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23º Domingo do Tempo Comum – Viver relações comunitárias sadias e reconstrutoras


“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meiodeles” (Mt 18,20)

Tudo na vida gira em torno dasrelações: com Deus, consigo mesmo, com os outros, com a natureza. Isso éespecialmente verdadeiro numa comunidade cristã. Famílias saudáveis, grupossaudáveis, igrejas saudáveis, vidas saudáveis, ambientes saudáveis… falam derelações saudáveis.

No capítulo 18, Mateus recolheuma série de afirmações de Jesus sobre a comunidade dos seus seguidores. É aprimeira vez que se emprega o termo “irmão” para designar os membros dacomunidade cristã. É preciso notar que o texto de hoje é continuação daparábola da ovelha perdida, que termina com a frase: “Assim vosso Pai que estános céus não deseja que se perca nenhum destes pequeninos”.

No evangelho de hoje(23º Dom TC)é muito relevante a preocupação pela vida interna da comunidade; o texto nosadverte que não se pode partir de uma comunidade de perfeitos, mas de umacomunidade de irmãos, que reconhecem suas fragilidades e precisam do apoiomútuo para superar seus limites e erros. As rupturas nas relações podem surgirem qualquer momento, mas o importante é estar preparado para superá-las.

Jesus Cristo não só revelou averdadeira identidade de Deus, cuja essência é relacional (cerne da doutrinacristã da Trindade), mas mostrou que o caminho para a transformação pessoalconsiste, também, numa correta e justa vivência na relação com os outros. Defato, a pessoa humana não se pode realizar sem os outros. Realiza-se quando,livre e voluntariamente, conhece e é conhecida, ama e é amada, compreende e écompreendida. Precisamente, a reciprocidade das relações é a que permiteintegrar a igualdade e a diferença, a identidade pessoal e a identidade dooutro, buscando chegar à comunhão e à unidade.

Humanamente falando, nem semprenós nos damos conta, mas o foco em torno do qual gira toda a existência humanaestá na capacidade de nos relacionar e de nos comunicar. As relações humanassão o centro de tudo. A essência última de todas as ansiedades humanasmanifesta-se como um problema de relações: com os pais, com os filhos, com oscompanheiros de trabalho, com os amigos, com os vizinhos, com os irmãos decomunidade, com as diversas culturas, raças, grupos étnicos, etc…

Relacionar-se é a grande e únicafinalidade da vida do ser humano: encontrar-se, viver em sociedade, colaborar,construir amizades, amores, conhecer gente…; tudo está condicionado pelapotencialidade e pela capacidade de relacionar-se.

“No princípio era arelação”, afirmava o filósofo Martin Buber. De fato, a pessoa existe graças àrelação e para a relação; cresce na relação e em vista da relação; amadurece ese humaniza na relação. Mas é na relação que emergem nossas riquezas e nossaspobrezas humanas. Todos temos limites, bloqueios que fragilizam os laçoscomunitários. É importante aceitar que existem tais limites, aprender areconhecê-los, ajudando mutuamente a superá-los e acolhendo aquilo que nosconvida a ser mais criativos, audazes e valentes.

A gestão das relaçõesinterpessoais exige equilíbrio e sabedoria. A partir das limitações efragilidades também podemos nos encontrar com os outros. Precisamos desabedoria para aceitar a realidade, acolhê-la e cuidá-la, para ir transformandopor dentro. Não podemos nos conformar com a mediocridade da comunidade. Toda acomunidade é impelida a um “mais” que brota do modo de proceder e viver deJesus.

O sentido da comunidade cristã,portanto, é de ajuda mútua. “Ajudar” pede um coração magnânimo, grandeza desonhos, de ânimo e de desejo; mas, ao mesmo tempo ela nos convida à humildade,ou seja, abrir-nos às necessidades do outro, descer ao nível do outro,renunciando nossos próprios critérios, modos fechados de viver…  “Ajudar” não vai na linha do impor, senão dopropor. Trata-se, isso sim, de propor com qualidade, com firmeza, comproximidade, com compromisso pessoal. Isso requer presença gratuita, desinteressada,centrada no bem da outra pessoa, sem criar dependências, mas fazendo o outrocrescer em liberdade.

A comunidade deve ser sacramento(sinal) de salvação para todos. Atualmente não temos consciência dessaresponsabilidade. Passamos friamente pelos outros. Seguimos fechados em nossoegoísmo, inclusive na vivência religiosa. A falha mais letal de nosso tempo é aindiferença. Martin Descalzo a chamou “a perfeição do egoísmo”. Outro a definecomo “homicídio virtual”. Seguramente é hoje o pecado mais difundido em nossascomunidades cristãs.

O papa Francisco continuamentenos apela a passar da “cultura da indiferença” à “cultura do encontro”; suaintenção é desmascarar a indiferença que prevalece em todos nós, asuperficialidade das relações, e buscar um encontro verdadeiro e profundo com ooutro.

Nessa perspectiva, a comunidade éo lugar da “correção fraterna”; e o critério para a correção não é a lei mas apresença de Jesus que está no meio da comunidade. Quando a correção é feita apartir da lei, assumimos a posição de juízes, rompemos a comunhão, criamoscategorias de pessoas (perfeitas e imperfeitas) e caímos no legalismo emoralismo.

Todos devem “corrigir-se”mutuamente, tendo os olhos fixos em Jesus; no seguimento de Jesus ninguém chegaà “perfeição” a ponto de poder corrigir os outros. Por isso, a correçãofraterna é um estilo de vida que não se limita aos erros e fracassos; elaimplica em ativar mutuamente os dons e capacidades que ainda não puderam seexpressar. A presença de Jesus no meio da comunidade é sempre horizonteinspirador para que todos cresçam na identificação com Ele. Nesse processo decrescimentos os ritmos são diferentes para cada pessoa; não se trata de nivelara todos mas de respeitar os processos, as circunstâncias, as condições de cadaseguidor(a) de Jesus. A correção significa, então, estima e confiança no outro,pois ele é muito maior que suas falhas.

Educados pela misericórdia deDeus, todos somos chamados a exercer o ofício da “correção fraterna”, para quea comunidade possa se revestir sempre mais do modo de ser e proceder de Jesus.

A correção fraterna, pois, não étarefa fácil; e isto por duas razões: em primeiro lugar, aquele que corrigepode humilhar àquele que é corrigido, querendo realçar sua superioridade moral.Aqui temos que recordar as palavras de Jesus: como pretendes tirar o cisco doolho do teu irmão se tens uma trave no teu?

Em segundo lugar, aquele que écorrigido pode rejeitar a correção por falta de humildade. Diante dessas duasrazões necessita-se de um grau de maturidade humana que não é fácil dealcançar. No entanto, o importante não é a norma concreta, mas o espírito que ainspirou é que deve inspirar-nos na maneira de nos conduzir diante das rupturasdas relações, visando sempre a construção da comunidade.

Por isso, onde reina acompetência desleal, nós anunciamos a lealdade; onde reina o empenho emcolocar-se acima dos outros, nós anunciamos a igualdade; onde reina o afã davaidade e da aparência, nós anunciamos o serviço; onde reina a dificuldade nasrelações mútuas, nós queremos ser presenças de acolhida; onde custa solicitar favores, nós queremos estardisponíveis àqueles que clamam por ajuda; onde reina a exploração, nós anunciamos a solidariedade e a lutacontra a injustiça; onde reina a indolência, a inibição, nós anunciamos evivemos iniciativas em favor da vida…

Texto bíblico:  Mt 18,15-20

Na oração: A comunidade cristã,onde você participa, é espaço instigante e inspirador, lugar do novo e dasmudanças, ambiente facilitador da autonomia e da criatividade dos seus membros?

– Sua presença na comunidade:colaborativa, inspiradora, confiança no outro, espírito de serviço…?

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

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