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21º Domingo do Tempo Comum – As perguntas inquietantes que nos habitam

“E vós, quem dizeis que eu sou?”(Mt 16,15)

Já agradecemos alguma vez pelasperguntas que nos fizeram? Em um diálogo, as perguntas são a ponte entre asvozes, a confluência de corações, o brilho de luz compartilhada. Todas e cadauma delas nos fizeram crescer, mesmo aquela que parecia a mais trivial. Porquecada pergunta vem carregada de matizes, umas com carinho, outras de atenção oude interesse, e, inclusive, algumas de desafio… Umas foram respondidas,outras não sabíamos como respondê-las, talvez nunca saberemos respondê-las…

A pedagogia de Jesus nos Evangelhos é feita de perguntas.

Jesus é um Deus que pergunta. Sãoinúmeras as vezes em que Ele se aproxima das pessoas e as interroga. Desde o“quê buscais?” no início do evangelho de S. João, passando pelas perguntas naregião de Cesareia de Filipe, “quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”, “evós, quem dizeis que eu sou?”, até à tríplice interpelação a Pedro, “tu meamas”?

Aquele que é a Verdade, o Caminho e a Vida, também se compõe deperguntas.

Jesus, com sua pedagogia fundadaem perguntas, nos coloca diante do mistério de Sua vida e de Suas opções.Responder à pergunta “quem é Ele” é comprometer-se com Ele, é assumir o caminhod’Ele, é arriscar-se n’Ele. Jesus aproxima-se das pessoas. Não procuraconvencer, argumentar, ou fazer seguidores à base de discur-sos. Suas perguntasousadas colocam em crise visões distorcidas, falsas concepções e idéiaspré-conce-bidas a respeito d’Ele. Com sua pergunta Jesus provoca uma radicaldecisão pró ou contra Ele, uma clara opção pró ou contra o Reino. Um cristãoque nunca tenha proposto seriamente esta questão a si mesmo, de uma maneiravital, não está maduro na maneira de viver o seguimento de Jesus Cristo.

Como cristãos nós nos definimosmais pelo perguntar do que pelo responder. “Perguntar” é buscar, é despertar acapacidade de nos deslumbrar diante deste mundo fenomenal que somos nós ediante desta realidade que nos circunda.

A espiritualidade cristã reacende em nós as grandes “interrogaçõesexistenciais”: 

 

“Quem somos nós? – Quê estamos fazendo? –

Por quê estamos fazendo? – Para quem estamos fazendo?…”

A índole interrogatória é traçotípico da espiritualidade cristã; o perguntar é ousado; perguntar desafia, temdose de irreverência; são perguntas de “conversão”, de mudança, que abrem para ofuturo, para o novo. A pergunta é movimento, é vida… e suscita resposta viva,criativa, surpreendente… e inesgotável. Não são perguntas para começar acaminhar, mas para reforçar nosso espírito de aventura e mobilizar nossosrecursos interiores na busca do “sentido” de nossa identidade e da missão querealizamos. Tais perguntas trazem à tona nossas motivações, nossas formas deagir, de amar e de sentir… A busca é interior, o caminho é pessoal ecoletivo, a resposta tem um toque de eleição comunitária.

Desde o início, ainda no paraíso,Deus buscou o ser humano com uma pergunta: “onde estás?”. Deus nos buscacontinuamente com suas perguntas. Nós somos resposta a essa perguntaprimordial. Igualmente, o ser humano é um amontoado de perguntas, é um ser quepergunta. Com pouco tempo de nascimento e quando vai se abrindo à aventura davida começam suas perguntas: “por quê?”… um infinidade de “por quês?”

Também somos uma pergunta quefazemos a Deus e esperamos resposta. Quantas gostaríamos de fazê-las a Deus?Mas a resposta só virá quando o nosso coração estiver preparado para escutá-la:sem medo, sem angústias, em atitude de espera e confiança.

“Sê paciente com tudo o que aindanão está resolvido em teu coração… Procura amar tuas próprias perguntas…Não busques as respostas que não podem ser dadas, porque não serias capaz devivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Vive agora as perguntas.Talvez assim, gradativa-mente, sem dar-te conta, possas algum dia viver asrespostas” (Rainer María Rilke).

De fato, habitamos nas perguntas.Viver à escuta das interrogações nos mantém despertos no caminho. São asperguntas que suscitam em nós o assombro frente à riqueza da realidade, apreocupação frente o drama da humanidade, a disposição frente ao futuro…,exigindo-nos assim viver continuamente numa atitude de escuta.

A mediocridade das respostasformatadas paralisam e fecham as portas às novas possibilidades. As perguntas,ao contrário, são o fio de ouro em meio ao cascalho que mobilizam o garimpeiroa buscar sem cansar. As respostas cortam o movimento, atrofiam a curiosidade,matam a criatividade e o espírito de a-ventura; elas impedem a mobilização dosrecursos interiores da pessoa na construção do conhecimento, levando-a à apatiae à acomodação.

O momento é de tecer perguntasonde há mais respostas formatadas e fechadas. Urge, pois, implementar e desenvolver hábitos, processos, que nos ajudema sermos mais intuitivos através das perguntas que abrem acesso às reservasinteriores de criatividade e imaginação, frente aos desafios cotidianos.

A pregunta “quem é Jesus” nãopode ser respondida simplesmente com os dogmas. A resposta deve ser prática,brotar do chão da vida. Nossa vida é a que tem que dizer quem é Jesus Cristopara nós. “Quê diz tua vida de mim?”  Doesforço dos primeiros séculos da Igreja por compreender a Jesus, devemos fazernossas, não as respostas que deram, mas as perguntas que foram feitas.

A verdadeira pergunta é: “quê é,que significa Jesus Cristo em nossa vida?” Não basta dizer que cremos em Jesus. É preciso nos perguntar: em quêJesus cremos e quem é Jesus para nós?

Texto bíblico: Mt. 16,13-20

Na oração: nosso coração se encontra diante da revelação do “euoriginal”, porque está enraizado na identidade do próprio Jesus (“quem sou eupara vocês?”).

A contemplação da pessoa de Jesusé também desvela-mento do eu “escondido com Cristo em Deus” (Col 3), ou seja,revelação da verdade do eu, onde descobri-mos os traços de nossa própriafisionomia.

Não posso responder a essapergunta – “Quem é Jesus para mim?” – se não me pergunto ao mesmo tempo: “Quemsou eu, diante do Senhor?” Sem identificação não haverá um encontro profundocom o Senhor.

O encontro comigo mesmo meaproxima do encontro com o Senhor e o encontro com o Senhor revela minhaprópria identidade.

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

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