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17º Domingo do Tempo Comum – Olhos abertos às surpresas de Deus

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“Quando encontra uma pérola degrande valor, ele vai, vende todos os seus bens e a compra”

As parábolas do evangelho de hojenos colocam diante de um fenômeno humano conhecido como serendipitia,serendipidade ou serendipismo: termos que expressam o sentimento de alegriaquando encontramos alguma coisa surpreendentemente boa sem que,necessariamente, estejamos procurando por ela; referem-se às descobertasafortunadas feitas por acaso; trata-se de uma forma especial de criatividade,na qual saímos em busca de uma coisa e acabamos encontrando outras muito maisimportantes e valiosas.

Estes termos se originam dapalavra inglesa “serendipity”, criada pelo escritor britânico Horace Walpole em1754, a partir do conto persa infantil “os três príncipes de Serendip”. O contorevela as aventuras de três príncipes do Ceilão, hoje Sri Lanka, que viviamfazendo descobertas inesperadas durante o seu caminho. Graças à capacidadedeles que aliava perseverança, sagacidade, inteligência e senso de observação,os príncipes acabavam encontrando “acidentalmente” soluções para seus dilemas.Isso revelava uma mente aberta para as múltiplas possibilidades.

A ciência está repleta de casosfamosos que podem ser classificados como serendipismo, mas estes só ocorreramporque as pessoas estavam “abertas” a estas descobertas, preparadas e com osenso de observação apurado. A descoberta ocasional dos manuscritos de Qumram,a fotografia, o raio x, a penicilina, a lei da gravidade, a descoberta deColombo… tem em comum que não foram diretamente buscados, mas, por seremdescobertas afortunadas e inesperadas, abriram novos horizontes e tornaram avida mais bonita e mais agradável. O serendipismo é a pitada que falta no nossoespírito inovador e criativo, que é estar sempre aberto ao inesperado.

O conceito de “serendipidade” éaplicado em muitos setores da vida humana, inclusive no campo daespiritualidade. Serendipidade se refere às descobertas ou encontrosafortunados feitos aparentemente por acaso, que muitas vezes possibilitamtransformações radicais e positivas em nossas vidas.

Na vida espiritual, o estiloserendipitico ativa em nós o olhar atento, para dentro e para fora, fomenta oassombro e a admiração diante da nossa realidade cotidiana, nos mantém ematitude de abertura para o gratuito e nos faz abertos à Graça e à suasurpreendente novidade. O verdadeiro segredo está em abrir-nos às oportunidadesque a vida nos oferece; é viver a arte de uma apurada sensibilidade e atenção atudo o que acontece ao nosso redor; trata-se de reconhecer e aproveitar asdescobertas inesperadas. Reconhecer, receber, viver e agradecer.

A vida é uma busca incessante poraquilo que consideramos essencial e as descobertas surpreendentes só acontecemquando nos deixamos mover por esse espírito de busca; ser buscador significater olhar contemplativo, ou seja, transformar simples observações do nossodia-a-dia em grandes descobertas. Por isso, é nas entranhas do cotidiano quebrotam as grandes intuições, as experiências místicas, a criatividadeartística, os sonhos ousados…; pois é no cotidiano que irrompe o novo e orevolucionário. É a  atitudecontemplativa que nos desperta da letargia do cotidiano. E despertosdescobriremos que o cotidiano guarda segredos, novidades, energias ocultas quesempre podem acordar e conferir novo sentido e brilho à vida.

A vida espiritual está cheia de“momentos serendipiticos”, ou seja, encontros reveladores e inesperados comAquele que se revela sempre de maneira surpreendente, através das surpresas davida. Só aquele que segue as intuições do coração, estando aberto às infinitaspossibilidades, pode entrar em sintonia com Aquele que “trabalha em tudo e emtodos”. Ao confiar na sua orientação interior, a pessoa vive a sua vida com discernimento,carregando-a de amor e paixão.

Deus constantemente nossurpreende no singelo, nas coisas simples da vida. Muitas vezes nós perdemos acapacidade de ver a sua ação nas pequenas coisas e ficamos esperando grandessinais. Cada instante é uma chance para perceber esse amor que Ele tem por nós.Se vivemos cada momento ordinário de forma extraordinária, certamenteperceberemos a sua ação e seremos surpreendidos por Ele – um encontro comalguém, um gesto de bondade, uma palavra que alguém nos dá, uma paisagem quevemos, enfim, infinitos momentos em que Deus nos fala e nos busca surpreender.Mas, por não prestarmos atenção, por estarmos dispersos em tantas preocupações,por não fazer silêncio em nosso interior, acabamos não percebendo.

O Evangelho também está cheiodesses momentos serendípiticos: uma multidão faminta em busca por alimento eaparece um menino com apenas cinco pães e dois peixes; uma mulher samaritana embusca de água e inesperadamente encontra-se com o autor da água viva; o baixinhoZaqueu que desejava apenas matar a curiosidade, é surpreendido por Jesus quedeseja ser hóspede em sua casa; as parábolas da descoberta inesperada  do tesouro e da pérola…

O papa Francisco, em uma Homiliaproferida no Santuário Nacional de Aparecida, convidou-nos a constantemente”deixar-nos surpreender por Deus”. Deus espera que nos deixemos “surpreender por seu amor, que acolhamos assuas surpresas”. O papa nos mostrou como modelo a história do Santuário: trêspescadores depois de um dia inteiro sem apanhar peixe encontram, nas águas doRio Paraíba, a imagem da Senhora Aparecida. Sabemos que os pescadores, apósencontrarem a imagem milagrosamente, têm uma pesca abundante e conseguem o queprecisavam para atender ao conde de Assumar. O Papa Francisco vai além, vai aoessencial desse episódio para entendermos melhor como Deus atua: “Quem poderiaimaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, torna-se-ia o lugar onde todosos brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende,sempre nos reserva o melhor”.

O evangelho deste domingo nosmotiva a “des-velar” nosso “eu profundo”, o lugar onde habitam os aspectosbenéficos da nossa personalidade, as boas tendências, as qualidades positivas,os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes originais, as aspirações degrande fôlego, as ideias-força, os dinamismos da vida… Ao transitar, demaneira atenta e contemplativa pelos espaços interiores, seremos surpreendidospor descobertas inesperadas que farão toda a diferença em nossas vidas.

O “tesouro do ser” (certezas,intuições, projetos, valores…) ainda que pareça esquecido, permanecearmazenado em sua mensagem essencial, e pode tornar-se a força que orienta todaa vida, a sabedoria da própria vida, um lugar de fecundidade, de criatividade,fonte de renovação…

Dentro de nós temos forçasconstrutivas que podem mudar-nos eficazmente. E é preciso dar-lhes curso, nãoocultando-as e nem desprezando-as, mas deixando-as aflorar espontaneamente.“Que eu me conheça e que te conheça, Senhor! Quantas riquezas entesoura o homemem seu interior! Mas de que lhe servem, se não se sondam e investigam” (S.Agostinho)

É decisivo estar dispostos aabrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novas vivências,novas experiências… Porque sempre há algo diferente e inesperado que podeenriquecer-nos. A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveiscaminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossasvidas; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderemose nos farão um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples…

Texto bíblico:  Mt 13,44-52

 

Na oração: A oração ajuda a liberar o “olhar” para contemplar arealidade de outra maneira. Com isso, cada um pode descobrir melhor no seucotidiano o que há de novidade positiva e salvadora.

– Contemplar é ter umasensibilidade para deixar-se surpreender por Deus hoje, ou seja, re-educar oolhar para deixtar-se impactar pelo novo, pelo inesperado…

– na sua vivência cristã,identifique algumas ocasiões em que você não estava esperando e descobriu algoque se revelou importante para sua vida.

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

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