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16º Domingo do Tempo Comum – O “lado mau amado” de nossa vida

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“Pode acontecer que, arrancando ojoio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita” (Mt13,29-30)

A Bíblia fala sempre da vidahumana. Nela encontramos inúmeras referências à questão da sombra ou do ladoobscuro em nossa vida. Textos emblemáticos são as parábolas de Jesus quedesvelam o que somos, o que está acontecendo em nosso interior; em certo sentido,assemelham-se a uma descrição de nossa realidade interior. Não são contosmoralizadores; todos os personagens que aparecem somos nós. Por isso, asparábolas são tremendamente iluminadoras. Com efeito, cada um de nós é um tipodiferente de terreno; cada um, o trigo e o joio; cada um, os dois filhos; cadaum, o fariseu e o publicano…, e assim por diante, em todas as parábolas.

O primeiro e o mais claro que serevela na parábola que a liturgia nos propõe para este domingo, é que arealidade da vida humana é de tal condição, que nela sempre vão estar mescladoso bem e o mal, o trigo e o joio, a boa e a má erva. Este é o fato. Todosgostaríamos que as coisas acontecessem de outra maneira. E que, portanto, nãoteríamos que ver cada dia tanto joio sufocando o bom trigo que cresce e dávida.

Em nosso interior também sentimoscruamente o trigo e joio, e gostaríamos ser um bom campo de trigo, dessesmovidos pelo vento, que antecipam um pão abundante; e todo joio que aparecejunto a esse trigo nos molesta, desejaríamos arrancá-la e como, depois de muitoesforço, não conseguimos, então empreendemos a tarefa de ir buscar joios emcampos alheios com um fervor que impressiona.

A parábola do joio e dotrigo  revela a tendência humana emrealizar os ideais de perfeição e distanciar-se cada vez mais de sua condiçãode criatura. O ideal é o ser humano “puro” e “justo”, sem qualquer imperfeiçãoou fraqueza. Tal tendência nos leva ao rigorismo contra nós mesmos, ou seja,nos leva a proceder com violência contra nossas próprias limitações.

Aquele que, a qualquer preço,deseja ser “perfeito”, em seu campo não irá crescer senão um trigo raquítico.Nas nossas raízes o joio está intimamente misturado com o trigo. Quando alguémnão admite em si nenhuma falha, com suas paixões ele arranca também a própriavitalidade, com a fraqueza ele destrói também a própria força. Muitosperfeccionistas e idealistas se fixam de tal maneira sobre o joio em seuinterior que só pensam em eliminar as falhas, de tal modo que a vida mesma ficaprejudicada.  De tão perfeitos, elesficam sem força, sem paixão, sem coração.

Numa espiritualidade“perfeccionista”, o ideal é o homem-mulher puro(a) e santo(a), sem defeitos nemfraquezas. Mas isso leva a um rigorismo moral, contra o qual parece dirigir-sea parábola deste domingo. A arte da humanização consiste na reconciliação com aprópria sombra. O ser humano comporta em si amor e ódio, razão e emoção,gentileza e dureza… Muitas vezes vivemos apenas um polo e recalcamos o outro.Enquanto este permanecer nas sombras terá um efeito destrutivo. Muitos ficamchocados quando, apesar de todo esforço para serem pessoas amáveis e gentis,descobrem em si lados insensíveis, antipáticos e ofensivos.

Um outro aspecto que aparece naparábola é que os “trabalhadores do Senhor”, ou seja, os que se veem a simesmos como os vigilantes da ortodoxia e da moralidade, tem a tendência dequerer logo arrancar o joio. Ou seja, não toleram que o bem e o mal estejammisturados. E querem um campo limpo de tudo o que eles veem como joio.Normalmente, esta tendência daqueles que se consideram como “vigilantes do bem”costuma desembocar na intolerância e inclusive na intransigência e nofanatismo.

Na “parábola do trigo e do joio”,o impaciente é nosso orgulho, que gostaria de chegar de imediato aos resultadospara ficar “satisfeito”. Enquanto vivermos, o joio crescerá no campo do nossointerior. Conviver com isso nos faz mais humildes e nos protege de uma durezafalsa em relação a nós mesmos e aos outros.

A sabedoria de Jesus convida-nosa reconhecer em nós, misturados, o trigo e o joio. Este último, que é semeado“durante a noite”, isto é, na obscuridade do inconsciente, podem ser nossaspróprias sombras, aquilo que tentamos eliminar porque se mostra incômodo paranós e não combina com nossos ideais pré-fixados… E Jesus não nos pede quesejamos só trigo – essa é a armadilha de toda espiritualidade farisaica, masque aceitemos nossa verdade completa e reconciliemos também com o “nosso ladoobscuro”

Numa leitura moralista e dualistada vida, nós gostamos de separar o bom do mau, os que pensam como nós e os quenão pensam como nós, os que são dos nossos e aqueles aos quais não os levamosem conta. Há muitas pessoas que, não só se sentem capacitadas, senão que alémdisso estão empenhadas em arrancar o quanto antes o que elas pensam que é aerva má. São os intolerantes, os que não suportam aqueles que fazem ou dizem oque eles creem que não se deve fazer nem dizer. Por isso não respeitam opluralismo, nem a diversidade. Exigem que todos lhes respeite, mas eles seconsideram com direito a não respeitar o dissidente, o diferente ousimplesmente o outro.

No entanto, o Senhor (dono dogrande campo da vida) não quer que ninguém se veja no direito de discernir oque é trigo e o que é joio. Mas, sobretudo, o Senhor não tolera que ninguém seconstitua em juiz que, como consequência, vai pela vida arrancando tudo o que aele lhe parece que é joio. Porque pode equivocar-se. A religião não tem nemautoridade nem competência para decidir o que é joio na sociedade. E menosainda tem competência para arrancar essa presumível joio. Somente o Senhor podesaber quem é trigo e quem é joio.

O ensinamento do evangelho dehoje é claro: sejamos tolerantes e respeitosos. Não julguemos, não condenemos edeixemos a Deus ser Deus. Nós não somos “deuses”. A fertilidade da nossa vidanunca é expressão de uma impecabilidade absoluta, mas resulta da confiança nofato de que o trigo é mais forte do que o joio e de que o joio poderá serseparado na colheita.

Em tudo que fazemos devemos serpermeáveis ao Espírito de Deus. Mas sempre devemos permanecer humildes e contarcom a possibilidade de que nossas atividades cotidianas se misturem comsegundas intenções. Essas são o joio. Mas isso não significa que devemos deixaro joio determinar a nossa vida, através do seu crescimento irrefreado.

A questão de fundo é esta: qualdos dois alimentamos em nossa vida: o joio ou o trigo? Aqui se trata de pôrambos, o trigo que cresce em nós e o joio que espreita, sob o olhar e o cuidadodo Semeador; porque só Ele é que pode fazer a colheita. O decisivo é colocar oSenhor no centro de nossa vida; e onde Ele encontra espaço de atuação, ali otrigo cresce viçoso e produz frutos.

O caminho do seguimento de Jesusnão visa nos transformar em pessoas perfeitas e impecáveis. Antes, desejaencorajar-nos a conviver com nossos lados sombrios. O seguimento de Jesus,portanto, não é combate interno que desgasta, visando eliminar o joio, masabrir espaço para que o Semeador atue com sua Graça.

Texto bíblico:   Mt 13,24-43

Na oração: A vida cristã nos fazespecialistas em interioridade precisamente porque somos levados a percorrer,mil e uma vezes, todos os meandros de nosso interior para encontrar,transcendendo luzes e sombras, a Presença criadora que tudo sustenta evivifica.

E é simplesmente dessa maneiraque nos tornamos mais humanos e, portanto, mais divinos.

– quê lucidez você tem de suaprópria sombra (joio) e qual a sua atitude com relação a ela? Quê atitudes vocêassume para que o trigo determine sua vida?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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