{"id":15336,"date":"2021-02-17T13:22:40","date_gmt":"2021-02-17T13:22:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/?p=15336"},"modified":"2021-02-17T13:22:43","modified_gmt":"2021-02-17T13:22:43","slug":"somos-cinzas-mas-capazes-de-interioridade-e-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/somos-cinzas-mas-capazes-de-interioridade-e-dialogo\/","title":{"rendered":"Somos &#8216;cinzas&#8217;, mas capazes de interioridade e di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align:right\"><em>Quando jejuares, perfuma a cabe\u00e7a e lava o rosto&#8230; (Mt 6,17)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Tempo Quaresmal, como toda liturgia, s\u00f3 tem sentido em fun\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa. Por isso, estamos iniciando o grande tempo pascal da Igreja. Quarenta dias de prepara\u00e7\u00e3o para a festa da P\u00e1scoa e, depois, cinquenta dias de celebra\u00e7\u00e3o da Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor e da presen\u00e7a inspiradora de seu Esp\u00edrito. Estamos no tempo forte da comunidade crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Quaresma: tempo lit\u00fargico de reconstru\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s e da comunidade; tempo que nos motiva a colocar em quest\u00e3o a raz\u00e3o de ser da vida: Para que vivemos? Sobre qu\u00ea est\u00e1 fundamentada a nossa vida? Para onde caminhamos?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido dizemos que quaresma \u00e9 um tempo intenso de convers\u00e3o. Para isso ela tem sua linguagem, sua celebra\u00e7\u00e3o, seus exerc\u00edcios e seus ritos de convers\u00e3o&#8230; Mas a convers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples mudan\u00e7a exterior no modo de ser e agir, e sim, &#8220;mudan\u00e7a de senhor&#8221;. Quaresma \u00e9 tempo forte para consultar o interior e verificar qual \u00e9 o &#8220;senhor&#8221; que move o nosso cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 neste contexto de convers\u00e3o que se situam as pr\u00e1ticas quaresmais: ora\u00e7\u00e3o, jejum e esmola. Atrav\u00e9s de uma viv\u00eancia mais radical dessas pr\u00e1ticas come\u00e7a a acontecer um deslocamento dos &#8220;falsos senhores&#8221; que habitam o nosso cora\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, amplia-se o espa\u00e7o interior para a presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o do &#8220;verdadeiro Senhor&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ser um tempo especial para alimentar nossos la\u00e7os comunit\u00e1rios, a Igreja no Brasil nos apresenta, durante a Quaresma, a Campanha da Fraternidade, destacando algum aspecto da caminhada crist\u00e3 que merece ser aprofundada, refletida, rezada, desembocando num compromisso que deve estar sempre em sintonia com o Evangelho. Este \u00e9 o tema da Campanha da Fraternidade para 2021: &#8220;Fraternidade e di\u00e1logo: compromisso de amor&#8221;, cuja lema \u00e9:&nbsp;<em>Cristo \u00e9 a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade<\/em>&nbsp;(Ef 2,14).<\/p>\n\n\n\n<p>O isolamento sanit\u00e1rio, pelo qual estamos passando, p\u00f5e \u00e0s claras esta dura realidade: j\u00e1 levamos anos praticando o distanciamento social e pol\u00edtico, a polariza\u00e7\u00e3o religiosa, o enfrentamento de extremos, a separa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, a dist\u00e2ncia como meio para nos fechar em nossas posi\u00e7\u00f5es fan\u00e1ticas, preconceituosas e intolerantes, o esvaziamento do di\u00e1logo&#8230; Uma voz surda sempre esteve presente: devemos nos separar dos outros, daqueles que pensam diferente, sentem diferente, vivem diferente, assumem posi\u00e7\u00f5es e op\u00e7\u00f5es diferentes&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum tipo de diferen\u00e7a (cultura, g\u00eanero, religi\u00e3o, ra\u00e7a, classe social&#8230;) deveria romper o fluxo do respeito e di\u00e1logo entre os seres humanos, dando lugar a atitudes de viol\u00eancia ou \u00f3dio no conv\u00edvio humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando analisamos elementos que nos unem, vemos que todos temos origem e destino iguais: habitamos a mesma casa comum, somos formados da mesma mat\u00e9ria (argila) e em todos n\u00f3s sopra o mesmo Esp\u00edrito. J\u00e1 seriam elementos mais que suficientes para reconhecer que h\u00e1 v\u00ednculos que nos unem, que podemos ser irm\u00e3os e que devemos nos deixar conduzir pelas rela\u00e7\u00f5es fraterno-igualit\u00e1rias, pela aceita\u00e7\u00e3o m\u00fatua da alteridade diferente, sem jamais esquecer do totalmente Outro, de cuja fonte tudo tem sua origem.<\/p>\n\n\n\n<p>As cinzas que s\u00e3o colocadas sobre nossas cabe\u00e7as deveriam despertar em n\u00f3s a consci\u00eancia que todos procedemos do p\u00f3; s\u00e3o as cinzas que nos unificam e quebram toda pretens\u00e3o de poder, de vaidade, de querer se colocar acima dos outros&#8230; O que a cultura do \u00f3dio e da indiferen\u00e7a separa, as cinzas fazem a liga e reatam os v\u00ednculos&#8230; \u00c9 com o barro das cinzas que somos reconstru\u00eddos como seres humanos, quebrados pela viol\u00eancia, preconceitos e \u00f3dios&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, as conhecidas pr\u00e1ticas quaresmais \u2013 jejum, ora\u00e7\u00e3o e esmola \u2013 visam reconstruir nossa comunh\u00e3o rompida, para que o di\u00e1logo amoroso volte a circular em nossos espa\u00e7os humanos. Di\u00e1logos que se expandem em m\u00faltiplas dire\u00e7\u00f5es: consigo mesmo, com Deus, com os outros e com a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>A viv\u00eancia quaresmal revela-se, portanto, como um processo dialogal, e isso acontece, em primeiro lugar, no mais profundo de cada um de n\u00f3s, lugar do &#8220;col\u00f3quio&#8221; \u00edntimo com Aquele que faz do cora\u00e7\u00e3o humano sua morada.<\/p>\n\n\n\n<p>De sua \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com o Criador, de um &#8220;sentir-se amado de cora\u00e7\u00e3o e um saber amar com o cora\u00e7\u00e3o&#8221;, o ser humano \u00e9 movido a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o fecunda com tudo e com todos:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Na rela\u00e7\u00e3o consigo, o ser humano \u00e9 constitu\u00eddo pela abertura em si mesmo e para si, capacitado para a interioriza\u00e7\u00e3o ou iman\u00eancia, para ter consci\u00eancia de si mesmo, para dialogar consigo mesmo, para ser aut\u00f4nomo e respons\u00e1vel em suas decis\u00f5es, para ser sujeito da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 comum prestar aten\u00e7\u00e3o ao que acontece no territ\u00f3rio interior. Corre-se grandes riscos de se viver em horizontes muito estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade, atrofia a capacidade de di\u00e1logo e d\u00e1 margem \u00e0 indiferen\u00e7a, \u00e0 insensibilidade social, \u00e0 falta de compromisso com as mudan\u00e7as que se fazem urgentes. O pr\u00f3prio territ\u00f3rio interior se torna uma coura\u00e7a e o sentido do servi\u00e7o some do horizonte inspirador.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O ser humano \u00e9 chamado a se relacionar com os outros, sem se confundir. Ele \u00e9 ser de reciprocidade e complementariedade, que reconhece a pr\u00f3pria singularidade, bem como a singularidade das demais pessoas. Reconhece-se a si mesmo e reconhece o outro na sua distin\u00e7\u00e3o, coloca-se numa atitude de rela\u00e7\u00e3o dialogal. \u00c9 o ser humano solid\u00e1rio que caminha lado a lado com a caravana humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, ganha sentido, a express\u00e3o b\u00edblica &#8220;esmola&#8221; (<em>elemosyne<\/em>) que sempre est\u00e1 ligada \u00e0 compaix\u00e3o e piedade. A esmola mant\u00e9m indissoluvelmente unidos o sentimento de compaix\u00e3o e ternura com a solidariedade efetiva; significa ser sens\u00edvel \u00e0s necessidades dos outros que, em uns casos, ser\u00e1 econ\u00f4mica, em outras, psicol\u00f3gica, em muitos, afetiva&#8230; A esmola \u00e9 miseric\u00f3rdia em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Na rela\u00e7\u00e3o com o mundo criado, numa perspectiva global e unit\u00e1ria, o ser humano, frente a todas as criaturas e ao universo, coloca-se n\u00e3o como dominador-depredador utilit\u00e1rio, mas como respons\u00e1vel e colaborador no aprimoramento e\/ou na transforma\u00e7\u00e3o, sem viol\u00eancia interesseira, e numa atitude de respeito e rever\u00eancia para com o universo, dom de Deus. Descobrimos aqui o verdadeiro sentido do jejum.<\/p>\n\n\n\n<p>O jejum nos humaniza, nos faz descer do pedestal e nos torna mais sens\u00edveis e solid\u00e1rios; fazer jejum s\u00f3 tem sentido quando brota da sensibilidade que nos faz sair de n\u00f3s mesmos para viver a partilha, a comunh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jejuar pode tamb\u00e9m ser um convite a ordenar a mente, a pacificar o cora\u00e7\u00e3o, a serenar os olhos, a guardar a l\u00edngua&#8230; Purificar a tend\u00eancia ao imediatismo, ao falso moralismo, puritanismo e perfeccionismo. Implica tamb\u00e9m n\u00e3o se deixar levar pela tenta\u00e7\u00e3o de falar mal dos outros, destruir reputa\u00e7\u00f5es e ser veiculador de \u00f3dios e fake news.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Por fim, segundo uma vis\u00e3o b\u00edblico-crist\u00e3, para o ser humano, Deus \u00e9 o grande Outro que o fundamenta e o constitui e com ele estabelece uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica. Reconhece procedente d&#8217;Ele e a Ele se sente chamado e capacitado a uma experi\u00eancia de intimidade e comunh\u00e3o amorosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui se revela o verdadeiro sentido da ora\u00e7\u00e3o. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma m\u00e3o estendida para o divino; n\u00e3o \u00e9 dobrar a vontade de Deus a nosso favor; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 colocar-nos em sintonia com Ele, para entendermos o que \u00e9 melhor para nosso verdadeiro bem. \u00c9 deixar Deus ser Deus, ou seja, deixar que Ele revele sua paternidade\/maternidade para com cada um de n\u00f3s, na sua provid\u00eancia e cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p>A melhor a ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aquela que nos enche de palavras; n\u00e3o dever\u00edamos preencher a ora\u00e7\u00e3o de palavra &#8220;nossa&#8221;, mas de escuta da Palavra de Outro. Na ora\u00e7\u00e3o, como em toda rela\u00e7\u00e3o humana, precisamos alimentar uma atitude de escuta que busca &#8220;entrar em sintonia&#8221;, ser consciente, estabelecer e consolidar rela\u00e7\u00e3o, caminhar para a verdade, construir pontes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Texto b\u00edblico:<\/strong>&nbsp;Mt 6,1-6.16-18<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na ora\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;O di\u00e1logo \u00e9 uma experi\u00eancia profundamente humana de proximidade, acolhida, respeito para com quem pensa, sente e ama de maneira diferente; o di\u00e1logo amoroso desperta os sentimentos mais nobres de compaix\u00e3o, mansid\u00e3o, humildade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Viver a Quaresma \u00e9 ser presen\u00e7a de reconcilia\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es onde o di\u00e1logo foi quebrado pelo \u00f3dio, intoler\u00e2ncia, viol\u00eancia, fanatismo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Despertar o impulso para ser presen\u00e7a inspiradora e reconstrutora de di\u00e1logo, frente a um mundo fragmentado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Pe. Adroaldo Palaoro, sj<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando jejuares, perfuma a cabe\u00e7a e lava o rosto&#8230; (Mt 6,17) O Tempo Quaresmal, como toda liturgia, s\u00f3 tem sentido em fun\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa. 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