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15º Domingo do Tempo Comum – Tempo das raízes

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“Quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porquenão tinham raiz” (Mt 13,6)

Temos perdido as raízes? Comoconectar-nos com elas? Quê raízes nos alimentam? Onde estamos enraizados? Quaissão as raízes que nutrem atualmente nossa vida? São as melhores? Enraizamento,fincar raízes, viver da profundidade das raízes… O “novo” vem das raízes, vemde baixo, da base, do chão da vida. É preciso relançar uma nova radicalidade.Viver a partir das raízes, projetar a partir das raízes, criar a partir dasraízes. É tempo de fortalecer as raízes; e viver o tempo das raízes para serpresença “diferenciada” na realidade cotidiana de cada um.

Neste novo contexto em quevivemos, marcado pelo desenraizamento, promove-se muito mais viver em mundosvirtuais, em espaços criados pela tecnologia, comunicando-se através derelações informáticas com pessoas distantes, desenraizando-se do próprio chãoexistencial; no emaranhado das imagens e sons perde-se a noção daquilo que éessencial, decisivo para a vida; vive-se na superfície dos acontecimentos e desi mesmo; mina-se a consistência interior e fundamento sobre o qual se apoia aprópria vida; esfria-se toda proximidade e relação com o outro; petrifica-setodo compromisso com as causas sociais…

Desenraizar-se é desumanizar-se.

Jesus, o homem enraizado em seupovo e sua cultura, traçou seu caminho em parábolas. Suas palavras romperam aordem oficial do templo, a segurança dos sacerdotes, a razão dos escribas,colocando todos os homens e mulheres do povo frente à proposta de vida plena efeliz, desejada pelo Pai. As parábolas parecem revelar a verdadeira identidadede Jesus; é como se alguém lhe perguntasse: “quem és tu? O que fazes?”. SegundoMateus, Jesus é o verdadeiro semeador. Por isso, é decisivo prestar atenção aoseu modo de semear. E Ele faz isso com uma surpreendente confiança; semeia demaneira abundante; as sementes de humanidade são lançadas em todos os tipos deterrenos, mesmo entre aqueles onde a germinação parece difícil. O semeador nãodesanima nunca; sua semeadura não será estéril.

A parábola do “semeador” é muitoprecisa, nem uma palavra a mais, nem uma a menos; nenhum floreio ou comentáriosem excesso… Austeramente, Jesus descreve o que acontece com a semente,partindo das experiências normais da agricultura de seu tempo, um exemploconcreto do trabalho nos campos, de maneira que todos os ouvintes podiamentendê-lo.

Tudo é normal e todos sedescobrem imersos nela, como se estivessem juntos construindo a parábola,buscando seu sentido. Pois bem, quando ela é escutada dessa forma descobrimosque ela desafia todas as convenções sociais, pondo em movimento nossa vida,pois ela fala de nós, do que somos e fazemos. Assim ela se revelasurpreendente, pura transparência, como um chamado à nossa própriacriatividade. Nesse sentido, toda parábola vem iluminar e inspirar nosso modode seguir e de nos identificar com Jesus; tal seguimento não é questão de umasimples adesão à pessoa de Jesus, mas um enraizamento na vida d’Ele, buscandoali a seiva que vai dar novo sentido à nossa existência.

A “nova radicalidade” (e nãoradicalismo) é a forma de seguir a Jesus. É uma radicalidade amável eexpansiva, porque quem chega às raízes descobre-se enraizado na naturezahumana, naquilo que todos compartilham e, por isso mesmo, descobre-se esente-se enraizado no Outro. Ninguémpode viver sem raízes, pois não se sustentaria de pé. Quando perde suas raízes,o ser humano se atrofia e fica privado de algo decisivo, essencial: de umafonte de vitalidade.

A verdade é que a vida cristã nospede “desenraizamento” de algumas realidades que nos envenenam e  fazem romper as relações (enraizamento nopoder, na riqueza, na centralidade do próprio ego, na cultura dasuperficialidade…). Para dizer um “sim” ao seguimento de Jesus e enraizar-nosem uma realidade verdadeiramente consistente (sua palavra e vida) é precisodizer “não” àquelas outras realidades, desprender-nos delas, desenraizar-nosdelas.

Ao nos convidar a ter raízesprofundas, o Evangelho de hoje (15º TC) está afirmando algo muito importante:nesta terra, nesta realidade social, cultural, eclesial e política, já estásemeado o Reino, já está viva e ativa a presença do Deus fiel que cria futuro.Nós nos alimentamos desta realidade na medida em que nos deixamos semearnela.  Somente aquele que se deixa semearexperimenta o sabor da seiva da vida de Deus entrando por suas raízes,percorrendo seu ser inteiro, fazendo-o crescer e dando os frutos de que nossopovo precisa. Aquele que não se deixa semear vive de ilusões e quimeras queenvenenam sua existência.

O duro trabalho de lavrar aterra, de semear e semear-nos nela, supõe um amor pela terra. Acreditamos nela,a apalpamos entre os dedos para sentir sua qualidade. O camponês ama sua terranão só pelo que lhe possa produzir, mas porque nela está presente a herança degerações familiares que lhe precederam. Sua terra tem nomes e sobrenomes: paraele é um ser vivo com sangue de família em suas entranhas. Amamos a terra naqual estamos semeados como Jesus amou o seu povo?

Ter as raízes fincadas nahistória, na realidade, raízes que a partir do oculto nutrem nossa vida ealargam o coração, é saber que temos uma origem e uma meta que é o próprioDeus. Raízes que se entrecruzam por debaixo do solo, no profundo,compartilhando a mesma água e o mesmo húmus. Vida nova, que cresce a partir dedentro e a partir de baixo, a partir do oculto. Ramos que se abrem e se curvambuscando a luz. Uma vida iluminada. Profundidade, serenidade e descanso.Solidariedade e comunhão. Vida que cresce em companhia. Vida consistente.Solidão habitada e fecunda.

Muitas vezes o enraizamento supõeestar presente naquelas realidades das quais muitos fogem, das quais muitosrenegam, ou que são somente terras de passagem, fronteiras que geram medo einsegurança. O enraizamento supõe respeito para com toda realidade, amar aterra concreta tal como ela é, como Jesus que, na Encarnação, foi semeadonaquela terra dominada e excluída da Palestina.

Foi no enraizamento do chãodaquele povo que Jesus foi se humanizando e abrindo-se à novidade do Reino doPai que tudo transforma. Assim expressa Jesus de si mesmo quando se comparoucom a videira plantada na terra de Israel.

É preciso deixar-se semear não sóonde a terra já está preparada durante gerações, mas também nas margens darealidade, na dureza das terras sem arar, cheias de pedregulhos e de espinhos.Não podemos fugir da realidade que temos de arar, semear e cultivar com suadureza e com seu encanto.

Texto bíblico:  Mt 13,1-23

Na oração: Uma vida que seenraíza, é uma vida firme, consistente. Por outra parte, as raízes na planta,são as que se introduzem na terra e crescem em sentido contrário do tronco,servindo-se como sustentação. Graças a elas pode absorver o alimento necessáriopara seu crescimento.

– quais são e onde estão asraízes nas quais seu coração se alimenta?

– onde apoia sua vida? quê é oque a sustenta?

Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj

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