24º Domingo do Tempo Comum – O perdão atrevido e criativo
“Senhor, quantas vezes devoperdoar…?” (Mt 18,21)
Pouca gente, mesmo entrecristãos, compreende o sentido profundo do perdão. A maioria pensa que é formade anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender oofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significapassar por cima de um erro ou violência; para outros, o perdão é próprio daspessoas frágeis…
De fato, o perdão não se encaixaconfortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele nãonasce espontâneo dentro do coração do ser humano. A capacidade de perdoar a simesmo ou aos outros é a marca registrada de uma personalidade madura.Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança,retaliação e revide.
O perdão ataca, com todo vigor,aquilo que parece ser uma lei de nossa história. Isso porque a lógica queregula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhordos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.
No perdão, assume-se uma atitudeque não contabiliza mesquinhamente o que se fez; deve-se ter um gesto inovador,um gesto criativo. Caso contrário, fica-se prisioneiro da lógica repetitiva daviolência. Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitudeatrevida e ousada.
O perdão representa a inovação:cria espaço onde já não impera mais a lógica da norma judiciária. Perdão não éesquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele impostopelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação. É precisoaventurar-se no encontro com o outro.
Quem perdoa sabe estar correndoum risco, abandonando o ajuste de contas pela força ou então renunciando àforça do direito. Mas sabe também que, sem esse risco, a história não teránenhum futuro e a violência irá se repetindo indefinidamente.
Sabemos que a violência não temregra em si mesma, é pura repetição. Já o perdão quebra a lógica do “olho porolho, dente por dente” e cancela o movimento repetitivo da violência. Quemperdoa sai fora desse jogo, arriscando a própria vida. O perdão quebra a cadeialógica própria das relações humanas,submetidas ao sistema de equivalência da justiça (cf. Mt. 5,38-42).
O seguidor de Jesus, ao entrar emsintonia com o Deus fonte do perdão, ultrapassa toda imposição da justiça legale abre espaço a uma nova relação com o outro. Assim, o perdão, transformando asrelações humanas, possui a capacidade para revelar o rosto original de Deus.
O perdão é um ato não-humano,parece mesmo ser um ato puramente divino. Joan Chittester chama o perdão “ omais divino dos atributos divinos”. “Perdoar – ela afirma -é ser como Deus”.Mas este ato divino nos é revelado que ele está ao nosso alcance, porque Deusnos convida a ele. O perdão é divino porque, para o ser humano, ele éverdadeiramente divino em seus efeitos e em seu próprio processo.
Por isso, Jesus insistefortemente sobre o perdão, porque este é uma necessidade vital quando a vidafoi ferida. Como presença visível do perdão, Jesus se dirige a cada um com aforça da torrente que jorra para a vida eterna e quer conduzir a todos paraaquela Fonte de comunhão que o Pai deseja, a fim de que toda a vida estejaexposta ao Seu Amor.
Perdão é, em última análise, umaforma de amor, um amor que acolhe o outro na sua fragilidade. Vai ao encontrodo causador da ofensa com uma compaixão que brota de uma consciência daspróprias limitações, abrindo um novo tempo, sem o veneno do ressentimento e daamargura.
O perdão é superlativo do amor.Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amorque reconstrói o passado. Só quem doa amor ao ofensor dá-lhe as condiçõesprofundas de contrição, compunção, compaixão e arrependimento, as quatro viasatravés das quais o ser humano pode renascer de si mesmo e das trevas, trocandoa morte pela vida.
Por ser o gesto mais difícil eelevado, o perdão é a única forma de permitir ao ofensor a entrada de amor noseu coração. Qualquer forma de cobrança, punição e vingança reforça a crueldadedo ofensor e, de certa forma, vai fazê-lo sentir-se justificado. Por isso, aoriginalidade do cristianismo está na descoberta da grandeza do ser humano, noexercício da única força capaz de mudar o mundo: o amor real. Não há revoluçãomaior.
O perdão, então, resitua aspessoas na grande corrente da vida; busca restabelecer um vínculo positivoentre vidas feridas, vidas que se ferem e a vida que as rodeia. O perdão é umaexperiência forte que reconecta com a vida; ele quer abrir uma porta à vida, emum muro fechado de dores, de sentimentos feridos, de autoagressividade. Operdão busca estabelecer uma aposta pela vida. É um ato de realismo, emprofundidade e a longo prazo.
Podemos falar, então, que operdão ativo é terapêutico pois desencadeia um processo de conversão, mobilizatodas as dimensões da pessoa, reestrutura o universo relacional e abre ainterioridade à alteridade. O perdãoreconstrutor, libera em nós as melhores possibilidades, riquezas escondidas,capacidades, intuições… e nos faz descobrir em nós, nossa verdade maisverdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis… É ele que“cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para desvelar nossa própriainterioridade.
A força criativa do perdão põe emmovimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo paralisado epetrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada. Por isso, o perdão é expansivo, ele abre umnovo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ele não selimita ao erro, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo; ele destrava avida, potencia o dinamismo do “mais” e o coloca em movimento em direção a umamplo horizonte de sentido. É gesto gratuito e positivo de encontro, deacolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: até “setenta vezessete”.
O perdão é aquele que melhorrevela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revelaigualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que maishumaniza as relações entre as pessoas. Não apenas afetivo, mas efetivo. Nãoapenas implica mudança na disposição da pessoa que perdoa, mas leva também amodificar a situação da pessoa perdoada. O perdão liberta as pessoas parapoderem cuidar de outras questões importantes na vida; é uma obra de amor paracom o outro e para consigo mesmo.
O ser humano é quebradiço pordentro e por fora. Mas o perdão o redime, depositando nele algo que é maior quesua fragilidade. Trata-se de um dinamismo que o ressuscita, o vivifica e oresgata. O que era sucata, torna-se material para a construção do ser humanonovo; o que era motivo de vergonha, agora é impulso confiante e esperançoso; oque era sinal de morte, agora ressurge para uma vida nova. A novidade interiorse dinamiza para fora e configura, por sua vez, a modalidade do comportamentodiante dos outros.
Em última análise, o perdão é umato de fé na bondade fundamental do ser humano.
Texto bíblico: Mt 18,21-35
Na oração: O caminho para alibertação, a conversão e a reconciliação conduz a uma nova identidade. Esta serevelará e será experimentada no “colóquio de misericórdia”, com os olhos fixosno Crucificado: que fiz? que faço? que farei por Cristo?
– Fazer “memória” dos momentos emque você experimentou a força criativa do perdão do outro, ou foi presença poronde fluiu o verdadeiro perdão.
Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj
