{"id":10098,"date":"2019-03-06T08:21:38","date_gmt":"2019-03-06T08:21:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/?p=10098"},"modified":"2019-03-06T12:23:00","modified_gmt":"2019-03-06T12:23:00","slug":"quaresma-receber-o-perfume-de-nossas-cinzas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/quaresma-receber-o-perfume-de-nossas-cinzas\/","title":{"rendered":"Quaresma: receber o perfume de nossas cinzas"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align:center\"><strong><em> \u201cQuando jejuares, perfuma a cabe\u00e7a e lava o rosto&#8230;\u201d (Mt 6,17)\u00a0 <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quaresma \u00e9 tempo favor\u00e1vel para \u201cordenar a pr\u00f3pria vida\u201d na dire\u00e7\u00e3o do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este processo de \u201cordenamento\u201d aconte\u00e7a, o tempo lit\u00fargico quaresmal nos convida a \u201cconsiderar\u201d as nossas rela\u00e7\u00f5es vitais: com Deus, com os outros, com o mundo e conosco mesmo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Evangelho fala-se das \u201cpr\u00e1ticas quaresmais\u201d da ora\u00e7\u00e3o, esmola e jejum, onde nossas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o iluminadas e questionadas pelo modo de proceder de Jesus. Qu\u00ea sentido tem, para nossa cultura, estes tr\u00eas gestos que s\u00e3o propostos para uma viv\u00eancia fecunda da Quaresma?<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar,&nbsp;<strong>s\u00e3o tr\u00eas gestos que nos humanizam e tornam a vida mais leve e com sentido; eles condensam o sentido da vida crist\u00e3. A vida \u00e9 um abrir-se aos demais (esmola), um mergulhar no mist\u00e9rio de Deus (ora\u00e7\u00e3o) e ser capaz de ordenar e dirigir a pr\u00f3pria exist\u00eancia (jejum).&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso criar espa\u00e7o novo no cora\u00e7\u00e3o e na mente, para que coisas novas aconte\u00e7am. Vividos a partir da identifica\u00e7\u00e3o com Jesus Cristo, os valores da ora\u00e7\u00e3o, da esmola e do jejum esvaziam nosso \u201cego\u201d para nos aproximar dos pobres e exclu\u00eddos, encher-nos de compaix\u00e3o e miseric\u00f3rdia, exercitar-nos na pr\u00e1tica do bem e da bondade, acolher o outro com sinceridade, perdoar gratuitamente, cuidar com ternura e admira\u00e7\u00e3o tudo o que nos cerca, encantar-nos com o mist\u00e9rio da vida, deixar-nos envolver pela gra\u00e7a e permitir que o amor circule em n\u00f3s e no mundo, gerando vida em abund\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um \u201cmodo de proceder\u201d permanente, n\u00e3o s\u00f3 para o tempo quaresmal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 \u201cquaresmas\u201d na vida que nos atingem \u201cfora do tempo\u201d,<\/strong>&nbsp;em qualquer momento do ano; quaresmas que n\u00e3o quer\u00edamos viver e que sabemos que n\u00e3o nos resta outra alternativa a n\u00e3o ser passar por elas: enfermidades, momentos de crise, etapas de ruptura, tempos de luto por um ente querido que se foi&#8230;&nbsp;<strong>Mas h\u00e1 quaresmas que s\u00e3o a vida mesma<\/strong>, o tempo cotidiano de muitas pessoas, especialmente dos mais empobrecidos e sofredores de nossa sociedade. Todas estas realidades n\u00e3o s\u00e3o mudas: fazem chegar seus gritos a cada um de n\u00f3s e nos falam de nossa limita\u00e7\u00e3o, de nossa fragilidade, de nosso pecado&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os fi\u00e9is entram na fila para receber, sobre suas cabe\u00e7as, um pouco de cinzas, na quarta-feira que d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 Quaresma, eles n\u00e3o est\u00e3o fazendo um ato derrotista, nem expressando uma tristeza in\u00fatil, nem&nbsp; mergulhando na escurid\u00e3o daquilo que o fogo destruiu. Eles est\u00e3o fazendo uma profiss\u00e3o de f\u00e9 na for\u00e7a da esperan\u00e7a. Mesmo que tudo pare\u00e7a arruinado, h\u00e1 uma pot\u00eancia interior que n\u00e3o permite ao ser humano desistir de si mesmo nem dos outros. Ela recobra a energia do perd\u00e3o, o \u00e2nimo para prosseguir no caminho da vida, a confian\u00e7a nas pessoas, a amizade que ficou amea\u00e7ada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nossas cinzas tem um valor muito diferente segundo sua origem. A imagem de uma mulher abatida diante do inc\u00eandio de sua casa e que perdeu todos os seus pertences, n\u00e3o \u00e9 igual \u00e0 cinzas de uma chamin\u00e9 da casa de campo. \u201cCinzas: de qu\u00ea?\u201d Essa \u00e9 a quest\u00e3o. Nossas cinzas s\u00e3o uma recorda\u00e7\u00e3o da fragilidade na qual nos movemos na vida: o que perdemos, desperdi\u00e7amos da vida que nos foi dada; o amor aos outros que queimamos inutilmente; a terra calcificada de nossas indiferen\u00e7as e de nossas cumplicidades; os sonhos que n\u00e3o permitimos que chegassem a ser realidade, queimados pela chama da nossa intoler\u00e2ncia; os bons desejos que deixamos \u00e0 beira do caminho, destru\u00eddos lentamente pelos pavios fumegantes&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De tudo isso temos que nos revestir; isso \u00e9 o que carregamos sobre nossas cabe\u00e7as, que se inclinam com humildade, ante o gesto sagrado. A sorte que temos \u00e9 que nos \u00e9 anunciado tamb\u00e9m um caminho novo, abre-se diante de n\u00f3s um caminho para percorrer, desperta-se o fogo novo do amor, ativa-se uma nova energia criativa, mobilizam-se in\u00e9ditos recursos internos&#8230; para dar uma nova fei\u00e7\u00e3o ao nosso seguimento de Jesus. Portanto, no sentido b\u00edblico, a cinza \u00e9 for\u00e7a, esp\u00edrito, vida, projeto, s\u00edntese e realidade carregada de futuro. \u00c9 esperan\u00e7a, \u00e9 ressurrei\u00e7\u00e3o; \u00e9 renova\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o, de tudo o que \u00e9 nosso e dos outros. \u00c9 comunh\u00e3o e renascimento.<strong>&nbsp;A cinza \u00e9 purifica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A finalidade da imposi\u00e7\u00e3o das Cinzas e a viv\u00eancia das pr\u00e1ticas quaresmais (ora\u00e7\u00e3o, jejum e esmola) \u00e9 nos ajudar a fazer uma \u201ctravessia interior\u201d. N\u00e3o se trata de viver a Quaresma s\u00f3 retocando, com certa \u201cmaquiagem crist\u00e3\u201d, o exterior de nossa vida. \u00c9 preciso deixar que a Gra\u00e7a de Deus encontre liberdade para transitar pelos recantos mais \u201cescondidos\u201d do nosso eu profundo. \u201cE o teu Pai, que v\u00ea o que est\u00e1 escondido, te dar\u00e1 a recompensa\u201d. Nosso cora\u00e7\u00e3o h\u00e1 de empapar-se desta Gra\u00e7a, desse afeto a Jesus e ao seu Reino, que nos conduzir\u00e1 at\u00e9 \u00e0 alegria da P\u00e1scoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos de tempos, sil\u00eancios, espa\u00e7os&#8230;, para criar um ambiente favor\u00e1vel para o encontro verdadeiro com Aquele que sempre vem ao nosso encontro; \u00e9 preciso sair do espa\u00e7o cotidiano, rotineiro, para entrar em outro espa\u00e7o, amplo, provocativo, surpreendente&#8230; e deixar-nos afetar pelas coisas de Deus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Redescobrir o pr\u00f3prio lugar interior \u00e9 sinal de maturidade e sabedoria de vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse lugar nada tem a ver com o \u00eaxito social, ou o reconhecimento dos outros. \u00c9 um lugar interior, uma atitude de prontid\u00e3o em ultrapassar todas as camadas exteriores de si mesmo e chegar \u00e0 dimens\u00e3o mais profunda, que nem sequer temos palavras para express\u00e1-la. Um lugar no qual n\u00e3o importa nem o que os outros opinam a respeito de n\u00f3s, nem sequer a ideia que fazemos de n\u00f3s mesmos. Um espa\u00e7o \u00edntimo, lugar de serenidade e de intimidade, a partir do qual a Gra\u00e7a tem plena liberdade de atuar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse lugar s\u00f3 se pode indicar como \u201co escondido\u201d, onde aprendemos a decifrar a vida, onde temos acesso aos recursos e \u00e0s riquezas mais nobres que desvelam nossa verdadeira identidade. Ali, \u201cno escondido\u201d, \u00e9 onde devemos acudir para orar, para tornar poss\u00edvel a emerg\u00eancia do \u201cDeus escondido\u201d em n\u00f3s e nas transforma\u00e7\u00f5es de nossa vida. Um lugar onde n\u00e3o contam os reflexos e as imagens, mas a realidade primeira, a que fica desvelada a partir do cora\u00e7\u00e3o, o nosso interior, o centro vital que somos e a partir do qual nos nutrimos e vivemos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEntrar em casa\u201d expressa bem uma atitude de movimento de fora para dentro, da rua onde transitamos indiferentes para o lugar onde vivemos a \u201cm\u00edstica do encontro\u201d. Al\u00e9m disso, \u201centrar no quarto\u201d indica um sinal especial de intimidade recolhida: \u00e9 ali, onde \u00e9 preciso fechar a porta e esperar pacientemente \u201cAquele que mora no escondido\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de fazer a experi\u00eancia de entrar no \u201cescondido\u201d, na gruta do Horeb, na fenda das rochas do Sinai, no interior da tenda do deserto, no cora\u00e7\u00e3o e centro da vida&#8230; Ali \u00e9 onde uma vis\u00e3o nova e diferente da vida \u00e9 poss\u00edvel: a d\u2019Aquele que v\u00ea no \u201cescondido\u201d e sabe derramar gra\u00e7as como uma medida sacudida e ampla: seu pr\u00f3prio Cora\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos reavivar nossas pobres pr\u00e1ticas quaresmais: fazer do cora\u00e7\u00e3o um espa\u00e7o humilde e rico; de nossas m\u00e3os, car\u00edcia e ternura; de nossos p\u00e9s, desejo de proximidade e comunh\u00e3o, para ungir com o azeite e vinho de nossa fragilidade tantos feridos e quebrados que se encontram \u00e0s margens de nossos caminhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Texto b\u00edblico:&nbsp; Mt 6,1-6.16-18<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na ora\u00e7\u00e3o:<\/strong>&nbsp;Orar \u00e9 um exerc\u00edcio de ida ao centro, encontrar-se consigo mesmo na ess\u00eancia do ser, e ali encontrar-se com Aquele que \u00e9 o mais \u00edntimo: o pr\u00f3prio Deus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, orar nunca foi e nem ser\u00e1 obriga\u00e7\u00e3o, regra, norma, lei, mandamento, ou outra coisa qualquer que uma pessoa se sinta for\u00e7ada a fazer. No dizer de S. In\u00e1cio: \u201corar \u00e9 uma conversa\u00e7\u00e3o entre amigos\u201d. Orar \u00e9 um exerc\u00edcio das pessoas que querem se encontrar, centralizar-se, para sempre agir a partir do seu centro, e n\u00e3o a partir de outros centros (opini\u00e3o alheia, costumes, moda, meios de comunica\u00e7\u00e3o, conveni\u00eancia, tradi\u00e7\u00e3o, etc.). Orar \u00e9 um exerc\u00edcio dispon\u00edvel \u00e0queles que querem ter vida a partir de sua pr\u00f3pria vida, junto com o Autor da vida, levando vida a todos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Qual \u00e9 do seu estado de \u00e2nimo ao iniciar o percurso quaresmal?&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Pe. Adroaldo Palaoro sj<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuando jejuares, perfuma a cabe\u00e7a e lava o rosto&#8230;\u201d (Mt 6,17)\u00a0 Quaresma \u00e9 tempo favor\u00e1vel para \u201cordenar a pr\u00f3pria vida\u201d na dire\u00e7\u00e3o do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10099,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10098"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10098"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10098\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10100,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10098\/revisions\/10100"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10099"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10098"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.salvatorianas.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}