Notícias

22º Domingo do Tempo Comum – Caminho da Cruz, caminho do esvaziamento do “ego”

[imagem2]




“Quem quiser vir comigo, renunciea si mesmo, tome sua cruz e me siga”. (Mt 16,24)

O seguimento de Jesus implica umdescentramento, um esvaziamento do “nosso próprio amor, querer e interesse” (S.Inácio). Para poder viver o Evangelho de uma maneira inspirada, deveríamosdeixar ressoar profundamente em nós essa expressão tão forte de Jesus:“renunciar a si mesmo” para poder viver com mais plenitude e transparência.

Isto não significa que Jesustenha tomado um caminho dolorista, no qual se valoriza a dor por si mesma. Pelocontrário, Jesus vive a sabedoria da vida de onde brota a felicidade. Não vivepara o “ego”, pois este busca sempre seu interesse e comodidade, mas viveancorado naquela identidade profunda, na qual permite que a Vida flua atravésde si mesmo, numa atitude de aceitação ou de sintonia sábia com o Pai.

A “renúncia a si mesmo” não é umexercício de masoquismo, não é mutilar-se, nem buscar sacrifícios, nemanular-se…, Mas é descer até “o dinamismo de vida” (a força germinadora) quepulsa no próprio coração, ansioso de plenitude, de vida e de amor; é a maneiramais profunda de realização.

“Renunciar a si mesmo” é deixar de se identificar com a tirania dasmensagens de nossos pequenos “egos”, que se refletem em nossa própria linguageme autoimagem. A imagem tornou-se uma espécie de absoluto em nossa sociedade. Aela servimos e por ela somos determinados. “Renunciar a si mesmo” é um conselhosábio: significa despertar-se da ilusão e do engano, deixar de girar em tornode um suposto “eu” que não existe, para viver a comunhão com todos e com tudo eagir assim de um modo mais coerente. Aqui o “si mesmo” faz referência ao nossofalso “eu”, aquilo que, iludidos, acreditamos ser: o “eu” que busca poder,prestígio, riqueza… O desapego do falso eu é imprescindível para poder entrarno caminho que Jesus propõe.

Aquele que não é capaz de superaro “ego” e não deixar de se preocupar com seu individualismo (centralidade em simesmo), frustra toda sua existência; mas, aquele que, superando o egocentrismo,descobre seu verdadeiro ser “des-centrado” e atua em conseqüência, vivendo umaentrega aos outros, alcançará sua verdadeira plenitude humana. Trata-se de umponto chave do ensinamento de Jesus, ou seja, o convite a entrar na lógica dodom, do descentramento do eu, da entrega gratuita, da superação da merareciprocidade.

É a lógica aberta pelo Reinado deDeus, que alarga o horizonte da vida humana, enriquece as possibilidades deatuação e aumenta a criatividade no serviço. A lógica do dom implica deixar-seconduzir por Deus, conhecido através de Jesus, que é entrega de vida,misericórdia, perdão, amor infinito.

Nossa verdadeira identidade não éconstituída pelos pequenos “egos” que acreditamos ser. Precisamos despertardessa ilusão e entrar em contato com nosso verdadeiro Eu, nosso Ser e, a partirdele, olhar a vida, olhar nossa atividade e olhar os outros, a fim de viver emsintonia com quem somos em profundidade. É esse o modo de “ganhar a vida”.

Precisamos des-velar (tirar ovéu) de nossos “pequenos eus”, detectar e reconhecer seus dinamismos sombrios eatrofiadores, para podermos caminhar, com mais naturalidade e leveza, para alémde nós mesmos. Do contrário, eles travarão nossa vida de uma maneira tirânica.

É saudável reconhecer esses “eus”e dialogar com eles, pois de outra forma eles se fixarão em nós como rigidez ounos transformarão em fanáticos. Rigidez e fanatismo, dureza e intolerância,legalismo e moralismo… indicam a existência de “eus” inflados que atrofiamnossa existência. A afirmação de Jesus, portanto, nos faz descobrir que pordetrás do “renunciar-se a si mesmo” pulsa o desejo de desprender-se do “egodesumano” para poder expandir a vida em direção a uma ousada criatividade. Ocaminho da fidelidade até a Cruz vai quebrando toda falsa pretensão do “ego”,expandindo nossa vida na direção do serviço e da entrega radical.

Morrer “com Jesus” na Cruz é morrer ao próprio “ego”, para que o “euoblativo” possa ressuscitar para uma vida nova.

Todos os caminhos autênticos deespiritualidade começam por um esvaziamento do ego, uma renúncia a si mesmo,não para negar-se como pessoa, mas, pelo, contrário, para crescer ao recuperara verdadeira identidade na totalidade. Quando “eu me perco”, me encontro,quando “meu eu diminui”, descubro que faço parte de algo maior, que pertenço aDeus.

A vida não deve ser corroída pelatirania do egoísmo mesquinho: vida é encontro, interação, comunhão… Aqueleque quer salvar seu “ego”, perde a Vida, porque se isola numa estreita jaula ouse perde em um labirinto de inevitável sofrimento e, em último termo, de vazioe sem-sentido. Uma existência egocentrada, embora aparentemente satisfatóriapara o “ego” (inclusive até “ganhar o mundo inteiro”), não pode evitar umasensação de profunda insatisfação.

A morte do falso eu é a condiçãopara que a verdadeira Vida se liberte. É preciso passar pela morte do que éterreno, caduco, transitório (paixões, apegos desordenados…) para deixaremergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em nós. Ao descobrir aarmadilha desse “ego” atrofiador, ao deixar de nos identificar com ele, aprimeira coisa que experimentamos é uma sensação de amplitude, onde sentimosque nosso coração se expande e descobrimos que o horizonte é, na realidade,infinito.

Uma das manifestações dasociedade narcisista na qual o “eu” tornou-se a instituição máxima e o eixo douniverso é a chamada cultura do “selfie”. Sociologicamente isso pode revelar aobsessão pelo protagonismo e pela sacralização do eu.

O que vale na cultura do”self” é o modo como nos apresentamos. Na imagem nos recriamosconforme nosso “self”, isto é, mostramos aquilo que acreditamos ser o nosso”eu”. A imagem precisa ser perfeita, pouco importa a maneira como elafoi feita, tampouco, as circunstâncias da construção dela. Por isso, “tomar aCruz” é uma imagem que quebra e esvazia toda pretensão de autoafirmação do eu.

É um momento doloroso pois apessoa resiste e pode encher-se de angústias e medos ao perder o falso ponto deapoio sobre eu autônomo, impassível centrado em si mesmo. E teme o pior:perder-se, diluir-se. Somos continuamente bombardeados de afirmações sobre anecessidade de um Eu forte e integrado. O encontro com Cruz elimina onarcisismo, desmascara a prepotência e nos devolve à vida cotidiana (tempo,casa, profissão, conversação) como o único lugar no qual podemos nos encontrarcom a nossa própria verdade.

“Do eu des-centrado ao euenraizado no seguimento de Jesus”: este é o movimento de vida plena.

Textos bíblicos:  Mt 16,21-27

Na oração: Aprenda a morrer aos próprios interesses mesquinhos paraque os outros vivam. Há na vida muitas coisas – pequenas ou imensas – que vãomorrendo e nascendo de novo, diferentes, melhores, reconciliadas…

Não permaneças nasuperficialidade do ego; desce mais ao fundo de ti mesmo e descobrirás aharmonia.

Teu verdadeiro ser é paz, émansidão, é bondade. Vá mais além de teu falso ser!

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

Outros conteúdos