitado enem julgado; tudo deve ser acolhido e tudo deve ser oferecido ao Senhor dafesta.

Toda a nossa vida, todo o nossoser, tudo o que carregamos em nosso interior, bom e mau, quer ser transformadopelo Espírito e pelo amor de Deus; só assim, aquela imagem original que Ele temde cada um pode se revelar e brilhar em qualquer circunstância de nossa vida.

Podemos, então, afirmar que avida está nas encruzilhadas de nossa existência; afirmando de outro modo: asencruzilhadas estão também carregadas de vida. É das encruzilhadas existênciasque pode nos surpreender com o surgimento do novo. É ali que o convite àplenitude de vida ressoa com mais intensidade.

Nossa razão, nosso “euperfeccionista”, nosso “ego inflado”, nossas afeições desordenadas…não sedeixam impactar pelo convite para a festa da vida. Estão seguros de si,atrofiados e petrificados em seus mundos…

Mas há ainda uma outra imagemsurpreendente, revelada pela parábola deste domingo: os maus também sãoconvidados para o banquete festivo. De repente, porém, a atmosfera muda maisuma vez. Entre os convidados, o rei descobre um homem sem a “roupa” apropriadapara o casamento. Quando o homem não sabe responder à pergunta por quecomparecera à festa sem a roupa de casamento, o senhor ordena que seja jogadolá fora na escuridão.

Todos os nossos aspectos sãoconvidados ao banquete da completude, tantos os aspectos bons quantos os maus,mas nós também precisamos fazer algo.

Esta é uma notícia boa: tudo emnós pode alcançar a união com Deus – também nossos aspectos sombrios e maus -,mas precisamos revesti-los com a roupa do amor, precisamos oferecê-losconscientemente a Deus. Se assim não o fizermos, eles não serão transformados,mas continuarão excluídos na escuridão de nossa existência; com isso não haveráuma festa de casamento, não haverá plenitude de vida.

Texto bíblico:  Mt 22,1-14

Na oração: “Fazer estrada com Deus” nos recorda constantemente que Eleestá nos chamando nas provocativas encruzilhadas de nossa existência. O desafiopermanente é este: examinar as “coisas” que estão ocupando por completo nossocoração e “tomando conta de nós” a ponto de bloquear o fluxo da Graça e daVida.

No fundo, a questão fundamental éesta: a quê “reino” você está servindo? O reino do seu “ego” ou do Deus davida?

 Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

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