{"id":1203,"date":"2016-02-26T00:00:00","date_gmt":"2016-02-26T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/integra-da-segunda-pregacao-da-quaresma-acolham-a-palavra-semeada-em-vos\/"},"modified":"2016-02-26T00:00:00","modified_gmt":"2016-02-26T00:00:00","slug":"integra-da-segunda-pregacao-da-quaresma-acolham-a-palavra-semeada-em-vos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/integra-da-segunda-pregacao-da-quaresma-acolham-a-palavra-semeada-em-vos\/","title":{"rendered":"\u00cdntegra da segunda prega\u00e7\u00e3o da Quaresma: &#8220;Acolham a Palavra semeada em v\u00f3s&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">[imagem1]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco participou na manh&atilde; desta sexta-feira (26\/02) da segunda prega&ccedil;&atilde;o da Quaresma, na Capela Redemptoris Mater. O pregador da Casa Pontif&iacute;cia, Fr. Raniero Cantalamessa, prop&ocirc;s aos colaboradores da C&uacute;ria Romana uma reflex&atilde;o sobre a constitui&ccedil;&atilde;o conciliar dogm&aacute;tica Dei Verbum, principalmente no que diz respeito &agrave; pr&aacute;tica e &agrave; medita&ccedil;&atilde;o pessoal. Eis a reflexc&atilde;o na &iacute;ntegra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&ldquo;Continuamos a nossa reflex&atilde;o sobre os principais documentos do Vaticano II. Das quatro &ldquo;constitui&ccedil;&otilde;es&rdquo; aprovadas, a que se refere &agrave; Palavra de Deus, a Dei verbum, &eacute; a &uacute;nica, junto com aquela sobre a Igreja, a Lumen gentium, a ter o status de &ldquo;dogm&aacute;tica&rdquo;. Isto se explica com o fato de que com este texto o Conc&iacute;lio pretendia reafirmar o dogma da inspira&ccedil;&atilde;o divina da Escritura e esclarecer, ao mesmo tempo, a sua rela&ccedil;&atilde;o com a tradi&ccedil;&atilde;o. Fiel &agrave; tentativa de iluminar os aspectos mais estritamente espirituais e edificantes dos textos conciliares, limitar-me-ei, tamb&eacute;m aqui, a algumas reflex&otilde;es voltadas &agrave; pr&aacute;tica e &agrave; medita&ccedil;&atilde;o pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Um Deus que fala<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Deus b&iacute;blico &eacute; um Deus que fala. &ldquo;Fala o Senhor, Deus dos deuses&#8230; n&atilde;o est&aacute; em sil&ecirc;ncio&rdquo;, diz o Salmo (Sl 50, 1-3). O pr&oacute;prio Deus repete in&uacute;meras vezes na B&iacute;blia: &#8220;Ouve, &oacute; meu povo, quero falar&#8221; (Sl 50, 7). Nisso a B&iacute;blia v&ecirc; a diferen&ccedil;a mais clara com os &iacute;dolos que &#8220;t&ecirc;m boca, mas n&atilde;o falam&#8221; (Sl 115, 5). Deus usou a palavra para comunicar-se com as criaturas humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas qual significado devemos dar a express&otilde;es t&atilde;o antropom&oacute;rficas como: &ldquo;Deus disse a Ad&atilde;o&rdquo;, &ldquo;assim fala o Senhor&rdquo;, &ldquo;disse o Senhor&rdquo;, &ldquo;or&aacute;culo do Senhor&rdquo;, e outras coisas semelhantes? Trata-se evidentemente de um falar diferente do humano, um falar aos ouvidos do cora&ccedil;&atilde;o. Deus fala como escreve! &ldquo;Porei minha lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu cora&ccedil;&atilde;o&rdquo;, diz no profeta Jeremias (Jr 31, 33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus n&atilde;o tem boca e respira&ccedil;&atilde;o humana: a sua boca &eacute; o profeta, a sua respira&ccedil;&atilde;o o Esp&iacute;rito Santo. &#8220;Tu ser&aacute;s a minha boca&rdquo; diz Ele mesmo aos seus profetas, ou tamb&eacute;m &ldquo;porei a minha palavra nos teus l&aacute;bios&rdquo;. &Eacute; o significado da famosa frase: &#8220;Movidos pelo Esp&iacute;rito Santo falaram aqueles homens da parte de Deus&#8221; (2 Pd 1, 21). A express&atilde;o &#8220;locu&ccedil;&otilde;es interiores&#8221;, com a qual definimos o falar direto de Deus de certas almas m&iacute;sticas, aplica-se, de certo modo qualitativamente diferente e superior, tamb&eacute;m ao falar de Deus aos profetas na B&iacute;blia. No entanto, &eacute; conceb&iacute;vel que, em alguns casos, como no Batismo e da Transfigura&ccedil;&atilde;o de Jesus, tem sido uma voz que soava milagrosamente mesmo fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De qualquer maneira, trata-se de um falar no verdadeiro sentido do termo; a criatura recebe uma mensagem que pode traduzir em palavras humanas. &Eacute; t&atilde;o v&iacute;vido e real o falar de Deus que o profeta recorda com precis&atilde;o o lugar e o momento em que uma determinada palavra &#8220;veio&#8221; sobre ele: &ldquo;No ano em que morreu o rei Uzias&#8221; (Is 6, 1), &#8220;&ldquo;No trig&eacute;simo ano, no quinto dia do quarto m&ecirc;s, quando me encontrava entre os exilados, junto ao rio Cobar&rdquo; (Ez 1, 1), &#8220;no segundo ano do rei Dario, no sexto m&ecirc;s, no primeiro dia do m&ecirc;s&#8221; (Ageu 1, 1). Assim de concreta &eacute; a palavra de Deus da qual se diz que &ldquo;cai&rdquo; sobre Israel, como se fosse uma pedra: &ldquo;O Senhor enviou uma palavra a Jac&oacute;, ela caiu em Israel&rdquo; (Is 9, 7). Outras vezes a mesma concretude e materialidade &eacute; expressa com o s&iacute;mbolo n&atilde;o da pedra que golpeia, mas do p&atilde;o que se come com prazer: &ldquo;Quando se apresentavam palavras tuas, as devorava: tuas palavras eram para mim contentamento e alegria de meu cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Jer 15, 16; cf tamb&eacute;m Ez 3, 1-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma voz humana atinge o homem com a profundidade com a qual atinge-o a palavra de Deus. Essa &ldquo;penetra at&eacute; dividir alma e esp&iacute;rito, junturas e medulas. Ela julga as disposi&ccedil;&otilde;es e as inten&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Hb 4, 12). &Agrave;s vezes o falar de Deus &eacute; &#8220;um trov&atilde;o poderoso que quebra os cedros do L&iacute;bano&#8221; (Sl 29, 5), outras vezes se assemelha ao &#8220;murm&uacute;rio de uma brisa suave&#8221; (1 Reis 19, 12). Conhece todos os tons da fala humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso sobre a natureza do falar de Deus muda radicalmente no momento em que se l&ecirc; na Escritura a frase: &ldquo;A palavra se fez carne&rdquo; (Jo 1, 14). Com a vinda de Cristo, Deus fala tamb&eacute;m com voz humana, aud&iacute;vel com os ouvidos tamb&eacute;m do corpo. &ldquo;O que era desde o princ&iacute;pio, o que n&oacute;s ouvimos, o que n&oacute;s vimos com os nossos olhos, o que n&oacute;s contemplamos e o que as nossas m&atilde;os tocaram, ou seja, o Verbo da vida [&#8230;] n&oacute;s o anunciamos tamb&eacute;m a v&oacute;s&rdquo; (1 Jo 1, 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Verbo foi visto e ouvido! Entretanto, o que se ouve n&atilde;o &eacute; palavra de homem, mas palavra de Deus porque quem fala n&atilde;o &eacute; a natureza, mas a pessoa, e a pessoa de Cristo &eacute; a mesma pessoa divina do Filho de Deus. Nele Deus n&atilde;o nos fala mais por um intermedi&aacute;rio, &ldquo;por meio dos profetas&rdquo;, mas pessoalmente, porque Cristo &eacute; &ldquo;a irradia&ccedil;&atilde;o da sua subst&acirc;ncia&rdquo; (cf. Hb 1, 2). Ao discurso indireto, na terceira pessoa, substitui-se o discurso direto, em primeira pessoa. N&atilde;o mais &ldquo;Assim fala o Senhor!&rdquo; ou &ldquo;Or&aacute;culo do Senhor!&rdquo;, mas &ldquo;Eu vos digo!&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O falar de Deus, tanto o mediado pelos profetas do Antigo Testamento, quanto o novo e direto de Cristo, depois de ter sido transmitido oralmente, acabou sendo colocado por escrito, e, assim, temos as divinas &ldquo;Escrituras&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Agostinho define o sacramento &#8220;uma palavra que se v&ecirc;&rdquo; (verbum visibile[1]); n&atilde;o podemos definir a palavra &ldquo;um sacramento que se ouve&rdquo;. Em todo o sacramento se distingue um sinal vis&iacute;vel e a realidade invis&iacute;vel que &eacute; a gra&ccedil;a. A palavra que lemos na B&iacute;blia, em si mesma, &eacute; um sinal material, como a &aacute;gua no Batismo e o p&atilde;o na Eucaristia, uma palavra do vocabul&aacute;rio humano, n&atilde;o diferentes das outras. Mas, falando da f&eacute; e da ilumina&ccedil;&atilde;o do Esp&iacute;rito Santo, atrav&eacute;s desse sinal, entramos misteriosamente em contato com a verdade viva e vontade de Deus e ouvimos a pr&oacute;pria voz de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&ldquo;O corpo de Cristo &ndash; escreve Bossuet &ndash; n&atilde;o est&aacute; mais realmente presente no ador&aacute;vel sacramento do que quanto a verdade de Cristo est&aacute; na prega&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica. No mist&eacute;rio da Eucaristia as esp&eacute;cies que v&ecirc;s s&atilde;o sinais, mas o que nelas se encerra &eacute; o pr&oacute;prio corpo de Cristo; na Escritura, as palavras que ouvis s&atilde;o sinais, mas o pensamento que vos d&atilde;o &eacute; a pr&oacute;pria verdade do Filho de Deus[2]&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sacramentalidade da Palavra de Deus se revela no fato de que &agrave;s vezes obra claramente al&eacute;m da compreens&atilde;o da pessoa que pode ser limitada e imperfeita; obra quase por si mesma, ex opere operato, como se diz, dos sacramentos. Na Igreja houve e haver&aacute; livros mais edificantes do que alguns da B&iacute;blia (basta pensar na Imita&ccedil;&atilde;o de Cristo); mas, nenhum deles obra como obra o mais modesto dos livros inspirados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouvi uma pessoa dar este testemunho em um programa de televis&atilde;o do qual eu tamb&eacute;m participei. Era um alco&oacute;latra no &uacute;ltimo est&aacute;gio; n&atilde;o conseguia ficar mais de duas horas sem beber; a fam&iacute;lia estava &agrave; beira do desespero. Convidaram-no, junto com sua esposa, para participar de um encontro sobre a palavra de Deus. L&aacute; algu&eacute;m leu uma passagem da Escritura. Uma frase atravessou-lhe como uma chama de fogo, e deu-lhe a certeza de estar curado. Depois, toda vez que sentia a tenta&ccedil;&atilde;o de beber, corria para a B&iacute;blia naquele ponto e s&oacute; ao ler as palavras sentia a for&ccedil;a voltar nele, at&eacute; que conseguiu ficar totalmente curado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando quis dizer qual era aquela famosa frase, a voz ficou entrecortada pela emo&ccedil;&atilde;o. Era a palavra do C&acirc;ntico dos C&acirc;nticos: &ldquo;Teus amores s&atilde;o melhores do que o vinho&rdquo; (Ct 1, 2). Os estudiosos teriam feito careta diante desta aplica&ccedil;&atilde;o, mas aquele homem podia dizer: &ldquo;Eu estava morto e agora voltei &agrave; vida&rdquo;, como o cego de nascen&ccedil;a dizia aos seus cr&iacute;ticos: &#8220;Eu era cego, agora vejo&#8221; (Jo 9, 10 ss.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma coisa semelhante aconteceu tamb&eacute;m com Santo Agostinho. No auge da sua luta pela castidade, ouviu uma voz que repetia: &ldquo;Tolle, lege!&rdquo;, toma e l&ecirc;. Tendo consigo as cartas de S&atilde;o Paulo, abriu o livro decidido a tomar como vontade de Deus o primeiro texto que aparecesse. Era Rm 13,13ss: &ldquo;Como de dia, andemos decentemente; n&atilde;o em orgias e bebedeiras, nem em devassid&atilde;o e libertinagem, nem em rixas e ci&uacute;mes&#8230;&rdquo;. &ldquo;N&atilde;o quis ler mais &ndash; escreve nas Confiss&otilde;es &ndash; nem precisava. Terminada a leitura desta frase, uma luz, quase de certeza, penetrou no meu cora&ccedil;&atilde;o e todas as trevas da d&uacute;vida se dissiparam[3]&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. A lectio divina<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap&oacute;s estas observa&ccedil;&otilde;es sobre a palavra de Deus em geral, quero concentrar-se na palavra de Deus como caminho de santifica&ccedil;&atilde;o pessoal. &ldquo;&Eacute; t&atilde;o grande a for&ccedil;a e a virtude da palavra de Deus &ndash; diz a Dei Verbum &ndash; que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da f&eacute; para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual[4]&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do cartuxo Guigo II[5], v&aacute;rios m&eacute;todos e esquemas foram propostos para a lectio divina. Por&eacute;m, eles t&ecirc;m a desvantagem de serem concebidos quase sempre em fun&ccedil;&atilde;o da vida mon&aacute;stica e contemplativa, e, portanto, inadequados para o nosso tempo, em que a leitura pessoal da Palavra de Deus &eacute; recomendada a todos os crentes, religiosos e leigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizmente, a pr&oacute;pria Escritura nos prop&otilde;e um m&eacute;todo de leitura da B&iacute;blia acess&iacute;vel a todos. Na Carta de S&atilde;o Tiago (Tg 1, 18-25) lemos um famoso texto sobre a Palavra de Deus. Dele tiramos um esquema de lectio divina, que tem tr&ecirc;s etapas ou opera&ccedil;&otilde;es sucessivas: acolher a palavra, meditar a palavra, colocar em pr&aacute;tica a palavra. Reflitamos sobre cada um deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a. Acolher a Palavra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro passo &eacute; a escuta da Palavra: &#8220;Acolham com docilidade, diz o ap&oacute;stolo, a Palavra que foi semeada em v&oacute;s&rdquo;. Esta primeira etapa abra&ccedil;a todas as formas e os modos com que o crist&atilde;o entra em contato com a palavra de Deus: escuta da Palavra na liturgia, escolas b&iacute;blicas, subs&iacute;dios escritos e &ndash; insubstitu&iacute;vel &ndash; a leitura pessoal da B&iacute;blia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O sagrado Conc&iacute;lio exorta com ardor e insist&ecirc;ncia todos os fi&eacute;is, mormente os religiosos, a que aprendam &laquo;a sublime ci&ecirc;ncia de Jesus Cristo&raquo; (Fil. 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras [&#8230;] Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer atrav&eacute;s da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se v&atilde;o espalhando t&atilde;o louvavelmente por toda a parte, com a aprova&ccedil;&atilde;o e est&iacute;mulo dos pastores da Igreja[6]&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta fase devemos tomar cuidado com dois perigos. O primeiro &eacute; o de parar no primeiro est&aacute;gio e de transformar a leitura pessoal da palavra de Deus em uma leitura impessoal. Este perigo &eacute; muito forte, especialmente nos lugares de forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica. Se algu&eacute;m espera deixar-se interpelar pessoalmente pela Palavra &ndash; observar Kierkegaard &ndash; at&eacute; que n&atilde;o resolva todos os problemas conectados com o texto, as variantes e as diverg&ecirc;ncias de opini&atilde;o dos estudiosos, nunca terminar&aacute; qualquer coisa. A palavra de Deus foi dada para que a pratiques e n&atilde;o para que te exercites na exegese dos seus pontos obscuros[7].&nbsp; N&atilde;o s&atilde;o os pontos obscuros da B&iacute;blia, dizia o mesmo fil&oacute;sofo, que me d&atilde;o medo; s&atilde;o os seus pontos claros!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S&atilde;o Tiago compara a leitura da palavra de Deus com um olhar-se no espelho; mas quem se limita a estudar as fontes, as variantes, os g&ecirc;neros liter&aacute;rios da B&iacute;blia, sem fazer outra coisa, &eacute; semelhante a algu&eacute;m que passa todo o tempo a olhar o espelho &ndash; examinando a sua forma, o material, o estilo, a &eacute;poca &ndash; , sem nunca olhar-se no espelho. Para essa pessoa o espelho n&atilde;o executa a pr&oacute;pria fun&ccedil;&atilde;o. O estudo cr&iacute;tico da palavra de Deus &eacute; indispens&aacute;vel e nunca se &eacute; suficientemente grato &agrave;queles que gastam as suas vidas para pavimentar o caminho para uma cada vez melhor compreens&atilde;o do texto sagrado, mas isso n&atilde;o esgota por si s&oacute; o sentido das Escrituras; &eacute; necess&aacute;rio, mas n&atilde;o suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro perigo &eacute; o fundamentalismo: o tomar tudo o que se l&ecirc; na B&iacute;blia literalmente, sem qualquer media&ccedil;&atilde;o hermen&ecirc;utica. S&oacute; aparentemente os dois extremos, do hipercriticismo e do fundamentalismo, s&atilde;o opostos: eles t&ecirc;m em comum o fato de pararem na letra, descuidando o Esp&iacute;rito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a par&aacute;bola da semente e do semeador (Lc 8, 5-15), Jesus nos oferece uma ajuda para descobrir onde estamos, cada um de n&oacute;s, em termos de acolhimento da Palavra de Deus. Ele distingue quatro tipos de terreno: o caminho, o terreno pedregoso, os espinhos e a terra boa. Explica, portanto, o que simbolizam os diferentes terrenos: o caminho s&atilde;o aqueles sobre os quais a palavra de Deus n&atilde;o consegue nem repousar; o terreno pedregoso, os superficiais e os inconstantes que ouvem talvez com alegria, mas n&atilde;o d&atilde;o &agrave; palavra a possibilidade de criar ra&iacute;zes; o terreno cheio de espinhos, aqueles que se deixam sufocar pelas preocupa&ccedil;&otilde;es e prazeres da vida; a terra boa s&atilde;o os que ouvem e d&atilde;o fruto com perseveran&ccedil;a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo, n&oacute;s podemos ser tentados a olhar com pressa para as tr&ecirc;s primeiras categorias, esperando chegar &agrave; quarta que, mesmo com todas as limita&ccedil;&otilde;es, pensamos que seja o nosso caso. Na verdade &ndash; e aqui est&aacute; a surpresa &ndash; a terra boa s&atilde;o aqueles que, sem esfor&ccedil;o, reconhecem-se em cada uma das tr&ecirc;s categorias anteriores! Aqueles que humildemente reconhecem quantas vezes ouviram distraidamente, quantas vezes foram inconstantes nos prop&oacute;sitos suscitados neles pela escuta de uma palavra do Evangelho, quantas vezes se deixaram levar pelo ativismo e pelas preocupa&ccedil;&otilde;es materiais. Eis que eles involuntariamente est&atilde;o se tornando a verdadeira terra boa. Que o Senhor nos conceda sermos, tamb&eacute;m n&oacute;s, do seu n&uacute;mero!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o dever de acolher a palavra de Deus e de n&atilde;o deixar nenhuma cair no vazio, ou&ccedil;amos a exorta&ccedil;&atilde;o que dava aos crist&atilde;os do seu tempo um dos maiores estudiosos da Palavra de Deus, o escritor Or&iacute;genes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;V&oacute;s que frequentemente tomais parte dos divinos mist&eacute;rios, quando recebais o corpo do Senhor conservem-no com todo cuidado e toda venera&ccedil;&atilde;o para que nem sequer uma migalha caia no ch&atilde;o, para que nada se perca do dom consagrado. Estais convencidos, com raz&atilde;o, de que &eacute; uma culpa deixar cair fragmentos por descuido. Se para conservar o seu corpo tendes tanto cuidado &ndash; e &eacute; correto que assim seja &ndash; , saibais que descuidar a palavra de Deus n&atilde;o &eacute; culpa menor do que descuidar o seu corpo[8]&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>b. Contemplar a Palavra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo passo sugerido por S&atilde;o Tiago consiste no &ldquo;fixar o olhar&rdquo; na palavra, no estar por muito tempo diante do espelho, em suma, na medita&ccedil;&atilde;o ou contempla&ccedil;&atilde;o da Palavra. Os Padres usavam a este respeito as imagens do mastigar e do ruminar. &ldquo;A leitura &ndash; escrevia Guigo II &ndash; oferece &agrave; boca um alimento substancial, a medita&ccedil;&atilde;o o mastiga e o tritura[9]&rdquo;. Quando se procura na mem&oacute;ria as coisas ouvidas e docemente s&atilde;o repensadas no cora&ccedil;&atilde;o, torna-se semelhante ao ruminante&rdquo;, diz Santo Agostinho[10].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alma que se olha no espelho da palavra aprende a conhecer &#8220;como &eacute;,&#8221; aprende a conhecer a si mesma, descobre suas diferen&ccedil;as em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; imagem de Deus e a imagem de Cristo. &#8220;Eu n&atilde;o busco a minha gl&oacute;ria&#8221;, diz Jesus (Jo 8, 50): eis que o espelho est&aacute; na sua frente e imediatamente voc&ecirc; v&ecirc; o qu&atilde;o distante est&aacute; de Jesus se busca a sua gl&oacute;ria; &#8220;Bem-aventurados os pobres em esp&iacute;rito&#8221;: o espelho est&aacute; de novo na sua frente e imediatamente lhe descobre ainda cheio de apegos e cheio de coisas sup&eacute;rfluas, cheio, especialmente, de si mesmo; &ldquo;a caridade &eacute; paciente&#8230;&rdquo; e voc&ecirc; se d&aacute; conta do qu&atilde;o &eacute; impaciente, invejoso, interessado. Mais do que&ldquo;escrutar a Escritura&rdquo; (cf. Jo 5, 39), trata-se de deixar-se escrutar pela Escritura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pois a Palavra de Deus &ndash; diz a Carta aos Hebreus &ndash; &eacute; viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra at&eacute; dividir alma e esp&iacute;rito, junturas e medulas. Ela julga as disposi&ccedil;&otilde;es e as inten&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o. E n&atilde;o h&aacute; criatura oculta &agrave; sua presen&ccedil;a&rdquo; (Hb 4, 12-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No espelho da Palavra, felizmente, n&atilde;o vemos apenas a n&oacute;s mesmos e a nossa deformidade; vemos, antes de mais nada, o rosto de Deus; melhor, vemos o cora&ccedil;&atilde;o de Deus. A Escritura, diz S&atilde;o Greg&oacute;rio Magno, &eacute; &ldquo;uma carta de Deus onipotente &agrave; sua criatura; nela se aprende a conhecer o cora&ccedil;&atilde;o de Deus nas palavras de Deus[11]&rdquo;. Tamb&eacute;m para Deus vale o ditado de Jesus: &ldquo;A boca fala do que est&aacute; cheio o cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Mt 12, 34); Deus nos falou, na Escritura, do que est&aacute; cheio o cora&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, do amor. Todas as Escrituras foram escritas para esta finalidade: que o homem pudesse entender o quanto Deus o ama, e compreendesse isso para abrasar-se do amor &agrave; ele[12]. O ano jubilar da miseric&oacute;rdia &eacute; uma ocasi&atilde;o magn&iacute;fica para reler toda a Escritura deste &acirc;ngulo, como a hist&oacute;ria das miseric&oacute;rdias de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>c. Praticar a Palavra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos, assim, &agrave; terceira fase do caminho proposto pelo ap&oacute;stolo Tiago: &ldquo;Sejam daqueles que praticam a palavra&#8230;, quem a pratica, encontrar&aacute; a sua felicidade no pratica-la&#8230; se algu&eacute;m s&oacute; escuta e n&atilde;o coloca em pr&aacute;tica a palavra, se assemelha a um homem que observa o pr&oacute;prio rosto em um espelho: depois de olhar, vai embora, e rapidamente esquece como era&rdquo;.<\/p>\n<p>Isso &eacute; tamb&eacute;m o que mais est&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o de Jesus: &ldquo;Minha m&atilde;e e meus irm&atilde;os s&atilde;o aqueles que ouvem a palavra de Deus e a colocam em pr&aacute;tica&rdquo; (Lc 8, 21). Sem este &ldquo;praticar a Palavra&rdquo;, todo o resto &eacute; ilus&atilde;o, constru&ccedil;&atilde;o na areia (Mt 7, 26). Nem sequer pode-se dizer que se compreendeu a Palavra porque, como escreve S&atilde;o Greg&oacute;rio Magno, a palavra de Deus se compreende realmente s&oacute; quando come&ccedil;a a ser praticada[13].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta terceira etapa consiste, na pr&aacute;tica, na obedi&ecirc;ncia &agrave; Palavra. As palavras de Deus, sob a a&ccedil;&atilde;o atual do Esp&iacute;rito, se tornam express&atilde;o da viva vontade de Deus para mim, em um dado momento. Se escutamos com aten&ccedil;&atilde;o, nos daremos conta com surpresa de que n&atilde;o h&aacute; dia sequer em que na liturgia, na recita&ccedil;&atilde;o de um salmo, ou em outros momentos, n&atilde;o descobrimos uma palavra da qual devemos dizer: &ldquo;Isso &eacute; para mim! Isso &eacute; o que devo fazer hoje!&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;A obedi&ecirc;ncia &agrave; palavra de Deus &eacute; a obedi&ecirc;ncia que podemos fazer sempre. Obedi&ecirc;ncia a ordens e autoridades vis&iacute;veis, acontece s&oacute; de vez em quando, tr&ecirc;s ou quatro vezes em toda a vida, caso sejam obedi&ecirc;ncias s&eacute;rias; mas de obedi&ecirc;ncias &agrave; palavra de Deus &eacute; poss&iacute;vel fazer uma a cada momento. &Eacute; tamb&eacute;m a obedi&ecirc;ncia que podemos fazer todos, s&uacute;ditos e superiores. Santo In&aacute;cio de Antioquia dava este maravilhoso conselho a um colega seu no episcopado: &ldquo;Que nada se fa&ccedil;a sem o teu consentimento, mas, tu, nada fa&ccedil;as sem o consentimento de Deus[14]&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obedecer &agrave; Palavra de Deus significa, na pr&aacute;tica, seguir as boas inspira&ccedil;&otilde;es. O nosso programa espiritual depende em grande parte da sensibilidade &agrave;s boas inspira&ccedil;&otilde;es e da prontid&atilde;o com que respondemos a elas. Uma palavra de Deus te sugeriu um prop&oacute;sito, colocou no teu cora&ccedil;&atilde;o o desejo de uma boa confiss&atilde;o, de uma reconcilia&ccedil;&atilde;o, de um ato de caridade; te convida a parar um momento o trabalho e dirigir a Deus um ato de amor. N&atilde;o coloque trava; n&atilde;o deixe passar. &ldquo;Timeo Iesum transeuntem&rdquo;, dizia o pr&oacute;prio Agostinho[15]; como dizendo: &ldquo;Tenho medo da sua boa inspira&ccedil;&atilde;o que passa e n&atilde;o volta mais&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminamos com o pensamento de um antigo Padre do deserto[16]. A nossa mente, dizia, &eacute; como um moinho; o primeiro gr&atilde;o que &eacute; colocado na manh&atilde; &eacute; o que continua a moer durante todo o dia. Apressemo-nos, portanto, a colocar neste moinho, desde o primeiro momento da manh&atilde;, o bom gr&atilde;o da palavra de Deus, sen&atilde;o, vem o dem&ocirc;nio e coloca a erva daninha que durante todo o dia far&aacute; a moedura. A palavra particular que colocamos hoje no moinho da nossa mente &eacute; o proposto como lema do ano jubilar: &#8220;Sede misericordiosos como vosso Pai celeste &eacute; misericordioso&#8221;&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Santo Agostino, Tratados sobre o Evangelho de Jo&atilde;o, 80, 3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] J.B. Bossuet, Sur la parole de Dieu, in &OElig;uvres oratoires de Bossuet, III, Descl&eacute;e de Brouwer, Paris 1927, p. 627.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] Santo Agostinho, Confiss&otilde;es, VIII, 29.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] Dei Verbum, n. 21.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5] Guigo II, Lettera sulla vita contemplativa (Scala claustralium), 3, in Un itinerario di contemplazione. Antologia di autori certosini, Edizioni Paoline, Milano 1986, p. 22<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[6] Dei Verbum, n. 25.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[7] S. Kierkegaard, Per l&rsquo;esame di se stessi. La Lettera di Giacomo, 1, 22, in Opere, a cura di C. Fabro, cit., pp. 909 ss.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[8] Or&iacute;genes, In Exod. hom. XIII, 3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[9] Guigo II, Lettera sulla vita contemplativa (Scala claustralium), 3, in Un itinerario di contemplazione. Antologia di autori certosini, Edizioni Paoline, Milano 1986, p. 22.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[10] Santo Agostinho, Enarr. in Ps., 46, 1 (CCL 38, 529).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[11] S. Gregorio Magno, Registr. Epist., IV, 31 (PL 77, 706).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[12] Santo Agostinho, De catech. rud., I, 8.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[13] S. Gregorio Magno, Su Ezechiele, I, 10, 31 (CCL 142, p. 159).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[14] S. Ignazio d&rsquo;Antiochia, Lettera a Policarpo 4, 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[15] S. Agostino, Discorsi, 88, 14, 13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[16] Cf. Giovanni Cassiano, Conferenze, I, 18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: R&aacute;dio Vaticano<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[imagem1] O Papa Francisco participou na manh&atilde; desta sexta-feira (26\/02) da segunda prega&ccedil;&atilde;o da Quaresma, na Capela Redemptoris Mater. O pregador da Casa Pontif&iacute;cia, Fr. 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