{"id":8088,"date":"2018-12-15T08:27:19","date_gmt":"2018-12-15T08:27:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/?p=8088"},"modified":"2018-12-15T10:30:38","modified_gmt":"2018-12-15T10:30:38","slug":"advento-travessia-para-a-solidariedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/advento-travessia-para-a-solidariedade\/","title":{"rendered":"Advento: travessia&#8230; para a solidariedade"},"content":{"rendered":"<div id=\"notCorpo\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cQuem tiver duas t\u00fanicas, d\u00ea uma a quem n\u00e3o tem\u201d<\/em>\u00a0<\/strong>(Lc 3,11)<\/p>\n<p>Em meio \u00e0s sombras, perplexidades, contradi\u00e7\u00f5es, provoca\u00e7\u00f5es e intoler\u00e2ncias, que constituem o atual momento hist\u00f3rico, queremos, neste Advento, dar vez a um brado de esperan\u00e7a e expressar a f\u00e9 no futuro da nossa vida. A esperan\u00e7a tem ra\u00edzes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas; nos despojados gestos ela floresce e aponta para um\u00a0<em>sentido<\/em>\u00a0novo. \u00c9 preciso um cora\u00e7\u00e3o contemplativo para captar o \u201cmist\u00e9rio\u201d que nos envolve.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, como for\u00e7a transformadora da realidade, inclui uma clara tomada de decis\u00f5es de dirigir as energias vitais para ir ao encontro daquilo que \u00e9 imprescind\u00edvel para a vida.<\/p>\n<p>Por isso, em um mundo de muita injusti\u00e7a social, onde milh\u00f5es de pessoas vivem em condi\u00e7\u00f5es de pobreza extrema e submergidos em c\u00edrculos de viol\u00eancia, a esperan\u00e7a se apresenta a n\u00f3s como uma for\u00e7a capaz de despertar nossa consci\u00eancia adormecida e assumir nossa responsabilidade. A esperan\u00e7a \u00e9 sempre inquieta e mobilizadora, \u00e9 impulso que nos faz desejar e buscar uma mudan\u00e7a decisiva que favore\u00e7a instaurar um mundo mais humanizador, abrindo-nos a um \u201cmais al\u00e9m\u201d que j\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Mesmo diante dos profundos dilemas internos e sociais, achamos poss\u00edvel ser e viver de outro modo, inventamos e reinventamos op\u00e7\u00f5es, criamos novas sa\u00eddas&#8230; e, sem cessar, sonhamos com o\u00a0<em>\u201cmais\u201d<\/em>\u00a0e o\u00a0<em>\u201cmelhor\u201d.<\/em><\/p>\n<p><strong>Afinal, somos seres de\u00a0<em>\u201ctravessia\u201d&#8230;<\/em><\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">Essa \u201ctravessia\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas geogr\u00e1fica; trata-se de uma experi\u00eancia que requer a atitude de \u201csa\u00edda de si\u201d para ir ao outro como diferente; e isso implica\u00a0<em>\u201cpassar\u201d<\/em>\u00a0para o seu lugar, aprender a ver o mundo a partir de sua perspectiva, deixar-nos questionar e desinstalar-nos por ele, t\u00e3o despojado da condi\u00e7\u00e3o de pessoa.<\/p>\n<p align=\"left\">Ir ao encontro do outro s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a partir do cultivo da\u00a0<em>sensibilidade,\u00a0<\/em>entendida como o movimento afetivo necess\u00e1rio para olhar e sentir a verdade na realidade de quem sofre. N\u00e3o se trata de \u201cdar coisas\u201d, mas deixar-nos\u00a0<em>\u201cafetar cordialmente\u201d<\/em>pela dor do outro.<\/p>\n<p><strong>Neste 3\u00ba. domingo do Advento, o apelo \u00e0 mudan\u00e7a, na voz de Jo\u00e3o Batista, se torna mais concreto.<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cQu\u00ea devemos fazer\u201d?<\/em>\u00a0Tal pergunta \u00e9 uma prova da sinceridade daqueles que se aproximavam de Jo\u00e3o. Com tr\u00eas pinceladas o Batista enfatiza a necessidade de mudar a maneira de pensar e de agir: \u00e9 preciso abrir-se \u00e0 alteridade at\u00e9 chegar a partilhar com outros, \u00e9 preciso sair do estreito c\u00edrculo do \u201cmeu\u201d para que a escra-vid\u00e3o do possuir abra passagem \u00e0 liberdade de preferir o bem maior da rela\u00e7\u00e3o; ativar a alegria de saber que uma t\u00fanica sobrante abriga agora o corpo de um irm\u00e3o; a economia deve estar a servi\u00e7o da vida e de todas as pessoas; reacender o impulso a ser \u201cpacifistas ativos\u201d, defendendo e protegendo os pobres e indefesos.<\/p>\n<p>Encontramo-nos aqui diante da raz\u00e3o \u00e9tica origin\u00e1ria que n\u00e3o se baseia tanto numa compreens\u00e3o da realidade, mas na compaix\u00e3o com a pessoa do\u00a0<em>\u201coutro\u201d<\/em>, exclu\u00eddo, pobre, dominado, marginalizado&#8230;<\/p>\n<p>Lucas apresenta a mensagem de Jo\u00e3o Batista a partir de uma perspectiva \u00e9tica, que pode e deve aplicar-se a todos os povos. Deixa de lado os aspectos exclusivamente religiosos (confessionais) de sua mensagem e o condensa em um programa \u00e9tico de deveres sociais, que se aplicam primeiramente a todos os homens e mulheres e logo a dois grupos especiais: os publicanos e os soldados.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma mensagem muito simples. N\u00e3o precisa reuni\u00f5es episcopais, nem conselhos de pa\u00edses, nem comiss\u00f5es internacionais. \u00c9 uma mensagem imediata e pr\u00f3xima, de comunh\u00e3o humana, pac\u00edfica, generosa. \u00c9 uma mensagem que cr\u00ea no ser humano. N\u00e3o se trata de \u201cmatar\u201d os publicanos e os soldados, mas de descobrir que tamb\u00e9m eles s\u00e3o humanos, iniciando a grande revolu\u00e7\u00e3o da igualdade e partilha de bens.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a moral natural de Jo\u00e3o Batista. Este \u00e9 para Lucas o ponto de partida para chegar ao evangelho. Jesus vai al\u00e9m (\u00e9 gratuidade). Mas, para chegar a Jesus \u00e9 preciso passar por Jo\u00e3o Batista.<\/p>\n<p>A resposta de Jo\u00e3o Batista n\u00e3o \u00e9 teoria vazia. \u00c9 atrav\u00e9s de gestos e a\u00e7\u00f5es concretas de justi\u00e7a, respeito, solidariedade, partilha e coer\u00eancia crist\u00e3 que se vai construindo um tecido social mais digno de filhos(as) de Deus, realizando as transforma\u00e7\u00f5es radicais e profundas que as pessoa e a sociedade tanto necessitam. Frente a diferentes p\u00fablicos, Jo\u00e3o n\u00e3o faz alus\u00e3o nenhuma \u00e0 religi\u00e3o; o que ele pede a todos \u00e9 melhorar a conviv\u00eancia humana.<\/p>\n<p>O envolvimento com o\u00a0<em>\u201coutro\u201d<\/em>\u00a0nos conduz \u00e0 autenticidade, \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o de apegos e avareza, \u00e0 liberdade para partilhar e receber e a uma imensa felicidade.<\/p>\n<p>A\u00a0<em>\u201csensibilidade solid\u00e1ria\u201d<\/em>\u00a0suscita em n\u00f3s um desejo novo que articula um novo horizonte de sentido \u00e0s nossas vidas e gera um horizonte de utopia e de esperan\u00e7a por um mundo justo e fraterno. A solidariedade \u00e9 a n\u00e3o-viol\u00eancia em a\u00e7\u00e3o; \u00e9 a fonte de todas as qualidades espirituais: a capacidade de perd\u00e3o, a acolhida compassiva, a toler\u00e2ncia e todas as demais virtudes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 a que de fato d\u00e1 sentido \u00e0s nossas atividades cotidianas e as torna construtivas.<\/p>\n<p>A solidariedade permeia e ressignifica, assim, toda a nossa exist\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 um evento, um ato isolado. Ela torna oblativa a vida em suas diferentes express\u00f5es, fermenta o cotidiano de nossas exist\u00eancias, infunde sentido e raz\u00e3o de ser \u00e0quilo que somos e fazemos.<\/p>\n<p>Nas experi\u00eancias de\u00a0<em>\u201cconviv\u00eancia\u201d<\/em>\u00a0com os pobres adquirimos os valores evang\u00e9licos da capacidade de celebrar, da simplicidade, da hospitalidade<em>&#8230;<\/em>\u00a0Eles tem um jeito de nos trazer de volta para o essencial da vida. Eles s\u00e3o uma fonte de esperan\u00e7a, uma fonte de autenticidade. Eles se tornam nossos amigos.<\/p>\n<p>Importa, portanto,\u00a0<em>\u201cre-inventar\u201d<\/em>\u00a0com urg\u00eancia a solidariedade como valor \u00e9tico e como atitude permanente de vida; n\u00e3o uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de inclus\u00e3o do dia-a-dia.<\/p>\n<p>Na cria\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>\u201cnova comunidade\u201d<\/em>\u00a0dos(as) seguidores(as) de Jesus, a\u00a0<em>partilha\u00a0<\/em>substitui a acumula\u00e7\u00e3o e a abertura aos outros se apresenta como alternativa \u00e0s rela\u00e7\u00f5es interpessoais de opress\u00e3o e exclus\u00e3o; aqui est\u00e1 configurada uma das propostas mestras na proclama\u00e7\u00e3o do Reino de Deus.<\/p>\n<p>Com nossos gestos solid\u00e1rios nos mobilizamos e nos aproximamos do Senhor que chega. Neste dia Deus discernir\u00e1 entre o\u00a0<em>trigo<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>palha<\/em>\u00a0que existem em nossa conduta.<\/p>\n<p>Vivemos a cultura da\u00a0<em>\u201cpalha\u201d,<\/em>\u00a0 que nos for\u00e7a permanecer na superficialidade, na apar\u00eancia, na exterioridade da vida, impedindo-nos perceber o trigo presente em nossa interioridade.<\/p>\n<p>Vivemos, muitas vezes, imersos em meio a tanta palha que nos afoga e nos incapacita viver a cultura do encontro solid\u00e1rio. De fato, a cultura da superficialidade, da apar\u00eancia, da vaidade&#8230; s\u00e3o as marcas de nossa sociedade atual; marcas que nos desfiguram e nos desumanizam.<\/p>\n<p>S\u00f3 quem sai de si em dire\u00e7\u00e3o ao outro, atrav\u00e9s de gestos solid\u00e1rios, \u00e9 capaz de peneirar a palha para deixar emergir o trigo de vida que carrega dentro.<\/p>\n<p>Somente a \u201csensibilidade solid\u00e1ria\u201d ser\u00e1 capaz de fazer a pessoa retornar \u00e0 sua casa, ao centro, ao seu eu profundo; s\u00f3 ela ativar\u00e1 os recursos consistentes, os pontos de luz, o trigo que carrega dentro.<\/p>\n<p>O ego n\u00e3o ama ningu\u00e9m al\u00e9m de si mesmo, atendendo apenas \u00e0s suas pr\u00f3prias necessidades e \u00e0 sua pr\u00f3pria gratifica\u00e7\u00e3o. Sofrendo de uma falta total de compaix\u00e3o ou empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros. Ele n\u00e3o se d\u00e1 conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma l\u00f3gica que o desumaniza, esvaziando-se de todo dignidade. Aumenta seus celeiros, mas n\u00e3o sabe ampliar o horizonte de sua vida. Aumenta sua riqueza, mas diminui e empobrece sua vida. Acumula bens, mas n\u00e3o conhece a amizade, o amor generoso, a alegria e a solidariedade. N\u00e3o sabe compartilhar, s\u00f3 monopolizar.<\/p>\n<p>Finalmente, acaba-se por criar uma dura corti\u00e7a que defende e isola a pessoa do entorno e que a aliena numa insensibilidade para com tudo aquilo que n\u00e3o seja sua pr\u00f3pria realidade. \u00c9 uma esp\u00e9cie de &#8220;embriaguez&#8221; na qual a\u00a0<em>alteridade\u00a0<\/em>desaparece.<\/p>\n<p>A verdadeira riqueza \u00e9 investir numa \u00fanica fortuna: a do amor, do favorecimento da vida, a do descentramento de si, o do encontro solid\u00e1rio em favor dos mais pobres e desfavorecidos.<\/p>\n<p><strong>Texto b\u00edblico<\/strong><strong>:\u00a0Lc 3,10-18<\/strong><\/p>\n<p>Na Ora\u00e7\u00e3o: Segundo o Batista, a convers\u00e3o exige \u201csaber peneirar\u201d (saber selecionar ou eleger), \u201crecolher o trigo\u201d (ir ao essencial e n\u00e3o ficar na superf\u00edcie) e \u201cqueimar a palha\u201d (eliminar o que n\u00e3o serve ou o que imobiliza); acolher a Boa Nova da vinda do Senhor requer essa convers\u00e3o.<\/p>\n<ul>\n<li>\u00a0Se sua vida \u201cpassar pela peneira\u201d, o quanto de trigo permanecer\u00e1? O quanto de palha deve ser lan\u00e7ado fora?<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p class=\"assinatura-rodape-noticia\">Por: Pe. Adroaldo Palaoro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuem tiver duas t\u00fanicas, d\u00ea uma a quem n\u00e3o tem\u201d\u00a0(Lc 3,11) Em meio \u00e0s sombras, perplexidades, contradi\u00e7\u00f5es, provoca\u00e7\u00f5es e intoler\u00e2ncias, que constituem o atual momento hist\u00f3rico, queremos, neste Advento, dar vez a um&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8089,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8088"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8088"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8088\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8090,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8088\/revisions\/8090"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8089"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8088"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8088"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8088"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}