{"id":1407,"date":"2015-12-31T00:00:00","date_gmt":"2015-12-31T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz-1-de-janeiro-de-2016\/"},"modified":"2015-12-31T00:00:00","modified_gmt":"2015-12-31T00:00:00","slug":"mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz-1-de-janeiro-de-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz-1-de-janeiro-de-2016\/","title":{"rendered":"Mensagem do Papa Francisco para o dia Mundial da Paz &#8211; 1\u00b0 de janeiro de 2016"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na mensagem para o Dia Mundial da Paz 2016, &nbsp;que tem como tema &ldquo;Vence a indiferen&ccedil;a e conquista a paz&rdquo;, o papa Francisco convida a promover uma cultura de solidariedade e miseric&oacute;rdia para vencer a indiferen&ccedil;a que amea&ccedil;a a paz.&nbsp;Fala do desejo e do empenho da humanidade para conquistar a paz. Para 2016, o Papa pede que seja mantida essa esperan&ccedil;a, mesmo que 2015 tenha sido um ano marcado por guerras e conflitos terroristas, com graves consequ&ecirc;ncias para a popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mensagem do Papa &eacute; dividida em sete partes: &ldquo;proteger as raz&otilde;es da esperan&ccedil;a&rdquo;, &ldquo;algumas formas de indiferen&ccedil;a&rdquo;, &ldquo;a paz amea&ccedil;ada pela indiferen&ccedil;a globalizada&rdquo;, &ldquo;da indiferen&ccedil;a &agrave; miseric&oacute;rdia: a convers&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &ldquo;promover uma cultura de solidariedade e miseric&oacute;rdia para vencer a indiferen&ccedil;a&rdquo;, &ldquo;a paz: fruto de uma cultura de solidariedade, miseric&oacute;rdia e compaix&atilde;o&rdquo; e, por fim, &ldquo;a paz no sinal do Jubileu da Miseric&oacute;rdia&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E faz um apelo para a realiza&ccedil;&atilde;o de projetos de solidariedade: &#8220;Quero, enfim, mencionar os jovens que se unem para realizar projetos de solidariedade, e todos aqueles que abrem as suas m&atilde;os para ajudar o pr&oacute;ximo necessitado nas suas cidades, no seu pa&iacute;s ou noutras regi&otilde;es do mundo. Quero agradecer e encorajar todos aqueles que est&atilde;o empenhados em ac&ccedil;&otilde;es deste g&eacute;nero, mesmo sem gozar de publicidade: a sua fome e sede de justi&ccedil;a ser&atilde;o saciadas, a sua miseric&oacute;rdia far-lhes-&aacute; encontrar miseric&oacute;rdia e, como obreiros da paz, ser&atilde;o chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 6-9).&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Confira:<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/img.cancaonova.com\/cnimages\/especiais\/uploads\/sites\/2\/2013\/03\/bras%C3%A3o-papa_-modifica%C3%A7%C3%B5es1.jpg\" alt=\"\" width=\"121\" height=\"154\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Mensagem do Papa Francisco para o 49&ordm; Dia Mundial da Paz &ndash; 1&ordm; de janeiro de 2016<\/strong><\/p>\n<p><em>Boletim da Santa S&eacute;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VENCE A INDIFEREN&Ccedil;A E CONQUISTA A PAZ<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Deus n&atilde;o &eacute; indiferente; importa-Lhe a humanidade! Deus n&atilde;o a abandona! Com esta minha profunda convic&ccedil;&atilde;o, quero, no in&iacute;cio do novo ano, formular votos de paz e b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os abundantes, sob o signo da esperan&ccedil;a, para o futuro de cada homem e mulher, de cada fam&iacute;lia, povo e na&ccedil;&atilde;o do mundo, e tamb&eacute;m dos chefes de Estado e de governo e dos respons&aacute;veis das religi&otilde;es. Com efeito, n&atilde;o perdemos a esperan&ccedil;a de que o ano de 2016 nos veja a todos firme e confiadamente empenhados, nos diferentes n&iacute;veis, a realizar a justi&ccedil;a e a trabalhar pela paz. Na verdade, esta &eacute; dom de Deus e trabalho dos homens; a paz &eacute; dom de Deus, mas confiado a todos os homens e a todas as mulheres, que s&atilde;o chamados a realiz&aacute;-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conservar as raz&otilde;es da esperan&ccedil;a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Embora o ano passado tenha sido caracterizado, do princ&iacute;pio ao fim, por guerras e actos terroristas, com as suas tr&aacute;gicas consequ&ecirc;ncias de sequestros de pessoas, persegui&ccedil;&otilde;es por motivos &eacute;tnicos ou religiosos, prevarica&ccedil;&otilde;es, multiplicando-se cruelmente em muitas regi&otilde;es do mundo, a ponto de assumir os contornos daquela que se poderia chamar uma &laquo;terceira guerra mundial por peda&ccedil;os&raquo;, todavia alguns acontecimentos dos &uacute;ltimos anos e tamb&eacute;m do ano passado incitam-me, com o novo ano em vista, a renovar a exorta&ccedil;&atilde;o a n&atilde;o perder a esperan&ccedil;a na capacidade que o homem tem, com a gra&ccedil;a de Deus, de superar o mal, n&atilde;o se rendendo &agrave; resigna&ccedil;&atilde;o nem &agrave; indiferen&ccedil;a. Tais acontecimentos representam a capacidade de a humanidade agir solidariamente, perante as situa&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas, superando os interesses individualistas, a apatia e a indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre tais acontecimentos, quero recordar o esfor&ccedil;o feito para favorecer o encontro dos l&iacute;deres mundiais, no &acirc;mbito da Cop21, a fim de se procurar novos caminhos para enfrentar as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas e salvaguardar o bem-estar da terra, a nossa casa comum. E isto remete para mais dois acontecimentos anteriores de n&iacute;vel mundial: a Cimeira de Adis-Abeba para arrecada&ccedil;&atilde;o de fundos destinados ao desenvolvimento sustent&aacute;vel do mundo; e a adop&ccedil;&atilde;o, por parte das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustent&aacute;vel, que visa assegurar, at&eacute; ao referido ano, uma exist&ecirc;ncia mais digna para todos, sobretudo para as popula&ccedil;&otilde;es pobres da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano de 2015 foi um ano especial para a Igreja, nomeadamente porque registou o cinquenten&aacute;rio da publica&ccedil;&atilde;o de dois documentos do Conc&iacute;lio Vaticano II que exprimem, de forma muito eloquente, o sentido de solidariedade da Igreja com o mundo. O Papa Jo&atilde;o XXIII, no in&iacute;cio do Conc&iacute;lio, quis escancarar as janelas da Igreja, para que houvesse, entre ela e o mundo, uma comunica&ccedil;&atilde;o mais aberta. Os dois documentos &ndash; Nostra aetate e Gaudium et spes &ndash; s&atilde;o express&otilde;es emblem&aacute;ticas da nova rela&ccedil;&atilde;o de di&aacute;logo, solidariedade e conviv&ecirc;ncia que a Igreja pretendia introduzir no interior da humanidade. Na Declara&ccedil;&atilde;o Nostra aetate, a Igreja foi chamada a abrir-se ao di&aacute;logo com as express&otilde;es religiosas n&atilde;o-crist&atilde;s. Na Constitui&ccedil;&atilde;o pastoral Gaudium et spes &ndash; dado que &laquo;as alegrias e as esperan&ccedil;as, as tristezas e as ang&uacute;stias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, s&atilde;o tamb&eacute;m as alegrias e as esperan&ccedil;as, as tristezas e as ang&uacute;stias dos disc&iacute;pulos de Cristo&raquo;[1] &ndash;, a Igreja desejava estabelecer um di&aacute;logo com a fam&iacute;lia humana sobre os problemas do mundo, como sinal de solidariedade, respeito e amor.[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta mesma perspectiva, com o Jubileu da Miseric&oacute;rdia, quero convidar a Igreja a rezar e trabalhar para que cada crist&atilde;o possa maturar um cora&ccedil;&atilde;o humilde e compassivo, capaz de anunciar e testemunhar a miseric&oacute;rdia, de &laquo;perdoar e dar&raquo;, de abrir-se &laquo;&agrave;queles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contempor&acirc;neo cria de forma dram&aacute;tica&raquo;, sem cair &laquo;na indiferen&ccedil;a que humilha, na habitua&ccedil;&atilde;o que anestesia o esp&iacute;rito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destr&oacute;i&raquo;.[3]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Variadas s&atilde;o as raz&otilde;es para crer na capacidade que a humanidade tem de agir, conjunta e solidariamente, reconhecendo a pr&oacute;pria interliga&ccedil;&atilde;o e interdepend&ecirc;ncia e tendo a peito os membros mais fr&aacute;geis e a salvaguarda do bem comum. Esta atitude de solid&aacute;ria corresponsabilidade est&aacute; na raiz da voca&ccedil;&atilde;o fundamental &agrave; fraternidade e &agrave; vida comum. A dignidade e as rela&ccedil;&otilde;es interpessoais constituem-nos como seres humanos, queridos por Deus &agrave; sua imagem e semelhan&ccedil;a. Como criaturas dotadas de inalien&aacute;vel dignidade, existimos relacionando-nos com os nossos irm&atilde;os e irm&atilde;s, pelos quais somos respons&aacute;veis e com os quais agimos solidariamente. Fora desta rela&ccedil;&atilde;o, passar&iacute;amos a ser menos humanos. &Eacute; por isso mesmo que a indiferen&ccedil;a constitui uma amea&ccedil;a para a fam&iacute;lia humana. No limiar dum novo ano, quero convidar a todos para que reconhe&ccedil;am este facto a fim de se vencer a indiferen&ccedil;a e conquistar a paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Algumas formas de indiferen&ccedil;a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que o comportamento do indiv&iacute;duo indiferente, de quem fecha o cora&ccedil;&atilde;o desinteressando-se dos outros, de quem fecha os olhos para n&atilde;o ver o que sucede ao seu redor ou se esquiva para n&atilde;o ser abalroado pelos problemas alheios, caracteriza uma tipologia humana bastante difundida e presente em cada &eacute;poca da hist&oacute;ria; mas, hoje em dia, superou decididamente o &acirc;mbito individual para assumir uma dimens&atilde;o global, gerando o fen&oacute;meno da &laquo;globaliza&ccedil;&atilde;o da indiferen&ccedil;a&raquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira forma de indiferen&ccedil;a na sociedade humana &eacute; a indiferen&ccedil;a para com Deus, da qual deriva tamb&eacute;m a indiferen&ccedil;a para com o pr&oacute;ximo e a cria&ccedil;&atilde;o. Trata-se de um dos graves efeitos dum falso humanismo e do materialismo pr&aacute;tico, combinados com um pensamento relativista e niilista. O homem pensa que &eacute; o autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade; sente-se auto-suficiente e visa n&atilde;o s&oacute; ocupar o lugar de Deus, mas prescindir completamente d&rsquo;Ele; consequentemente, pensa que n&atilde;o deve nada a ningu&eacute;m, excepto a si mesmo, e pretende ter apenas direitos.[4] Contra esta err&oacute;nea compreens&atilde;o que a pessoa tem de si mesma, Bento XVI recordava que nem o homem nem o seu desenvolvimento s&atilde;o capazes, por si mesmos, de se atribuir o pr&oacute;prio significado &uacute;ltimo;[5] e, antes dele, Paulo VI afirmara que &laquo;n&atilde;o h&aacute; verdadeiro humanismo sen&atilde;o o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma voca&ccedil;&atilde;o que exprime a ideia exacta do que &eacute; a vida humana&raquo;.[6]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A indiferen&ccedil;a para com o pr&oacute;ximo assume diferentes fisionomias. H&aacute; quem esteja bem informado, ou&ccedil;a o r&aacute;dio, leia os jornais ou veja programas de televis&atilde;o, mas f&aacute;-lo de maneira entorpecida, quase numa condi&ccedil;&atilde;o de rendi&ccedil;&atilde;o: estas pessoas conhecem vagamente os dramas que afligem a humanidade, mas n&atilde;o se sentem envolvidas, n&atilde;o vivem a compaix&atilde;o. Este &eacute; o comportamento de quem sabe, mas mant&eacute;m o olhar, o pensamento e a ac&ccedil;&atilde;o voltados para si mesmo. Infelizmente, temos de constatar que o aumento das informa&ccedil;&otilde;es, pr&oacute;prio do nosso tempo, n&atilde;o significa, de por si, aumento de aten&ccedil;&atilde;o aos problemas, se n&atilde;o for acompanhado por uma abertura das consci&ecirc;ncias em sentido solid&aacute;rio.[7] Antes, pode gerar uma certa satura&ccedil;&atilde;o que anestesia e, em certa medida, relativiza a gravidade dos problemas. &laquo;Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos pr&oacute;prios males, os pobres e os pa&iacute;ses pobres, com generaliza&ccedil;&otilde;es indevidas, e pretendem encontrar a solu&ccedil;&atilde;o numa &ldquo;educa&ccedil;&atilde;o&rdquo; que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os exclu&iacute;dos v&ecirc;em crescer este c&acirc;ncer social que &eacute; a corrup&ccedil;&atilde;o profundamente radicada em muitos pa&iacute;ses &ndash; nos seus governos, empres&aacute;rios e institui&ccedil;&otilde;es &ndash; seja qual for a ideologia pol&iacute;tica dos governantes&raquo;.[8]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noutros casos, a indiferen&ccedil;a manifesta-se como falta de aten&ccedil;&atilde;o &agrave; realidade circundante, especialmente a mais distante. Algumas pessoas preferem n&atilde;o indagar, n&atilde;o se informar e vivem o seu bem-estar e o seu conforto, surdas ao grito de ang&uacute;stia da humanidade sofredora. Quase sem nos dar conta, torn&aacute;mo-nos incapazes de sentir compaix&atilde;o pelos outros, pelos seus dramas; n&atilde;o nos interessa ocupar-nos deles, como se aquilo que lhes sucede fosse responsabilidade alheia, que n&atilde;o nos compete.[9] &laquo;Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), n&atilde;o nos interessam os seus problemas, nem as tribula&ccedil;&otilde;es e injusti&ccedil;as que sofrem; e, assim, o nosso cora&ccedil;&atilde;o cai na indiferen&ccedil;a: encontrando-me relativamente bem e confort&aacute;vel, esque&ccedil;o-me dos que n&atilde;o est&atilde;o bem&raquo;.[10]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivendo n&oacute;s numa casa comum, n&atilde;o podemos deixar de nos interrogar sobre o seu estado de sa&uacute;de, como procurei fazer na Carta enc&iacute;clica Laudato si&rsquo;. A polui&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas e do ar, a explora&ccedil;&atilde;o indiscriminada das florestas, a destrui&ccedil;&atilde;o do meio ambiente s&atilde;o, muitas vezes, resultado da indiferen&ccedil;a do homem pelos outros, porque tudo est&aacute; relacionado. E de igual modo o comportamento do homem com os animais influi sobre as suas rela&ccedil;&otilde;es com os outros,[11] para n&atilde;o falar de quem se permite fazer noutros lugares aquilo que n&atilde;o ousa fazer em sua casa.[12]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes e noutros casos, a indiferen&ccedil;a provoca sobretudo fechamento e desinteresse, acabando assim por contribuir para a falta de paz com Deus, com o pr&oacute;ximo e com a cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A paz amea&ccedil;ada pela indiferen&ccedil;a globalizada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. A indiferen&ccedil;a para com Deus supera a esfera &iacute;ntima e espiritual da pessoa individual e investe a esfera p&uacute;blica e social. Como afirmava Bento XVI, &laquo;h&aacute; uma liga&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima entre a glorifica&ccedil;&atilde;o de Deus e a paz dos homens na terra&raquo;.[13] Com efeito, &laquo;sem uma abertura ao transcendente, o homem cai como presa f&aacute;cil do relativismo e, consequentemente, torna-se-lhe dif&iacute;cil agir de acordo com a justi&ccedil;a e comprometer-se pela paz&raquo;.[14] O esquecimento e a nega&ccedil;&atilde;o de Deus, que induzem o homem a n&atilde;o reconhecer qualquer norma acima de si pr&oacute;prio e a tomar como norma apenas a si mesmo, produziram crueldade e viol&ecirc;ncia sem medida.[15]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A n&iacute;vel individual e comunit&aacute;rio, a indiferen&ccedil;a para com o pr&oacute;ximo &ndash; filha da indiferen&ccedil;a para com Deus &ndash; assume as fei&ccedil;&otilde;es da in&eacute;rcia e da apatia, que alimentam a persist&ecirc;ncia de situa&ccedil;&otilde;es de injusti&ccedil;a e grave desequil&iacute;brio social, as quais podem, por sua vez, levar a conflitos ou de qualquer modo gerar um clima de descontentamento que amea&ccedil;a desembocar, mais cedo ou mais tarde, em viol&ecirc;ncias e inseguran&ccedil;a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, a indiferen&ccedil;a e consequente desinteresse constituem uma grave falta ao dever que cada pessoa tem de contribuir &ndash; na medida das suas capacidades e da fun&ccedil;&atilde;o que desempenha na sociedade &ndash; para o bem comum, especialmente para a paz, que &eacute; um dos bens mais preciosos da humanidade.[16]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, quando investe o n&iacute;vel institucional, a indiferen&ccedil;a pelo outro, pela sua dignidade, pelos seus direitos fundamentais e pela sua liberdade, de bra&ccedil;o dado com uma cultura orientada para o lucro e o hedonismo, favorece e &agrave;s vezes justifica ac&ccedil;&otilde;es e pol&iacute;ticas que acabam por constituir amea&ccedil;as &agrave; paz. Este comportamento de indiferen&ccedil;a pode chegar inclusivamente a justificar algumas pol&iacute;ticas econ&oacute;micas deplor&aacute;veis, precursoras de injusti&ccedil;as, divis&otilde;es e viol&ecirc;ncias, que visam a consecu&ccedil;&atilde;o do bem-estar pr&oacute;prio ou o da na&ccedil;&atilde;o. Com efeito, n&atilde;o &eacute; raro que os projectos econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos dos homens tenham por finalidade a conquista ou a manuten&ccedil;&atilde;o do poder e das riquezas, mesmo &agrave; custa de espezinhar os direitos e as exig&ecirc;ncias fundamentais dos outros. Quando as popula&ccedil;&otilde;es v&ecirc;em negados os seus direitos elementares, como o alimento, a &aacute;gua, os cuidados de sa&uacute;de ou o trabalho, sentem-se tentadas a obt&ecirc;-los pela for&ccedil;a.[17]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, a indiferen&ccedil;a pelo ambiente natural, favorecendo o desflorestamento, a polui&ccedil;&atilde;o e as cat&aacute;strofes naturais que desenra&iacute;zam comunidades inteiras do seu ambiente de vida, constrangendo-as &agrave; precariedade e &agrave; inseguran&ccedil;a, cria novas pobrezas, novas situa&ccedil;&otilde;es de injusti&ccedil;a com consequ&ecirc;ncias muitas vezes desastrosas em termos de seguran&ccedil;a e paz social. Quantas guerras foram movidas e quantas ainda ser&atilde;o travadas por causa da falta de recursos ou para responder &agrave; demanda insaci&aacute;vel de recursos naturais?[18]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da indiferen&ccedil;a &agrave; miseric&oacute;rdia: a convers&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. Quando, h&aacute; um ano &ndash; na Mensagem para o Dia Mundial da Paz intitulada &laquo;j&aacute; n&atilde;o escravos, mas irm&atilde;os&raquo; &ndash;, evoquei o primeiro &iacute;cone b&iacute;blico da fraternidade humana, o &iacute;cone de Caim e Abel (cf. Gn 4, 1-16), fi-lo para evidenciar o modo como foi tra&iacute;da esta primeira fraternidade. Caim e Abel s&atilde;o irm&atilde;os. Prov&ecirc;m ambos do mesmo ventre, s&atilde;o iguais em dignidade e criados &agrave; imagem e semelhan&ccedil;a de Deus; mas a sua fraternidade de criaturas quebra-se. &laquo;Caim n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o suporta o seu irm&atilde;o Abel, mas mata-o por inveja&raquo;.[19] E assim o fratric&iacute;dio torna-se a forma de trai&ccedil;&atilde;o, sendo a rejei&ccedil;&atilde;o, por parte de Caim, da fraternidade de Abel a primeira ruptura nas rela&ccedil;&otilde;es familiares de fraternidade, solidariedade e respeito m&uacute;tuo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent&atilde;o Deus interv&eacute;m para chamar o homem &agrave; responsabilidade para com o seu semelhante, precisamente como fizera quando Ad&atilde;o e Eva, os primeiros pais, quebraram a comunh&atilde;o com o Criador. &laquo;O Senhor disse a Caim: &ldquo;Onde est&aacute; o teu irm&atilde;o Abel?&rdquo; Caim respondeu: &ldquo;N&atilde;o sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irm&atilde;o?&rdquo; O Senhor replicou: &ldquo;Que fizeste? A voz do sangue do teu irm&atilde;o clama da terra at&eacute; Mim&rdquo;&raquo; (Gn 4, 9-10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caim diz que n&atilde;o sabe o que aconteceu ao seu irm&atilde;o, diz que n&atilde;o &eacute; o seu guardi&atilde;o. N&atilde;o se sente respons&aacute;vel pela sua vida, pelo seu destino. N&atilde;o se sente envolvido. &Eacute;-lhe indiferente o seu irm&atilde;o, apesar de ambos estarem ligados pela origem comum. Que tristeza! Que drama fraterno, familiar, humano! Esta &eacute; a primeira manifesta&ccedil;&atilde;o da indiferen&ccedil;a entre irm&atilde;os. Deus, ao contr&aacute;rio, n&atilde;o &eacute; indiferente: o sangue de Abel tem grande valor aos seus olhos e pede contas dele a Caim. Assim, Deus revela-Se, desde o in&iacute;cio da humanidade, como Aquele que se interessa pelo destino do homem. Quando, mais tarde, os filhos de Israel se encontram na escravid&atilde;o do Egipto, Deus interv&eacute;m de novo. Diz a Mois&eacute;s: &laquo;Eu bem vi a opress&atilde;o do meu povo que est&aacute; no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conhe&ccedil;o, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da m&atilde;o dos eg&iacute;pcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espa&ccedil;osa, para uma terra que mana leite e mel&raquo; (Ex 3, 7-8). &Eacute; importante notar os verbos que descrevem a interven&ccedil;&atilde;o de Deus: Ele observa, ouve, conhece, desce, liberta. Deus n&atilde;o &eacute; indiferente. Est&aacute; atento e age.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De igual modo, no seu Filho Jesus, Deus desceu ao meio dos homens, encarnou e mostrou-Se solid&aacute;rio com a humanidade em tudo, excepto no pecado. Jesus identificava-Se com a humanidade: &laquo;o primog&eacute;nito de muitos irm&atilde;os&raquo; (Rm 8, 29). N&atilde;o se contentava em ensinar &agrave;s multid&otilde;es, mas preocupava-Se com elas, especialmente quando as via famintas (cf. Mc 6, 34-44) ou sem trabalho (cf. Mt 20, 3). O seu olhar n&atilde;o Se fixava apenas nos seres humanos, mas tamb&eacute;m nos peixes do mar, nas aves do c&eacute;u, na erva e nas &aacute;rvores, pequenas e grandes; abra&ccedil;ava a cria&ccedil;&atilde;o inteira. Ele v&ecirc; sem d&uacute;vida, mas n&atilde;o Se limita a isso, pois toca as pessoas, fala com elas, age em seu favor e faz bem a quem precisa. Mais ainda, deixa-Se comover e chora (cf. Jo 11, 33-44). E age para acabar com o sofrimento, a tristeza, a mis&eacute;ria e a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus ensina-nos a ser misericordiosos como o Pai (cf. Lc 6, 36). Na par&aacute;bola do bom samaritano (cf. Lc 10, 29-37), denuncia a omiss&atilde;o de ajuda numa necessidade urgente dos seus semelhantes: &laquo;ao v&ecirc;-lo, passou adiante&raquo; (Lc 10, 32). Ao mesmo tempo, com este exemplo, convida os seus ouvintes, e particularmente os seus disc&iacute;pulos, a aprenderem a parar junto dos sofrimentos deste mundo para os aliviar, junto das feridas dos outros para as tratar com os recursos de que disponham, a come&ccedil;ar pelo pr&oacute;prio tempo apesar das muitas ocupa&ccedil;&otilde;es. Na realidade, muitas vezes a indiferen&ccedil;a procura pretextos: na observ&acirc;ncia dos preceitos rituais, na quantidade de coisas que &eacute; preciso fazer, nos antagonismos que nos mant&ecirc;m longe uns dos outros, nos preconceitos de todo o g&eacute;nero que impedem de nos fazermos pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A miseric&oacute;rdia &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o de Deus. Por isso deve ser tamb&eacute;m o cora&ccedil;&atilde;o de todos aqueles que se reconhecem membros da &uacute;nica grande fam&iacute;lia dos seus filhos; um cora&ccedil;&atilde;o que bate forte onde quer que esteja em jogo a dignidade humana, reflexo do rosto de Deus nas suas criaturas. Jesus adverte-nos: o amor aos outros &ndash; estrangeiros, doentes, encarcerados, pessoas sem-abrigo, at&eacute; inimigos &ndash; &eacute; a unidade de medida de Deus para julgar as nossas ac&ccedil;&otilde;es. Disso depende o nosso destino eterno. N&atilde;o &eacute; de admirar que o ap&oacute;stolo Paulo convide os crist&atilde;os de Roma a alegrar-se com os que se alegram e a chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), ou recomende aos de Corinto que organizem colectas em sinal de solidariedade com os membros sofredores da Igreja (cf. 1 Cor 16, 2-3). E S&atilde;o Jo&atilde;o escreve: &laquo;Se algu&eacute;m possuir bens deste mundo e, vendo o seu irm&atilde;o com necessidade, lhe fechar o seu cora&ccedil;&atilde;o, como &eacute; que o amor de Deus pode permanecer nele?&raquo; (1 Jo 3, 17; cf. Tg 2, 15-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&Eacute; por isso que &laquo;&eacute; determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu an&uacute;ncio que viva e testemunhe, ela mesma, a miseric&oacute;rdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no cora&ccedil;&atilde;o das pessoas e desafi&aacute;-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar miseric&oacute;rdia. A primeira verdade da Igreja &eacute; o amor de Cristo. E, deste amor que vai at&eacute; ao perd&atilde;o e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, a&iacute; deve ser evidente a miseric&oacute;rdia do Pai. Nas nossas par&oacute;quias, nas comunidades, nas associa&ccedil;&otilde;es e nos movimentos &ndash; em suma, onde houver crist&atilde;os &ndash;, qualquer pessoa deve poder encontrar um o&aacute;sis de miseric&oacute;rdia&raquo;.[20]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, tamb&eacute;m n&oacute;s somos chamados a fazer do amor, da compaix&atilde;o, da miseric&oacute;rdia e da solidariedade um verdadeiro programa de vida, um estilo de comportamento nas rela&ccedil;&otilde;es de uns com os outros.[21] Isto requer a convers&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, que a gra&ccedil;a de Deus transforme o nosso cora&ccedil;&atilde;o de pedra num cora&ccedil;&atilde;o de carne (cf. Ez 36, 26), capaz de se abrir aos outros com aut&ecirc;ntica solidariedade. Com efeito, esta &eacute; muito mais do que um &laquo;sentimento de compaix&atilde;o vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, pr&oacute;ximas ou distantes&raquo;.[22] A solidariedade &laquo;&eacute; a determina&ccedil;&atilde;o firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos n&oacute;s somos verdadeiramente respons&aacute;veis por todos&raquo;,[23] porque a compaix&atilde;o brota da fraternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim entendida, a solidariedade constitui a atitude moral e social que melhor d&aacute; resposta &agrave; tomada de consci&ecirc;ncia das chagas do nosso tempo e da ineg&aacute;vel interdepend&ecirc;ncia que se verifica cada vez mais, especialmente num mundo globalizado, entre a vida do indiv&iacute;duo e da sua comunidade num determinado lugar e a de outros homens e mulheres no resto do mundo.[24]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fomentar uma cultura de solidariedade e miseric&oacute;rdia para se vencer a indiferen&ccedil;a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. A solidariedade como virtude moral e comportamento social, fruto da convers&atilde;o pessoal, requer empenho por parte duma multiplicidade de sujeitos que det&ecirc;m responsabilidades de car&aacute;cter educativo e formativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso em primeiro lugar nas fam&iacute;lias, chamadas a uma miss&atilde;o educativa prim&aacute;ria e imprescind&iacute;vel. Constituem o primeiro lugar onde se vivem e transmitem os valores do amor e da fraternidade, da conviv&ecirc;ncia e da partilha, da aten&ccedil;&atilde;o e do cuidado pelo outro. S&atilde;o tamb&eacute;m o espa&ccedil;o privilegiado para a transmiss&atilde;o da f&eacute;, a come&ccedil;ar por aqueles primeiros gestos simples de devo&ccedil;&atilde;o que as m&atilde;es ensinam aos filhos.[25]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto aos educadores e formadores que t&ecirc;m a dif&iacute;cil tarefa de educar as crian&ccedil;as e os jovens, na escola ou nos v&aacute;rios centros de agrega&ccedil;&atilde;o infantil e juvenil, devem estar cientes de que a sua responsabilidade envolve as dimens&otilde;es moral, espiritual e social da pessoa. Os valores da liberdade, respeito m&uacute;tuo e solidariedade podem ser transmitidos desde a mais tenra idade. Dirigindo-se aos respons&aacute;veis das institui&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m fun&ccedil;&otilde;es educativas, Bento XVI afirmava: &laquo;Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de di&aacute;logo, coes&atilde;o e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irm&atilde;os. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia ap&oacute;s dia a caridade e a compaix&atilde;o para com o pr&oacute;ximo e de participar activamente na constru&ccedil;&atilde;o duma sociedade mais humana e fraterna&raquo;.[26]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb&eacute;m os agentes culturais e dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social t&ecirc;m responsabilidades no campo da educa&ccedil;&atilde;o e da forma&ccedil;&atilde;o, especialmente na sociedade actual onde se vai difundindo cada vez mais o acesso a instrumentos de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o. Antes de mais nada, &eacute; dever deles colocar-se ao servi&ccedil;o da verdade e n&atilde;o de interesses particulares. Com efeito, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o &laquo;n&atilde;o s&oacute; informam, mas tamb&eacute;m formam o esp&iacute;rito dos seus destinat&aacute;rios e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educa&ccedil;&atilde;o dos jovens. &Eacute; importante ter presente a liga&ccedil;&atilde;o estreit&iacute;ssima que existe entre educa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o: de facto, a educa&ccedil;&atilde;o realiza-se por meio da comunica&ccedil;&atilde;o, que influi positiva ou negativamente na forma&ccedil;&atilde;o da pessoa&raquo;.[27] Os agentes culturais e dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social deveriam tamb&eacute;m vigiar por que seja sempre l&iacute;cito, jur&iacute;dica e moralmente, o modo como se obt&ecirc;m e divulgam as informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A paz, fruto duma cultura de solidariedade, miseric&oacute;rdia e compaix&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7. Conscientes da amea&ccedil;a duma globaliza&ccedil;&atilde;o da indiferen&ccedil;a, n&atilde;o podemos deixar de reconhecer que, no cen&aacute;rio acima descrito, inserem-se tamb&eacute;m numerosas iniciativas e ac&ccedil;&otilde;es positivas que testemunham a compaix&atilde;o, a miseric&oacute;rdia e a solidariedade de que o homem &eacute; capaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero recordar alguns exemplos de louv&aacute;vel empenho, que demonstram como cada um pode vencer a indiferen&ccedil;a, quando opta por n&atilde;o afastar o olhar do seu pr&oacute;ximo, e constituem passos salutares no caminho rumo a uma sociedade mais humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H&aacute; muitas organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais e grupos s&oacute;cio-caritativos, dentro da Igreja e fora dela, cujos membros, por ocasi&atilde;o de epidemias, calamidades ou conflitos armados, enfrentam fadigas e perigos para cuidar dos feridos e doentes e para sepultar os mortos. Ao lado deles, quero mencionar as pessoas e as associa&ccedil;&otilde;es que socorrem os emigrantes que atravessam desertos e sulcam mares &agrave; procura de melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida. Estas ac&ccedil;&otilde;es s&atilde;o obras de miseric&oacute;rdia corporal e espiritual, sobre as quais seremos julgados no fim da nossa vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso tamb&eacute;m nos jornalistas e fot&oacute;grafos, que informam a opini&atilde;o p&uacute;blica sobre as situa&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis que interpelam as consci&ecirc;ncias, e naqueles que se comprometem na defesa dos direitos humanos, em particular os direitos das minorias &eacute;tnicas e religiosas, dos povos ind&iacute;genas, das mulheres e das crian&ccedil;as, e de quantos vivem em condi&ccedil;&otilde;es de maior vulnerabilidade. Entre eles, contam-se tamb&eacute;m muitos sacerdotes e mission&aacute;rios que, como bons pastores, permanecem junto dos seus fi&eacute;is e apoiam-nos sem olhar a perigos e adversidades, em particular durante os conflitos armados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al&eacute;m disso, quantas fam&iacute;lias, no meio de in&uacute;meras dificuldades laborais e sociais, se esfor&ccedil;am concretamente, &agrave; custa de muitos sacrif&iacute;cios, por educar os seus filhos &laquo;contracorrente&raquo; nos valores da solidariedade, da compaix&atilde;o e da fraternidade! Quantas fam&iacute;lias abrem os seus cora&ccedil;&otilde;es e as suas casas a quem est&aacute; necessitado, como os refugiados e os emigrantes! Quero agradecer de modo particular a todas as pessoas, fam&iacute;lias, par&oacute;quias, comunidades religiosas, mosteiros e santu&aacute;rios que responderam prontamente ao meu apelo a acolher uma fam&iacute;lia de refugiados.[28]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero, enfim, mencionar os jovens que se unem para realizar projectos de solidariedade, e todos aqueles que abrem as suas m&atilde;os para ajudar o pr&oacute;ximo necessitado nas suas cidades, no seu pa&iacute;s ou noutras regi&otilde;es do mundo. Quero agradecer e encorajar todos aqueles que est&atilde;o empenhados em ac&ccedil;&otilde;es deste g&eacute;nero, mesmo sem gozar de publicidade: a sua fome e sede de justi&ccedil;a ser&atilde;o saciadas, a sua miseric&oacute;rdia far-lhes-&aacute; encontrar miseric&oacute;rdia e, como obreiros da paz, ser&atilde;o chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 6-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A paz, sob o signo do Jubileu da Miseric&oacute;rdia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8. No esp&iacute;rito do Jubileu da Miseric&oacute;rdia, cada um &eacute; chamado a reconhecer como se manifesta a indiferen&ccedil;a na sua vida e a adoptar um compromisso concreto que contribua para melhorar a realidade onde vive, a come&ccedil;ar pela pr&oacute;pria fam&iacute;lia, a vizinhan&ccedil;a ou o ambiente de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb&eacute;m os Estados s&atilde;o chamados a cumprir gestos concretos, actos corajosos a bem das pessoas mais fr&aacute;geis da sociedade, como os reclusos, os migrantes, os desempregados e os doentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente aos reclusos, urge em muitos casos adoptar medidas concretas para melhorar as suas condi&ccedil;&otilde;es de vida nos estabelecimentos prisionais, prestando especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave;queles que est&atilde;o privados da liberdade &agrave; espera de julgamento,[29] tendo em mente a finalidade reabilitativa da san&ccedil;&atilde;o penal e avaliando a possibilidade de inserir nas legisla&ccedil;&otilde;es nacionais penas alternativas &agrave; deten&ccedil;&atilde;o carcer&aacute;ria. Neste contexto, desejo renovar &agrave;s autoridades estatais o apelo a abolir a pena de morte, onde ainda estiver em vigor, e a considerar a possibilidade duma amnistia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto aos migrantes, quero dirigir um convite a repensar as legisla&ccedil;&otilde;es sobre as migra&ccedil;&otilde;es, de modo que sejam animadas pela vontade de dar hospitalidade, no respeito pelos rec&iacute;procos deveres e responsabilidades, e possam facilitar a integra&ccedil;&atilde;o dos migrantes. Nesta perspectiva, dever-se-ia prestar especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es para conceder a resid&ecirc;ncia aos migrantes, lembrando-se de que a clandestinidade traz consigo o risco de os arrastar para a criminalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desejo ainda, neste Ano Jubilar, formular um premente apelo aos l&iacute;deres dos Estados para que realizem gestos concretos a favor dos nossos irm&atilde;os e irm&atilde;s que sofrem pela falta de trabalho, terra e tecto. Penso na cria&ccedil;&atilde;o de empregos dignos para contrastar a chaga social do desemprego, que lesa um grande n&uacute;mero de fam&iacute;lias e de jovens e tem consequ&ecirc;ncias grav&iacute;ssimas no bom andamento da sociedade inteira. A falta de trabalho afecta, fortemente, o sentido de dignidade e de esperan&ccedil;a, e s&oacute; parcialmente &eacute; que pode ser compensada pelos subs&iacute;dios, embora necess&aacute;rios, para os desempregados e suas fam&iacute;lias. Especial aten&ccedil;&atilde;o deveria ser dedicada &agrave;s mulheres &ndash; ainda discriminadas, infelizmente, no campo laboral &ndash; e a algumas categorias de trabalhadores, cujas condi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o prec&aacute;rias ou perigosas e cujos sal&aacute;rios n&atilde;o s&atilde;o adequados &agrave; import&acirc;ncia da sua miss&atilde;o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, quero convidar &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o de ac&ccedil;&otilde;es eficazes para melhorar as condi&ccedil;&otilde;es de vida dos doentes, garantindo a todos o acesso aos cuidados sanit&aacute;rios e aos medicamentos indispens&aacute;veis para a vida, incluindo a possibilidade de tratamentos domicili&aacute;rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, estendendo o olhar para al&eacute;m das pr&oacute;prias fronteiras, os l&iacute;deres dos Estados s&atilde;o chamados tamb&eacute;m a renovar as suas rela&ccedil;&otilde;es com os outros povos, permitindo a todos uma efectiva participa&ccedil;&atilde;o e inclus&atilde;o na vida da comunidade internacional, para que se realize a fraternidade tamb&eacute;m dentro da fam&iacute;lia das na&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta perspectiva, desejo dirigir um tr&iacute;plice apelo: apelo a abster-se de arrastar os outros povos para conflitos ou guerras que destroem n&atilde;o s&oacute; as suas riquezas materiais, culturais e sociais, mas tamb&eacute;m &ndash; e por longo tempo &ndash; a sua integridade moral e espiritual; apelo ao cancelamento ou gest&atilde;o sustent&aacute;vel da d&iacute;vida internacional dos Estados mais pobres; apelo &agrave; adop&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de coopera&ccedil;&atilde;o que, em vez de submeter &agrave; ditadura dalgumas ideologias, sejam respeitadoras dos valores das popula&ccedil;&otilde;es locais e, de maneira nenhuma, lesem o direito fundamental e inalien&aacute;vel dos nascituros &agrave; vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confio estas reflex&otilde;es, juntamente com os melhores votos para o novo ano, &agrave; intercess&atilde;o de Maria Sant&iacute;ssima, M&atilde;e sol&iacute;cita pelas necessidades da humanidade, para que nos obtenha de seu Filho Jesus, Pr&iacute;ncipe da Paz, a satisfa&ccedil;&atilde;o das nossas s&uacute;plicas e a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o do nosso compromisso di&aacute;rio por um mundo fraterno e solid&aacute;rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vaticano, no dia da Solenidade da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o da Virgem Santa Maria e da Abertura do Jubileu Extraordin&aacute;rio da Miseric&oacute;rdia, 8 de Dezembro de 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCISCUS<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] Cf. ibid., 3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] Bula de proclama&ccedil;&atilde;o do Jubileu Extraordin&aacute;rio da Miseric&oacute;rdia Misericordiae Vultus, 14-15.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 43.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5] Cf. ibid., 16.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[6] Carta enc. Populorum progressio, 42.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[7] &laquo;A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas n&atilde;o nos faz irm&atilde;os. A raz&atilde;o, por si s&oacute;, &eacute; capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma conviv&ecirc;ncia c&iacute;vica entre eles, mas n&atilde;o consegue fundar a fraternidade&raquo; (Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[8] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 60.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[9]Cf. ibid., 54.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[10] Mensagem para a Quaresma de 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[11] Cf. Carta enc. Laudato si&rsquo;, 92.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[12] Cf. ibid., 51.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[13] Discurso por ocasi&atilde;o dos votos de Bom Ano Novo ao Corpo Diplom&aacute;tico acreditado junto da Santa S&eacute;, 7 de Janeiro de 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[14] Ibidem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[15] Cf. Bento XVI, Discurso durante o Dia de reflex&atilde;o, di&aacute;logo e ora&ccedil;&atilde;o pela paz e a justi&ccedil;a no mundo, Assis, 27 de Outubro de 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[16] Cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 217-237.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[17] &laquo;Enquanto n&atilde;o se eliminar a exclus&atilde;o e a desigualdade dentro da sociedade e entre os v&aacute;rios povos ser&aacute; imposs&iacute;vel desarreigar a viol&ecirc;ncia. Acusam-se da viol&ecirc;ncia os pobres e as popula&ccedil;&otilde;es mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as v&aacute;rias formas de agress&atilde;o e de guerra encontrar&atilde;o um terreno f&eacute;rtil que, mais cedo ou mais tarde, h&aacute;-de provocar a explos&atilde;o. Quando a sociedade &ndash; local, nacional ou mundial &ndash; abandona na periferia uma parte de si mesma, n&atilde;o h&aacute; programas pol&iacute;ticos, nem for&ccedil;as da ordem ou servi&ccedil;os secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto n&atilde;o acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reac&ccedil;&atilde;o violenta de quantos s&atilde;o exclu&iacute;dos do sistema, mas porque o sistema social e econ&oacute;mico &eacute; injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim tamb&eacute;m o mal consentido, que &eacute; a injusti&ccedil;a, tende a expandir a sua for&ccedil;a nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema pol&iacute;tico e social, por mais s&oacute;lido que pare&ccedil;a&raquo; (Exort. ap. Evangelii gaudium, 59).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[18] Cf. Carta enc. Laudato si&rsquo;, 31; 48.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[19] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2015, 2.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[20] Bula de proclama&ccedil;&atilde;o do Jubileu Extraordin&aacute;rio da Miseric&oacute;rdia Misericordiae Vultus, 12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[21] Cf. ibid., 13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[22] Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollecitudo rei socialis, 38.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[23] Ibidem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[24] Cf. Ibidem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[25] Cf. Catequese, na Audi&ecirc;ncia Geral de 7 de Janeiro de 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[26] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2012, 2.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[27] Ibidem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[28] Cf. Angelus de 6 de Setembro de 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[29] Cf. Discurso &agrave; delega&ccedil;&atilde;o da Associa&ccedil;&atilde;o Internacional de Direito Penal, 23 de Outubro de 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na mensagem para o Dia Mundial da Paz 2016, &nbsp;que tem como tema &ldquo;Vence a indiferen&ccedil;a e conquista a paz&rdquo;, o papa Francisco convida a promover uma cultura de solidariedade e miseric&oacute;rdia para&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1708,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1407"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1407"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1407\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}