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25º Domingo do Tempo Comum – O amor é sempre surpreendente

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“Ou está com inveja, porque estousendo bom?” (Mt 20,15)

Sabemos que toda parábola é umrelato provocativo, instigante, que envolve o ouvinte… A partir de conceitossimples, tomados da vida cotidiana e que todo mundo conhece, a parábola projetanossa consciência para um horizonte maior; por estar profundamente conectada àvida, toda parábola mantém sua atualidade através do tempo e das culturas.

O objetivo das parábolas ésubstituir uma maneira míope de ver o mundo por outra, aberta a uma novarealidade cheia de sentido; igualmente, elas ativam a olhar o mais profundo denós mesmos e a descobrir possibilidades ainda não conhecidas. A parábola revelauma pedagogia que permite não dizer nada a quem não está disposto a mudar, e adizer mais do que se pode dizer com palavras a quem está disposto a escutar.Quem a escuta, deve deixar transparecer em sua presença a mensagem do relato ecomeçar a viver de acordo com o que foi narrado.

A parábola, em si mesma, dá o quepensar, pois questiona nossa maneira de ser, nos diz que outro mundo é possívele espera de nós uma resposta vital. Nesse sentido, as parábolas de Jesus não foram dadas por concluídas;elas estão sempre abertas às novas realidades dos ouvintes; por isso, não podemser entendidas em atitude passiva, pois elas abrem espaço para que cada umentre nelas de maneira criativa. A parábola não é verdade fechada, mas verdadedialogada, onde todo ouvinte deve interpretá-la com sua vida.

Em toda parábola existe um pontode inflexão que rompe a lógica do relato. Nessa quebra se encontra a verdadeiramensagem. Na parábola do evangelho de hoje, a ruptura se produz no final dorelato. É evidente que, em chave de lógica econômica, esta parábola é estranha,fora do normal. Mas Jesus, semeador de parábolas do Reino, sabe que há umalógica mais alta, a do poeta criador.

Esta é a lógica da gratuidade eda bondade do dono da vinha que se expressam no gesto generoso de pagar a mesmaquantia para os trabalhadores que foram chamados em diferentes horários do dia.O contexto da parábola é a controvérsia de Jesus com as autoridades judaicaspor sua contínua relação com pessoas de duvidosa reputação como os publicanos,pecadores, enfermos, crianças, pagãos e mulheres. Precisamente aqueles que eramconsiderados impuros e, portanto, excluídos do círculo de santidade.

Com a parábola do dono da vinhaque contrata trabalhadores, Jesus não pretende dar uma lição de relaçõestrabalhistas. Qualquer referência a esse campo não tem sentido. Jesus fala damaneira de comportar-se de Deus para conosco, que está para além de todajustiça humana. Ele nos desafia a entrar em sintonia com esse modo de agiroriginal e gratuito de Deus, contrário à nossa mentalidade utilitarista. Apartir dos valores de justiça que manejamos em nossa sociedade, será impossívelentender a parábola.

O proprietário daquela vinhatinha uma estranha forma de organizar sua empresa agrícola; não parecia seimportar muito com o dinheiro que investia na mão de obra. A relação entrediária e tempo trabalhado não se ajusta aos cânones empresariais do nosso mundocapitalista: não havia feito nenhum MBA em “racionalização de recursoshumanos”, “índices de produtividade” ou “salários mínimos, máximos benefícios”…Incompreensível sua atitude: pagou a todos igualmente sem valorar tempo etrabalho realizado.

A partir da lógica humana, não hánenhuma razão para que o dono da vinha trate com essa deferência ao trabalhadorde última hora. Por outra parte, o proprietário da vinha atua a partir do amorabsoluto, coisa que só Deus pode fazer. O que a parábola nos quer dizer é queuma relação de “toma lá e dá cá” com Deus não tem sentido. O trabalho nacomunidade dos seguidores de Jesus deve fundamentar-se no modo de agir de Deuse ser totalmente desinteressado.

O sistema religioso do tempo deJesus centrava a prática religiosa no mérito e no pagamento. A salvação sehavia convertido num mercado de compra e venda. Jesus questiona a fundo estamentalidade que tanto mal fez ao povo. Asalvação é dom gratuito de Deus. E a graça, que é sempre surpreendente, tem aver com o amor misericordioso. Deus não maneja nossos esquemas contábeis derendimento e lucros. Para Deus, tanto os primeiros como os últimos são objeto deseu imenso amor e misericórdia.

Na realidade, o que está em jogona parábola é uma maneira de entender a Deus, completamente original. Tãodesconcertante é esse Deus de Jesus que, depois de vinte séculos, ainda não otemos compreendido. Continuamos pensando em um Deus que retribui a cada umsegundo suas obras. Uma das travas mais fortes que impedem nossa vidaespiritual é crer que podemos e temos que merecer a salvação.

O dom total de Deus é sempre oponto de partida, não algo a conseguir graças ao nosso esforço. O caminho decada pessoa é saber-se filho(a) de Deus e comprometer-se na construção doReino, sendo este um caminho de conhecimento que dura toda a vida. Uns tem oprivilégio de compreendê-lo ao amanhecer; outros, no meio da manhã, dão-se contade que estão sendo chamados; e ainda ao cair da tarde, uns quantos maisentendem que são enviados; por fim, ao anoitecer, todos receberão o pagamentopela sua entrega, seu esforço e sua confiança em Deus.

Considerando o denário daparábola como o amor total de Deus, que não pode ser fragmentado, que não fazdistinções e que não considera ninguém como forasteiro ou excluído, é preciso eurgente colocá-lo em circulação como “moeda única mundial”. O amor de Deus nãose fraciona como o dinheiro. Ele é total; paga sem importar-lhe quando aspessoas se deram conta de sua presença. No amor misericordioso de Deus estãoimplícitas a justiça e a alegria. E a justiça aqui significa “ajustar-se aomodo de agir de Deus”.

Se sairmos de nossos esquemas eentrarmos em sintonia com o modo de agir de Deus, não teremos dificuldades ementender a estranha maneira d’Ele realizar os pagamentos; também nós passaremosa desejar aos nossos irmãos aquilo que Deus sempre desejou: que todoscompartilhem igualmente do seu amor surpreendente, superando a estreita visãodo mérito e da recompensa; também vibraremos de alegria quando aqueles que, aocair da tarde, vierem se integrar à nobre missão de construtores do Reino ereceberem o único pagamento possível: o denário do Amor de Deus.

Não percamos tempo pensando eesperando ingenuamente que o FMI ou qualquer outro organismo financeiro váinteressar-se por esta mudança de moeda, já que ela nem é cotada nas bolsas,nem é protegida em paraísos fiscais, nem flutua seu valor conforme convenha aquem move os fios financeiros.

O denário da parábola é cotado nocoração humano e quem compreende seu valor quererá compartilhá-lo com cadapessoa que habita este mundo, começando pelos que “ao cair da tarde” estãoparados: refugiados, enfermos, excluídos, crianças sem acesso à educação nematenção sanitária, anciãos que não podem ter uma velhice digna e feliz junto àssuas famílias, imigrantes, jovens sem futuro enredados pela violência,profissionais que não podem exercer o que sabem… São tantos os que aguardam!

Quando conseguirmos a “mudança demoeda” em nosso coração, estarão em alta valores como a paz, a tolerância, afraternidade, o equilíbrio entre a natureza, a justa satisfação dasnecessidades… O amor será a única “moeda” aceita por todos; o amor será oúnico meio para fazer que as diferenças caiam, as distâncias desapareçam, oserros se emendem e a violência se extinga, o perdão sane e o abraçoreconforte… Está em nossas mãos a possibilidade e a esperança de concretizartudo isso.

Texto bíblico:  Mt 20,1-16 

Na oração: “Por que afligir-se em comparações? Não queira ser omelhor, se certamente não é o pior.

Contente-se por ser diferente namissão que recebe para que algo em você passe a enriquecer os outros.

Deixe-se acompanhar pela eternasurpresa e, encantado, exercite a divina criatividade” (Frei Cláudio)

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

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